Manikchand Lodha, membro do Jainismo, fez o voto do santhara e jejuou até morrer, em agosto. Um juiz declarou a prática suicídio, que vai contra as leis da Índia | Serena De Sanctis/The New York Times
Manikchand Lodha, membro do Jainismo, fez o voto do santhara e jejuou até morrer, em agosto. Um juiz declarou a prática suicídio, que vai contra as leis da Índia| Foto: Serena De Sanctis/The New York Times

Durante a semana inteira, uma verdadeira procissão entrou e saiu da bonita casinha onde mora a família Lodha.

Em uma cama, no canto do quarto, cercado de visitantes respeitosos, o patriarca do clã, de 92 anos, Manikchand Lodha, jejuava para morrer – clímax de um ato de santhara, estado de inanição voluntária assumido todo ano por centenas de membros do Jainismo, uma religião antiga e austera.

Três anos atrás, uma queda deixou o Sr. Lodha acamado. Primeiro, ele renunciou aos prazeres como chá e fumo; a seguir, às coisas que amava, como a TV. Desistiu dos remédios e até do colchão de ar que aliviava suas escaras. Em dez de agosto, assumiu o voto e desistiu de comer e beber – e morreu no dia 16, com a casa enfeitada de bandeirolas.

“Olha para a gente – alguém aqui parece estar de luto? Estamos é comemorando porque alguém na família conquistou algo grandioso”, diz Sunita, nora do Sr. Lodha. O ancião fez o juramento no mesmo dia em que um juiz do estado do Rajastão declarou o jejum uma forma de suicídio, que é ilegal sob a lei indiana.

A questão constitucional é espinhosa para o país que preserva tanto o direito da vida como o da prática religiosa. Os rituais fazem parte do dia a dia da Índia. Seus líderes, de Gandhi a Narendra Modi, sempre observaram jejuns rigorosos.

No dia 31 de agosto, a Suprema Corte suspendeu a proibição, decisão que deve permanecer válida por pelo menos quatro anos, ou até que seja questionada em audiência.

Os jainas, que chegam a aproximadamente seis milhões, têm destaque no cenário comercial indiano, pois dominam o setor de diamantes – mas há também aquele que de vez em quando decide jogar tudo para o alto e sair descalço, como mendigo errante, renunciando à família e à carreira para viver da caridade alheia.

Nenhuma prática, porém, é mais exigente que o santhara, que foi mencionado pela primeira vez em textos escritos há mais de 1.500 anos e deriva de uma palavra do antigo idioma prakrit que significa “cama de grama”. De acordo com a doutrina jainista, a experiência – que geralmente deve ser aprovada por um guru e a família do indivíduo – queima o véu do carma que cobre a alma.

Em 2006, um ativista chamado Nikhil Soni entrou na justiça alegando que a prática violava a proibição indiana ao suicídio e que estava sendo usada para livrar as famílias do peso de cuidar dos membros mais velhos.

Líderes jainas, que já estão se mobilizando para entrar com uma apelação na Suprema Corte, recentemente organizaram protestos pelo país.

Enquanto isso, as famílias já não alardeiam mais o jejum dos parentes como se fazia antes, com cartazes e anúncios nos jornais.

Babulal Jain Ujjwal, que publica uma newsletter sobre os assuntos da religião em Mumbai, conta uma média de 450 santharas anuais desde 2009, mas afirma que os anúncios caíram drasticamente no início deste ano, talvez porque agora as famílias mantenham a decisão em segredo.

“O santhara continua acontecendo, não há dúvida quanto a isso, mas agora ele não é mais divulgado”, afirma.

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