O professor de História Política da Universidade da Macedônia, Nikolas Marandzidis, está chocado com a ascensão da extrema-direita neonazista na Grécia. Para ele, o país está no mesmo caminho da Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial, que levou à ascensão do partido de Adolf Hitler.
Como um país que foi berço da democracia chegou à situação atual, com uma extrema-direita nazista com sucesso nas eleições?
A primeira razão é a crise econômica profunda. Outra razão é a crise de legitimidade do sistema político. Há uma década estamos vendo que uma grande parte da sociedade está contestando as elites políticas, vistas como corruptas e incompetentes. A terceira razão é a existência de uma linguagem nacionalista, populista e demagoga que ultrapassa a barreira da extrema-direita. Esta linguagem, que culpa ocidentais, bancos, a Alemanha e os capitalistas, levou parte da sociedade a votar num partido nazista. Se somarmos todos os outros partidos extremistas e demagogos, os 7% de voto para a extrema-direita sobem para entre 20% e 25%.
Então o extremismo na Grécia é muito maior do que 7%?
Sim. Tivemos uma extrema-esquerda forte por décadas. Agora temos outro extremo, de direita. Podemos dizer que estamos verdadeiramente no período Weimar. É terrível e chocante dizer isso, mas sinto que estamos caminhando para uma espécie de repetição disso, com dois extremos muito fortes: os partidos de centro enfraquecidos, e ao menos metade da sociedade sem acreditar nos valores liberais e democráticos.
Como isso acontece num país com história de resistência ao nazismo, ao imperialismo e ao autoritarismo?
Muitos eleitores da extrema-direita são muito jovens, têm menos de 30 anos. Os que nasceram em 1990 não conhecem praticamente nada e não viveram a experiência do autoritarismo ou da ocupação alemã. Tivemos uma ditadura de 1967 a 1974, e a geração atual também não tem memória deste autoritarismo. Para eles, a Aurora Dourada é algo positivo para a identidade nacional. É um discurso típico de extrema-direita, mas não é a primeira vez que há este discurso na Grécia. O nacionalismo é a ideologia dominante no país. Este nacionalismo, que também é antiliberal, contribuiu para o fenômeno do Aurora Dourada.
Acadêmicos diziam que a Grécia era uma exceção: não tinha partido de extrema-direita porque o nacionalismo existia há muito tempo, e a Igreja e os partidos abriam espaço para este sentimento. Por que a mudança?
Há uma crise de legitimidade do sistema, que é visto como podre e incapaz. E, em segundo lugar, há a crise econômica, que uma parte da sociedade atribui às forças estrangeiras, isto é, aos alemães. Como resultado, temos uma radicalização do nacionalismo grego. Parte da sociedade rejeita o Ocidente e seus valores liberais, e também o sistema político. Então, se dirige aos extremos que prometem varrer todo o sistema e construir algo novo. Os que votaram nos extremistas têm uma raiva tão grande que não veem que uma extrema-direita nazista não vai levar a lugar algum.
Alguns gregos minimizam o fenômeno da extrema-direita, dizendo que foi apenas um voto de revolta e que, nas próximas eleições, isso não se repetirá porque gregos não são extremistas. Mas o senhor contradiz isso, não?
É possível que, se houver novas eleições, a extrema-direita perca alguns votos. Mas é superficial dizer: "Ok, passamos da fase do extremismo e agora estamos em nova fase". Não acho. Estamos diante de um enorme problema que tem facetas múltiplas, e uma delas é a dominação de um nacionalismo que pode utilizar, ao mesmo tempo, um discurso de extrema-direita ou de extrema-esquerda, que se multiplicou na nova geração, acusando estrangeiros, imigrantes, capitalistas, um discurso dos anos 30. Não será fácil se livrar desse problema.
O que é preciso fazer, então?
Precisamos trabalhar muito no nível da ideologia e encarar a realidade. Não podemos apenas dizer que os gregos são democráticos e liberais e que só tivemos um pequeno problema com um partido neonazista marginal. Mais de 60% da população percebem a imigração como problema e não veem que a coexistência cultural pode trazer muitas vantagens.



