Em um lampejo de fervor anticolonialista, há quase 25 anos, as autoridades das Filipinas expulsaram os EUA de uma base naval enorme daqui, na época o maior posto militar norte-americano no exterior. Prometendo se libertar dos “grilhões da ditadura”, declararam que as tropas estrangeiras não retornariam jamais.

Só que, com a pressão agressiva da China pleiteando uma porção de mar a oeste daqui, o país já discute a possibilidade de receber de volta a Marinha dos EUA na baía. E, de quebra, está pedindo de Washington centenas de milhões de dólares para reforçar seu próprio exército, um dos mais fracos da Ásia.

A mudança de ideia é apenas um sinal dos novos cálculos estratégicos na região, principalmente porque o presidente chinês Xi Jinping não quer deixar dúvidas quanto à reivindicação de Pequim sobre quase todo o Mar do Sul da China, transformando atóis em ilhas e instalando unidades militares neles. As fotos de satélite mais recentes parecem mostrar o país se preparando para construir uma terceira pista de pouso em uma das novas ilhotas.

E enquanto ela acelera as obras, o governo norte-americano tem dificuldade para coordenar uma reação na Ásia, onde muitos líderes não sabem até que ponto devem repelir os movimentos da primeira e/ou confiar no segundo.

Vários países alegam ter direitos sobre partes do Mar do Sul da China, por onde passam algumas das rotas marítimas comerciais mais concorridas do mundo e onde se acredita haver grandes reservas de petróleo e gás natural, mas a gana chinesa de estabelecer a região como se fosse só sua abalou mais as Filipinas do que qualquer outra nação. Isso porque uma ilha de população filipina civil se encontra na área em disputa e as forças chinesas ocuparam recifes e baixios antes controlados por ela.

“A briga ainda nem começou e parece que o governo filipino já se rendeu. Não dá nem para contar os navios chineses por aqui, de tantos que são”, diz Renato Etac, 35 anos, capitão de um barco pesqueiro que conta que as embarcações chinesas vira e mexe o perseguem e tentam abalroá-lo.

No ano passado, o governo em Manila assinou um acordo de dez anos que permite aos EUA colocar tropas, armas e equipamentos nas bases de todo o país, mas o pacto empacou por causa de um problema legal. O consentimento gera ambivalência – e preocupação, agravada pela história das Filipinas como território norte-americano de 1898 a 1946 –, além de ansiedade em relação à reação chinesa.

Rene Augusto V. Saguisag, ex-senador que votou pela expulsão dos EUA, entrou na justiça para impedir a transação. “Os EUA e a China têm mais é que nos deixar em paz e não nos envolverem nessa briga de cachorro grande.”

O caso só deve ser decidido na Suprema Corte no fim deste ano.

Se for para frente, o pacto dará aos EUA a capacidade de operar um núcleo próprio bem próximo à área disputada, a cerca de 800 km das novas ilhas criadas pelos chineses. Atualmente as forças norte-americanas na região dependem praticamente das bases no Japão e Guam, a 2.400 km, para reparos.

Outro obstáculo à cooperação militar é o estado decrépito em que se encontram as Forças Armadas filipinas, que há muito sofrem com a falta de modernização e a corrupção. Apesar dos esforços recentes de modernizá-las, ainda faltam equipamentos básicos, incluindo submarinos e caças.

Na ilha de Pag-asa, onde vivem cerca de cem pessoas no território exigido pelos chineses, o prefeito Eugenio B. Bito-onon Jr. prometeu resistir ao que chama de “invasão chinesa”.

“É uma questão de preservar nossa existência”, completa.

As Filipinas estão usando a Guarda Costeira para proteger os atóis e baixios dos avanços do país vizinho e anunciou planos de colocar aviões e fragatas na Baía de Subic no ano que vem.

E também entrou com uma ação no tribunal internacional de Haia, alegando que a reivindicação a quase todos os 3,6 milhões de km² do mar viola as leis internacionais.

Os chineses já avisaram que vão ignorar a decisão judicial, dizendo que as disputas territoriais devem ser resolvidas através de negociações diretas entre as nações afetadas.

Muitos temem que a dependência dos EUA atrase a iniciativa filipina de montar sua própria força militar; outros acham que os norte-americanos estão muito ocupados combatendo o terrorismo no Oriente Médio para ajudá-los.

“Não dá para esperar que alguém venha para nos salvar. Precisamos tomar a iniciativa”, conclui Maria Turco, professora de 42 anos da Baía de Subic.

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