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O futuro presidente do México pode ser um enigma

Andrés Manuel López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, lidera as pesquisas para as eleições do dia 1° e apresenta duas versões: a de um político pragmático e a de um populista errático

  • Cidade do México
  • Kevin Sieff, Joshua Partlow
  • Washington Post
Andrés Manuel Lopez Obrador, candidato à presidência do México, discursa durante comício em Chilpancingo | Yael Martinez/Bloomberg
Andrés Manuel Lopez Obrador, candidato à presidência do México, discursa durante comício em Chilpancingo Yael Martinez/Bloomberg
 
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Semanas antes das eleições presidenciais no México, marcadas para próximo domingo, algumas das maiores empresas do país emitiram graves advertências escritas para seus empregados, alertando-os para não deixarem se enganar por perigosos populistas. Foram advertências veladas em direção a um candidato: aquele que tem mais chances de se tornar o próximo presidente do país, Andrés Manuel López Obrador. 

A ascensão dele é vista pelos seus oponentes como a maior ameaça ao México, desde que o país abraçou a democracia e uma economia de livre mercado no final do século 21. Um presidente alertou sobre “efeitos catastróficos” em uma carta aos funcionários. Outro disse que as propostas do candidato poderiam fazer o país voltar décadas atrás. 

López Obrador, de esquerda e ex-prefeito da Cidade do México, lidera as pesquisas, grande parte devido a uma plataforma anticorrupção que ressoou em muitos mexicanos pobres e da classe média. “É uma honra estar com Obrador”, gritam, entusiasmados, seus apoiadores nos comícios. 

Mas executivos das mais poderosas empresas privadas do México sugerem que as mais dramáticas políticas de Lopez Obrador podem ter efeitos devastadores na economia. Analistas e intelectuais afirmam que a sua falta de respeito pelas instituições governamentais podem terminar em um período de quase autocracia. 

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As apostas são grandes, inclusive fora do México. O país é o terceiro maior parceiro comercial dos Estados Unidos e a cooperação é crucial na luta contra o tráfico de drogas. O próximo presidente mexicano poderá herdar negociações problemáticas sobre o Nafta. O governo americano quer alterá-lo para ser mais favorável aos trabalhadores americanos. 

Muitos mexicanos dizem que o temor à presidência de López Obrador é exagerado e é estimulado por seus oponentes políticos. Na reta final da campanha, o candidato aparenta abraçar certo centrismo, cortejando muitos dos líderes empresariais que expressaram preocupação em relação à sua ascensão. 

Nas últimas semanas, López Obrador e seus assessores se encontraram com investidores estrangeiros para assegurar que o candidato é um defensor do livre mercado e de um forte setor privado. Entre seus principais assessores estão milionários que tem contradito algumas das posições políticas do candidato, sugerindo que os contratos privados de perfuração petrolífera não serão afetados, por exemplo. Mas López Obrador tem dito que ele não permitirá que o petróleo “retorne a mãos estrangeiras.” 

“Não temam”, escreveu Lopez Obrador em uma carta a executivos, que foi publicada no jornal El Financiero. 

Medo de turbulências

Muitos observadores da eleição veem duas versões de López Obrador: uma a de pragmático, como o político, com prudência fiscal, que mostrou ser enquanto governava a cidade do México de 2000 a 2005. A outra, a de um populista errático com propostas que podem levar à turbulência econômica. Isto incluiria gastos crescentes com políticas sociais, impondo um teto nos preços da gasolina e freando a reforma, instituída em 2013, que resultou na liberalização da indústria petrolífera mexicana. Durante muito tempo ela foi um monopólio estatal. 

“O futuro realmente dependerá de qual López Obrador teremos”, diz John Padilla, da IPD Latin America, uma consultoria regional de energia; 

López Obrador concorreu duas vezes à presidência. E algumas pessoas veem razões adicionais para se preocupar por causa da forma com lidou com a derrota nas eleições de 2006, quando perdeu por uma pequena diferença. Ele liderou protestos que duraram semanas no centro da Cidade do México, declarando-se o verdadeiro presidente do país. E anunciou seu desdém pela Justiça e pelo sistema eleitoral mexicano. “Ao inferno com as instituições”, gritava. 

Agora, os mexicanos se perguntam sobre o que significam esses comentários sobre o estilo de governo de López Obrador. “A principal preocupação em relação a ele é sobre suas credenciais democráticas. Ele governará como um democrata?”, se questiona Luis de la Calle, um ex-subsecretário do Ministério da Economia. 

López Obrador tem prometido mudanças institucionais ao longo da campanha eleitoral. Ele pretende promover um referendo sobre a sua presidência após três anos, saindo antes se perder, ao invés de completar os seis anos de mandato, conforme previsto na Constituição mexicana. 

Outros gestos têm sido mais teatrais: ele disse que não irá morar no palácio presidencial ou voará no avião presidencial, que López Obrador disse que venderá para o presidente americano Donald Trump. 

