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Forças de segurança no Iraque vêm combatendo o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, grupo militante que resgatou sunitas da prisão para reforçar suas fileiras | Reuters
Forças de segurança no Iraque vêm combatendo o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, grupo militante que resgatou sunitas da prisão para reforçar suas fileiras| Foto: Reuters

Uma série de fugas de prisões iraquianas libertou centenas de militantes que agora estão entre os líderes e soldados dos grupos sunitas radicais que operam na Síria e, cada vez mais, no próprio Iraque. O papel desempenhado pelos ex-detentos em alimentar uma nova onda de jihad sunita na região lembra a ruptura da autoridade no Iraque desde a saída das forças americanas do país, em 2011, e o vazio de segurança que se disseminou pela região.

As fugas também refletem a demanda crescente por combatentes experientes, o que levou a um esforço coordenado de grupos militantes, especialmente do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), a procurá-los no lugar onde eram mantidos em massa: as prisões iraquianas. Esse grupo chegou a dar nome à sua estratégia nas prisões: Operação Derrubando os Muros, que se desenrolou ao longo de uma campanha de 12 meses, até uma grande fuga de Abu Ghraib, a principal prisão iraquiana, situada na periferia de Bagdá, em julho de 2013. Autoridades americanas estimam que centenas dos detentos foragidos ingressaram no EIIL, vários deles em posições de liderança.

Um dos que escaparam foi Abu Aisha, que hoje lidera um grupo de combatentes da Al Qaeda na periferia ocidental de Falluja, sua cidade natal, que se encontra há semanas sob o controle de combatentes sunitas contrários ao governo. Abu Aisha foi mecânico de carros até 2003, mas no combate aos americanos encontrou um novo objetivo na vida. Ele contou que muitos detentos, entre os quais ele próprio, passavam seu tempo na prisão aprendendo as normas e práticas da militância islâmica e se preparando para voltar a travar a jihad quando fossem libertados.

Ele foi capturado originalmente pelos americanos e então libertado de Camp Bucca, prisão americana, em 2008. Foi preso novamente em 2010, dessa vez pelos iraquianos. "Finalmente me levaram para Abu Ghraib, e reencontrei alguns dos líderes e combatentes que já conhecia, entre eles príncipes da Al Qaeda."

Certa noite no verão passado, explosões e disparos começaram a pipocar, e um guarda abriu sua cela e o mandou sair. Com centenas de outros detentos, Abu Aisha escapou através de um buraco aberto num muro por uma explosão. Embarcou num caminhão que o levou à liberdade. Ele contou que os líderes do EIIL lhe deram a escolha: partir e combater com eles na Síria ou ficar e combater no Iraque. "Muitos dos líderes que conheço foram para a Síria depois de fugirem de Abu Ghraib."

As fugas da prisão, e o caos que ajudaram a alimentar na Síria, também tiveram o efeito de mudar o modo de pensar de muitos representantes ocidentais. No início, eles enxergavam o conflito em termos de um ditador, Bashar al-Assad, que oprimia brutalmente seus adversários em grande medida pacíficos. Mas, depois de o EIIL assumir um papel importante no país —em muitos casos combatendo grupos insurgentes mais moderados, para o desagrado da Al Qaeda, que rompeu com o EIIL por essa razão—, as potências ocidentais ficaram ainda mais relutantes em intervir.

Osama al Nujaifi, presidente do Parlamento iraquiano e o mais importante político sunita do país, disse que os combatentes foragidos foram para a Síria. "Então as pessoas começaram a pensar: ‘Será que é melhor ficar com Bashar ou com a Al Qaeda?’."

Entre os grupos mais moderados que lutam na Síria, as fugas de prisões alimentaram teorias conspiratórias. Alguns dizem que o governo sírio —com a ajuda do governo iraquiano do primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki, que vem em grande medida tomando o partido de Assad,— ajudou a orquestrar as fugas.

"Com isso, ao exportar mais combatentes estrangeiros para o território sírio, o governo Maliki fez um favor ao regime de Assad, substanciando sua alegação de estar combatendo o terrorismo na Síria", opinou um líder rebelde em Aleppo, Abduljabbar Osso.

"Sempre tivemos dificuldades em contrabandear armas leves do Iraque para a Síria, atravessando a fronteira iraquiana", comentou outro comandante rebelde, o tenente-coronel Ahmad al-Aboud. "Mas o EIIL teve muita facilidade em levar para a Síria veículos, armamentos e combatentes."

O governo iraquiano não deu muitas explicações de como as fugas de prisões aconteceram, mas existe um consenso de que os detentos tiveram ajuda interna. Parlamentares disseram que, quando tentaram investigar a fuga de Abu Ghraib, foram frustrados pelas forças de segurança e autoridades.

Nem todos os detentos foragidos retornaram à luta. Ahmed al-Dulaymi, 31, que fugiu de Abu Ghraib, está trabalhando no campo, usando identidade falsa. Como muitos sunitas no Iraque, ele explica o ressurgimento recente de extremismo sunita como reação às políticas do governo dominado pelos xiitas, incluindo as grandes operações de segurança que levaram muitos sunitas inocentes à prisão. "Muitos de meus amigos eram pessoas boas, mas, devido às ações do governo, eles se tornaram pessoas perigosas e líderes da Al Qaeda."

Colaboraram Azam Ahmed, Habib Zahori, Haris Kakar e Matthew Rosenberg

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