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| Foto: Julio Pantoja/Infoto/Associated Press

Em San Miguel de Tucumán, no empobrecido norte da Argentina, os traficantes de sexo têm como alvo pessoas em situação vulnerável. Eles atraem mulheres com ofertas de emprego e depois as conduzem a grandes cidades, polos de mineração e regiões agrícolas, onde elas são forçadas a se tornarem escravas sexuais.

Hoje, algumas dessas mulheres conseguem escapar com a ajuda da Fundación María de los Ángeles, ONG fundada por Susana Trimarco, cuja filha foi vítima desse tipo de crime 12 anos atrás.

A filha, María de los Ángeles Verón, que então tinha 23 anos, saiu de casa para uma consulta médica em abril de 2002 e nunca mais voltou.

Algumas testemunhas afirmam que ela foi assassinada e sepultada em uma província vizinha, La Rioja, onde a demanda por prostitutas é alta entre os trabalhadores sazonais. Mas seu corpo jamais foi encontrado.

Frustrada por uma investigação que ela diz ter sido dificultada pela máfia local e pela corrupção de juízes e policiais, Trimarco decidiu que sairia pessoalmente em busca da filha.

Por conta disso, Trimarco, 59, teve sua casa incendiada e escapou de duas tentativas de atropelamento. Ela continua a receber ameaças de morte, mas jamais desistiu. "O desespero de uma mãe a cega", diz, "e a torna destemida".

As ações de Trimarco forçaram a inclusão da questão do tráfico sexual na agenda política da Argentina e lhe valeram reconhecimento internacional.

"Vivo uma batalha permanente", disse. "Do momento em que acordo até o momento de dormir, vivo para isso. Quero encontrar minha filha viva."

Trimarco obteve nomes de cafetões e traficantes de sexo nos arquivos da polícia. Depois, conseguiu se infiltrar em bordéis disfarçada de cafetina e fez ofertas de compra das mulheres e meninas que esses estabelecimentos mantinham cativas, algumas das quais com apenas 14 anos de idade —o preço de compra era de cerca de US$ 800.

Ao longo dos anos, Trimarco, cujo marido morreu em 2010, tornou-se guardiã de 129 antigas escravas sexuais. Ela as abrigou em sua casa, onde também cuida de Micaela, a filha de Verón, que tinha três anos quando sua mãe foi sequestrada. Em 2007, Trimarco criou a Fundación María de los Ángeles, organização de resgate e reabilitação de escravas sexuais. A ONG criou centros em outras cidades importantes da Argentina.

Por fim, a investigação oficial sobre o desaparecimento de Verón resultou em 13 indiciamentos e um julgamento que indignou os argentinos quando os 13 acusados foram absolvidos, em dezembro de 2012.

Foi só no primeiro mandato da presidente Cristina Kirchner, em 2008, que a Argentina criou uma lei que torna o tráfico de pessoas crime federal.

Mais de 2.500 vítimas do tráfico sexual foram resgatadas desde então, de acordo com dados do Ministério da Justiça.

No caso de Verón, os juízes concluíram que existia uma "rede malévola de exploração sexual" em Tucumán, mas afirmaram que as provas disponíveis eram insuficientes para condenar os 13 acusados.

Em dezembro, um tribunal de recursos reverteu a decisão dos juízes, condenando 10 dos 12 acusados (o último deles havia morrido). Em abril, eles receberam sentenças de prisão de entre 10 e 22 anos. Trimarco disse que estava satisfeita com as sentenças, mas que nunca deixaria de procurar por sua filha. "É impossível viver sem saber", disse. "Você não tem paz na vida".

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