| Adam Dean para The New York Times
| Foto: Adam Dean para The New York Times

Boquiaberto e transpirando, Chen Weizhou olhava bonecas de silicone em tamanho natural com lingeries. Acima delas, um tutorial em vídeo mostrava como as bonecas, uma vez despidas, eram realistas ao tato.

Chen, 46, motorista de ônibus, é casado e havia ido ao Festival Nacional da Cultura Sexual, em Cantão, atrás "de diversão". "Quando você é jovem, o sexo é misterioso, mas quando você se casa ele fica insípido", disse.

Com o tema "sexo saudável, famílias felizes", a 11a edição da feira anual, de 8 a 11 de novembro, buscou remediar o drama de homens chineses como Chen —e das suas mulheres. A esmagadora presença de homens na feira reflete um desequilíbrio demográfico na China, onde décadas da política do filho único e uma preferência cultural por filhos homens se combinaram com os abortos seletivos de meninas, prática ilegal, gerando uma distorção de gênero nos nascimentos, com 118 bebês meninos para cada 100 meninas em 2012.

Na província de Guangdong, onde há cerca de 30 milhões de trabalhadores migrantes, a escassez de mulheres limita as opções dos solteiros.

Na capital de Guangdong, no sul da China, milhares de visitantes, quase todos homens de meia idade portando câmeras, percorriam os corredores do centro de exposições em busca de qualquer pedaço de carne visível.

"Os caras passam o dia tirando fotos minhas", disse a modelo Liang Lin, 23, que vestia só um biquíni e abraçava defensivamente a barriga descoberta, enquanto uma multidão masculina se acotovelava em busca do melhor ângulo.

Três décadas depois de a China começar a se desfazer dos pudicos costumes da era maoista, o sexo virou um grande negócio. Em todo o país, "salões de cabeleireiro" com iluminação rósea e atendentes femininas em trajes provocativos competem com as clínicas de massagens e as acompanhantes pagas que enfiam seus cartões de visita sob portas de quartos de hotel. Quem quer apimentar seus encontros pode fazer compras em lojas de "produtos para saúde adulta" ou pela internet.

Segundo a imprensa estatal, mais de mil empresas chinesas produzem cerca de 70% dos brinquedos sexuais do mundo, faturando US$ 2 bilhões por ano, conforme dados de 2010.

O Partido Comunista proíbe a pornografia e pune os culpados por "licenciosidade grupal", em nome da proteção de valores chineses tradicionais, mas a autoridade moral do partido vem sendo abalada por causa da revelação de peripécias sexuais de alguns dirigentes. Em junho, um funcionário do governo foi sentenciado por corrupção depois da divulgação de um vídeo em que ele aparecia na cama com uma moça de 18 anos.

Em um esforço por conferir um verniz de respeitabilidade à feira, organizações médicas governamentais mantiveram alguns estandes, que ficaram às moscas. O apelo principal era a luxúria.

Esses desejos insaciados contribuem para a explosão do mercado doméstico dos brinquedos sexuais. A rede chinesa Buccone vende acompanhantes inanimadas de luxo. Essas bonecas de borracha, que custam US$ 6.400, se aquecem "como uma pessoal real", disse o funcionário Nie Tai, 23, e podem ser customizadas.

Li Jianglin, 42, gerente de uma fábrica de calçados, venceu um concurso em que os participantes inflavam um preservativo, tentando estourá-lo antes dos concorrentes. Ele ganhou um prêmio em dinheiro equivalente a US$ 0,16, camisinhas com aroma de morango e um aparelho a pilha, rosa, com os dizeres "domine pelo gozo" na caixa. Ele examinou a geringonça.

"Essas camisinhas são úteis, mas não sei o que é esse troço."

Uma corretora imobiliária aposentada, de 66 anos, acariciava um aparelho de formato anatômico, que seu marido comprou por US$ 8. A mulher, que se identificou apenas como sra. Huang, comentava com deslumbramento como tudo mudou desde seu casamento, em 1975. "Na época, sob o Mao, a gente nem podia falar de sexo", disse. E como então o casal aprendeu? Ela sorriu. "Instinto."

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