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Estas promessas não desrespeitam os valores democráticos do México, mas mostram um líder disposto a se afastar das normas institucionais para consolidar-se no poder, apontam alguns especialistas. O modelo seria o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. 

Entre 1929 e 2000, o México foi governado por um único partido, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), e durante a maior parte desse período, o governo exerceu um papel relevante na economia e reprimiu a oposição. Mais do que um esquerdista, alguns dizem, López Obrador poderia representar uma volta a essa época. 

“Ele não é Chavez. Ele é um integrante do PRI dos anos 60”, diz Luis Rubio, presidente do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento, um think-tank. 

Mas o México mudou drasticamente desde essa época. A adesão ao Nafta implicou em um grande número de Walmarts, fábricas de automóveis e Burger Kings. Uma democracia multipartidária surgiu. Em 2013, o Congresso aprovou uma reforma no setor energético que possibilita que empresas estrangeiras procurem petróleo na costa mexicana. Foi uma grande mudança em um país cujas reservas petrolíferas foram vistas, durante muito tempo, como um símbolo nacionalista. 

Hector Vasconcelos, um assessor de política externa de López Obrador, disse que, ao contrário da esquerda histórica latino-americana que pensa que os Estados Unidos querem subjugar a região, eles não acreditam nisso. 

“Não queremos um confronto com os Estados Unidos”, disse Vasconcelos, que é cotado para ser o ministro das Relações Exteriores se López Obrador for eleito. O assessor afirmou que o que a campanha quer é uma “aliança para o crescimento econômico”. 

Temores em alta

Em suas cartas pré-eleitorais a seus funcionários, muitas empresas mexicanas criticaram algumas propostas de López Obrador, sem enumerá-las.  “Temos ouvido propostas inquietantes de nacionalização de empresas e o abandono das reformas energética e educacional, entre outras ideias que poderiam fazer com que o país voltasse décadas atrás, em direção a um modelo que comprovadamente não funciona”, escreveu Germán Larrea, executivo-chefe do conglomerado Grupo México. “Venezuela, Argentina, Cuba, a ex-União Soviética, entre outros, são testemunhas daquilo.” 

Muitos analistas e diplomatas dizem que há uma pequena chance de López Obrador tentar alterar o modelo econômico mexicano. Ele tem prometido que não haverá expropriações ou nacionalizações. Mas alguns de seus apoiadores certamente irão pedir mudanças. 

A declaração de princípios do partido de López Obrador, o Movimento de Regeneração Nacional (Morena), destaca que o “modelo neoliberal” tem servido a um estado mafioso construído por uma minoria que domina o poder político e econômico no México. 

Os maiores aplausos que López Obrador recebe em seus comícios vem em resposta às falas sobre crimes da elite política mexicana. Mas seus apoiadores são rápidos em dizer que López Obrador não irá nacionalizar empresas, como o governo tem feito na Venezuela, que passa por uma severa crise econômica.  “Por que iriamos nos inspirar em um país que é um desastre”, diz Marcelo Ebrard, ex-prefeito da Cidade do México. 

López Obrador tem prometido limitar os aumentos nos preços da gasolina, para evitar maiores impactos sobre a inflação. E também quer rever os contratos de petróleo e gás assinados durante o mandato do presidente Enrique Peña Nieto. 

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O candidato tem um longo histórico de ativismo político relacionado ao petróleo: sua carreira política começou nos anos 70 em Tabasco, um estado às margens do Caribe, onde liderou protestos contra a Pemex, a companhia petrolífera nacional, por não compartilhar seus lucros localmente. 

Ele disse que o México deveria parar de exportar petróleo cru. Mas, deveria desenvolver suas próprias refinarias, uma proposta que tem pouco sentido econômico para especialistas no setor energético. “Quando se trata de energia, é uma preocupação legitima para ter. Acredito que a hora da verdade virá se ele tentar cumprir suas promessas de limitar os preços do combustível”, afirmou Padilla, o consultor na área energética. “Isto afetará a confiança dos investidores, particularmente os da área energética.” 

O México passou por várias crises econômicas causadas por políticas governamentais falhas. Grandes desvalorizações do peso foram registradas em 1976, 1982 e 1994. Para muitos mexicanos, especialmente no mundo dos negócios, estas lembranças funcionam como um guia para o temor em relação a uma presidência de López Obrador. 

Enquanto López Obrador tem proposto uma série de novos programas sociais – para os pobres, os incapacitados e os idosos -, ele também tem dito que não vai aumentar a dívida pública do país. E tem prometido não aumentar os impostos, mesmo para os mexicanos mais ricos. Segundo ele, os programas de bem estar serão financiados pelo dinheiro que ele pretende obter com o combate à corrupção. Ele estima que o valor pode chegar a US$ 20 bilhões. 

Muitos analistas estão céticos em relação a este plano. “De onde vai sair este dinheiro? Ele disse que não vai aumentar os impostos, mas em que outro lugar pode se obter esta quantidade? É um verdadeiro ponto de interrogação”, diz Esteban Illades, editor de Nexos, uma revista cultural e política.

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