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Os jindos coreanos são conhecidos pela lealdade e instinto de lar. Um filhote com três meses | Jean Chung/ The New York Times
Os jindos coreanos são conhecidos pela lealdade e instinto de lar. Um filhote com três meses| Foto: Jean Chung/ The New York Times

Esse povoado com cabanas de telhados vermelhos e azuis adormecia. Ervas daninhas com flores amarelas cresciam nos cantos de jardins empoeirados e através de rachaduras no pavimento de vielas desertas. O único "hagwon" da cidade, uma escola particular, estava vazio, pois muitas famílias com crianças em idade escolar já haviam se mudado.

Donji-ri, em Jindo – uma ilha a sudoeste da península coreana, perto de onde uma balsa afundou em abril –, era uma típica cidade rural da Coreia do Sul, exceto por uma única característica chamativa.

Esculpida numa colina está a frase, em letras brancas: "Aldeia do cachorro branco que voltou para casa".

Jindo, antes do desastre com a balsa, era conhecida principalmente por uma coisa: seus cachorros. E Donji-ri é a aldeia de cães mais famosa da ilha.

Chamados de jindos coreanos, eles são a raça canina mais celebrada da Coreia do Sul, famosos por sua lealdade e instinto de lar. Os habitantes da ilha contam diferentes histórias sobre as origens dos cães.

Alguns dizem que os animais chegaram com invasores mongóis, há muitos séculos. Outros afirmam que seus ancestrais mantinham lobos domesticados. Todos eles se lembram de que seus avós usavam os cachorros, distintos por suas orelhas e rabos empinados, para capturar camundongos e perseguir faisões e cervos nas colinas.

Designados como tesouro nacional em 1962, os jindos encontraram uma poderosa patrocinadora na presidente Park Geun-hye, que ganhou um casal de cães brancos de vizinhos em Seul quando se mudou para a Casa Azul presidencial, no início do ano passado. Em janeiro, ela elogiou o companheirismo dos cachorros durante uma coletiva de imprensa televisionada para todo o país.

"Os cães são o orgulho de nossa ilha", declarou Lee Seong-kyo, funcionário público de Jindo e dono de um "parque temático do jindo coreano", que abriga um museu, um hospital canino e um centro de adestramento.

Os jindos também são um meio de vida. Os antigos pilares da ilha, o arroz e outras produções agrícolas, acabaram devido ao baixo custo das importações. Quando o número de habitantes caiu de 100 mil, na década de 1970, para os atuais 28 mil, Jindo voltou-se à sua população canina.

Praticamente todas as famílias da ilha criam cachorros: de 30 a 50 mil filhotes chegam todo ano, vendidos por até US$1.000 cada.

Mas em nenhum lugar o orgulho pelos cachorros é mais forte do que em Donji-ri.

Essa é uma obsessão que remonta a um cachorro branco. De acordo com a história, em 1993, uma velha senhora chamada Park Bok-dan vivia sozinha com uma cadela de 5 anos chamada Baekgu, ou "cachorro branco". Mas Park a considerava um incômodo, pois a cadela gerava ninhada após ninhada.

Cansada, Park vendeu Baekgu.

"Então, numa noite de outubro sete meses depois, minha mãe foi acordada por um choro", contou o filho de Park, Lee Ki-seo, de 58 anos. "Baekgu estava ali. Minha mãe nunca mais se separou dela". Baekgu acabou se tornando uma lenda. Ela morreu em 2000, com 12 anos. Os aldeões a enterraram na entrada principal da cidade e ornaram o túmulo com uma lápide, uma estátua de bronze e um monumento de pedra dizendo: "As crianças deveriam aprender com o leal cachorro branco".

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