
Ouça este conteúdo
A proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, de estabelecer limites para a taxa básica de juros no Brasil reacendeu o debate sobre os riscos de interferência na política monetária. Um exemplo é a Turquia, onde o presidente Recep Tayyip Erdogan pressionou o Banco Central a reduzir os juros a partir de 2021, mesmo com a inflação em alta. A política foi seguida pela desvalorização da moeda e por uma disparada dos preços, que atingiram alta de 85,51% em 12 meses em outubro de 2022.
Em artigo publicado em setembro, Lara Resende propôs reduzir a Selic dos atuais 13,75% para aproximadamente 7,5% ao ano, em um período de 12 meses. O economista também defendeu a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que estabeleceria metas para os juros, a inflação e as contas públicas. Pelo modelo, o Banco Central passaria a trabalhar com uma faixa de juros entre 3% e 5,5% ao ano, podendo ultrapassá-la apenas em situações excepcionais, com autorização do novo conselho. Lara Resende argumenta que os juros elevados contribuem para o crescimento da dívida pública brasileira.
Na Turquia, Erdogan também defendia que a redução dos juros ajudaria a estimular a economia e combater a inflação, contrariando a estratégia tradicional dos bancos centrais, que costumam elevar as taxas para conter os preços. O presidente turco argumentava que os juros elevados encareciam o crédito, prejudicavam a produção e contribuíam para aumentar os custos dos produtos.
Em março de 2021, Erdogan demitiu o então presidente do Banco Central, Naci Ağbal, apenas dois dias depois de a instituição elevar os juros para 19% ao ano. Ele foi substituído por Şahap Kavcıoğlu, que compartilhava da visão do presidente sobre os efeitos negativos das taxas elevadas. Em setembro daquele ano, o Banco Central turco sob novo comando iniciou uma sequência de cortes. Os juros, que estavam em 19%, caíram para 14% em dezembro de 2021. A redução continuou nos meses seguintes e, em fevereiro de 2023, a taxa chegou a 8,5%, apesar de a inflação permanecer muito acima da meta oficial de 5%.
O resultado desta medida foi uma crise cambial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a lira turca, moeda utilizada no país, perdeu aproximadamente metade de seu valor em relação ao dólar em poucas semanas, no final de 2021. Com a desvalorização da moeda, produtos importados e matérias-primas ficaram mais caros, pressionando os preços cobrados dos consumidores. A inflação, que estava próxima de 20% quando os cortes começaram, também avançou rapidamente. Em dezembro de 2021, ela chegou a 36,08%. Em junho de 2022, a inflação alcançou 78,62% e, quatro meses depois, atingiu 85,51%, segundo dados oficiais do governo turco.
O aumento dos preços afetou principalmente o poder de compra da população. Em outubro de 2022, os custos de transporte acumulavam alta de 117,15% em 12 meses. A disparada da inflação também levou os turcos a procurar proteção para suas economias em moedas estrangeiras, como o dólar e o euro.
O FMI atribuiu parte importante da crise aos cortes de juros adotados pelo Banco Central sob ordem de Erdogan, embora outros fatores, como a alta internacional da energia e dos alimentos após a invasão russa da Ucrânia, também tenham contribuído para a inflação.
No Brasil, a proposta de Lara Resende ganhou repercussão após a reeleição do presidente Lula (PT) e recebeu elogios de integrantes do PT, entre eles a deputada Gleisi Hoffmann e José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo petista. Posteriormente, Gleisi afirmou que discutir uma proposta não significa necessariamente adotá-la. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que o governo esteja avaliando o tabelamento dos juros ou que exista uma reunião marcada entre Lula e Lara Resende. A ideia provocou críticas de economistas e representantes do mercado financeiro, que classificam ela como uma tentativa de tabelar os juros e limitar a autonomia do Banco Central. Lara Resende contesta essa classificação.
A discussão ocorre em um momento de aumento das expectativas de inflação e juros no Brasil. No primeiro boletim Focus divulgado após a reeleição de Lula, nesta terça-feira (3), o mercado elevou a projeção de inflação para 2027 de 4,34% para 4,76%, acima do teto da meta de 4,5%. A expectativa para a Selic no fim daquele ano também subiu, de 11,75% para 12,50%.







