
O governista Nicolás Maduro foi empossado nesta sexta-feira (19) para um mandato de seis anos como presidente da Venezuela sob a sombra do falecido Hugo Chávez e de uma auditoria total das urnas autorizada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) após apresentação de pedido formal pela oposição. Nas ruas de Caracas milhares de partidários de Maduro celebravam a posse do homem declarado herdeiro político de Chávez pouco antes de sua morte. Durante o discurso, Maduro disse que espera "pobreza zero" no país até 2019 (leia ao lado).
A oposição espera que a auditoria total das urnas eletrônicas revele um resultado diferente do oficial, apesar de analistas políticos considerarem improvável que isso aconteça. Segundo o CNE, Maduro venceu o opositor Henrique Capriles por uma margem de 1,77 ponto porcentual.
Vencedor da eleição mais acirrada da história recente venezuelana, Maduro assume a presidência com o respaldo da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que ontem à noite reuniu-se emergencialmente em Lima para tratar do momento de tensão política na Venezuela.
De Lima, os chefes de Estado da Unasul seguiram para Caracas. A posse contou com a presença das presidentes brasileira e argentina, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, e dos chefes de Estado da Colômbia, Juan Manuel Santos; do Uruguai, José Mujica; da Bolívia, Evo Morales; da Nicarágua, Daniel Ortega; e de Cuba, Raúl Castro, entre diversos outros. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad também esteve presente.
A cerimônia estava marcada para as 11h locais (12h30 em Brasília), mas começou com mais de duas horas e meia de atraso. O juramento de posse ocorre um dia depois de o CNE ter anunciado que uma auditoria realizada nas urnas eletrônicas seria ampliada para abranger a totalidade dos votos do último domingo.
Logo depois da oficialização do resultado, o CNE já havia auditado 54% das urnas, conforme exige a legislação eleitoral Venezuela. A decisão tomada na noite de ontem abre caminho para a auditoria das urnas restantes.
A auditoria completa levará cerca de 30 dias para ser concluída, disse Tibisay Lucena, a presidente do CNE. Caso a auditoria revele um resultado diferente do oficial, a lei prevê revogação do mandato do presidente.
Ainda não se sabe se a decisão do CNE resultou de alguma gestão diplomática prévia à reunião da Unasul. Além da oposição, os Estados Unidos, a Espanha e a Organização dos Estados Americanos (OEA) exigiam uma recontagem dos votos.
Em nota oficial, a Unasul felicita o povo venezuelano pela "massiva participação" nas eleições presidenciais de 14 de abril e "saúda o presidente Nicolás Maduro pelos resultados dos comícios e sua eleição como presidente da República Bolivariana da Venezuela". Também insta todos os "setores que participaram do processo eleitoral a respeitar os resultados oficiais da eleição".
Ex-chanceler venezuelano, Maduro foi nomeado presidente interino após a morte de Chávez, no início de março, até a realização das eleições, no último domingo.
Fim do ódio
Maduro assegurou que está disposto a dialogar com o líder da oposição, Henrique Capriles, para que "cesse seu ódio" e com quem votou contra si nas eleições do dia 14. Maduro chamou, no entanto, Capriles de "novo Carmona", em alusão a Pedro Carmona, efêmero presidente autoproclamado durante o fracassado golpe de Estado de 2002, e o acusou de intolerância contra o povo venezuelano e latino-americano.
"Estou disposto a conversar até com o 'diabo', que Deus me perdoe, até com o novo Carmona se for necessário, para que cesse seu ódio contra meu contra o povo, para que cesse sua intolerância", afirmou Maduro durante seu discurso de posse.
O novo presidente, de 50 anos, também estendeu a mão a quem votou contra si nas eleições do domingo, e assegurou que quer manter um diálogo diretamente com essa parte da população. "As eleições passaram, há saldos dramáticos da violência, eu clamo a todo o povo, aos homens e mulheres que por alguma razão votaram contra o candidato da pátria e contra este projeto de democracia e de socialismo", acrescentou ao se referir a sua proposta política.
Pelo menos oito mortos e 61 feridos é o saldo de incidentes registrados após protestos da oposição na segunda-feira passada, por causa da proclamação esse mesmo dia de Maduro como vencedor do pleito.
Maduro ganhou as eleições com uma vantagem de 272 mil votos, menos de dois pontos percentuais dos sufrágios, o que levou Capriles a não reconhecer o resultado até a revisão de 100% dos votos. "Eu lhes estendo a mão, eu quero trabalhar com vocês", disse Maduro, em discurso infestado de acusações a "uma parte" da oposição à qual acusou de xenofobia, de racismo e de golpismo. "Nós garantimos a paz deste país, já dissemos isso", afirmou.
Maduro também se dirigiu aos partidos da oposição para manter um diálogo, pedindo a eles para "parar com a sabotagem elétrica". "Basta de divisão, de intolerância, de ódio", exclamou.
Maduro disse que nunca quis ser presidente e que está no cargo por "uma circunstância histórica". Maduro tomou posse como presidente para o período 2013-2019, que começou com o falecido Hugo Chávez em 10 de janeiro, na Assembleia Nacional em cerimônia da qual não participou a bancada da oposição.
Posse de Maduro



