
A revolucionária mostra do Museu de Arte Moderna, "Gauguin: Metamorphoses", consegue reformular radicalmente a nossa compreensão de um dos maiores pintores franceses do século XIX.
Com uma combinação de delicadeza e quietude que contrasta com as cores fortes e composições das pinturas pós-impressionistas mais famosas de Paul Gauguin, a exposição redefine seus trabalhos e sua sensibilidade ao nos oferecer uma nova visão de seus processos e do turbilhão emocional que tinha dentro de si. Sem tentar causar comoção nem romancear o mito do artista-rebelde, ela torna o homem e seu legado modernista mais complexos.
No caso de Gauguin, o mito era o de um herói que fugiu dos males da civilização moderna para uma terra intocada, no meio do povo supostamente primitivo do Taiti, em busca de uma espiritualidade mais profunda, mas também de relacionamentos mais liberais.
Dos 170 trabalhos reunidos, apenas onze são pinturas, cujos cenários exóticos e belezas morenas solenes idealizam um estilo de vida simples que, para decepção do artista, já tinha sido afetado por influências europeias quando chegou ao paraíso com que há tanto tempo sonhara, em 1891, aos 43 anos. O grande destaque, porém, são as sequências de gravuras vibrantes, menos conhecidas, feitas a partir de entalhes de madeira. Experimentais, elas criam um devaneio de temas recorrentes que provam ser ainda mais sedutores na galeria aberta. Também está presente a incrível variedade de impressões para a magnífica série de xilogravuras "Noa Noa" ("Aroma Cheiroso") de 1893-94 que, na forma acabada, pode ser vista como o mito de gênese taitiano, mas mostra principalmente uma grande obsessão com o humor, a forma e o ambiente em pequenos pedaços de papel.
Além das gravuras, a exibição inclui desenhos de transferência e incursões em cerâmicas e entalhes cujas cenas de ídolos, deuses, idólatras e amantes são um verdadeiro deleite. Juntas, essas peças nos dão um Gauguin para o nosso tempo, menos pintor e mais reciclador multimídia que se apodera de imagens e as explora através de métodos diferentes.
Ele está sempre superando os limites físicos, mais notavelmente nos inovadores desenhos de transferência a óleo feitos no fim da vida, quando trocou o Taiti pelas Ilhas Marquesas, ainda mais remotas, onde veio a falecer, em 1903.
E vemos algo que raramente aparece em suas pinturas: uma variedade tremenda de toques, dos sombrios e abstratos como as imagens de seus entalhes às impressões para aquarela, que revelam uma leveza tão grande no papel que dão a impressão de poderem sair voando.
Gauguin viveu até os 54 anos, mas a fase madura de seu trabalho durou apenas quatorze. Em 1889, ele fez a série Volpini de impressões em zincografia, a primeira de três conjuntos de gravuras que formam a espinha dorsal da mostra do MoMA. Impressas em papel amarelo com margens generosas que por si só já são incomuns mostram Gauguin repetindo pinturas feitas na Bretanha (camponesas de chapéus brancos) e Martinica (camponesas levando cestas de legumes e verduras na cabeça).
Após a série Volpini, Gauguin se dedicou à xilografia. Foi atraído pela flexibilidade e a simplicidade da técnica. Cada gravura poderia ser facilmente marcada de forma diferente, dependendo do modo como a tinta fosse aplicada e da pressão no papel, da cor branca, creme ou rosa clara do papel, das adições feitas à mão. Ao lado dá para ver todas as mudanças registradas nas quatro versões de "Women at the River", uma imagem da série "Noa Noa" que lembra "Be Mysterious".
Ainda mais marcante é a sequência de cinco entalhes de "Oviri" ("Selvagem"), baseada em um ídolo feminino de pedra (também exposto) que deveria enfeitar o túmulo do artista, mas agora está no Musée dOrsay, em Paris. Em uma gravura com adições em aquarela, a imagem é tão leve que o fundo desaparece e a figura aparenta surgir do meio da névoa. Em outra, mais completa, mas mais apagada, ela parece envolta na luz do crepúsculo.
Essa exposição, que vai até oito de junho, basicamente desconstrói a arte de Gauguin e deixa claro que seu interesse em outras culturas foi fundamental para o trabalho de Picasso. Por isso, não se surpreenda se reconhecer mais do que um ou dois sinais do revolucionário "Les Demoiselles dAvignon" do espanhol entre as obras de Gauguin.







