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Edifício sede da Televisão Central da China (CCTV, ao centro) em Pequim, China. A emissora estatal chinesa e seu ramo internacional, CGTN, funcionam como ferramentas de propaganda do Partido Comunista Chinês
Edifício sede da Televisão Central da China (CCTV, ao centro) em Pequim, China. A emissora estatal chinesa e seu ramo internacional, CGTN, funcionam como ferramentas de propaganda do Partido Comunista Chinês| Foto: EFE/EPA/ROMAN PILIPEY

A China está cada vez mais preocupada com a imagem que passa internacionalmente e se esforça para reverter as opiniões negativas que o mundo tem sobre o país. Na visão de Pequim, essa má reputação é fruto de percepções equivocadas devido à forma como a mídia do Ocidente retrata o país asiático. Como resposta, o regime comunista chinês busca influenciar a opinião global e criar uma visão mais positiva sobre a China por meio de mídias estatais, como a emissora CCTV e a agência de notícias Xinhua.

Pequim já vinha, há anos, usando o soft power para conquistar o público estrangeiro. Mas especialmente depois de 2020, a China tem se esforçado para recuperar sua imagem no cenário internacional. Uma pesquisa do Pew Research Center’s Global Attitudes mostra que as opiniões negativas sobre o país atingiram níveis históricos depois do início da pandemia de Covid-19. Para a maioria dos entrevistados, de várias nacionalidades, a China fez um trabalho ruim para lidar com o surgimento da Covid-19. Além disso, as taxas de aprovação de Xi Jinping entre os entrevistados das economias mais avançadas estiveram em queda.

Entre as ferramentas de soft power chinesas estão a promoção da cultura do país com intercâmbios culturais em educação e pesquisa, cooperação econômica, e o uso de mídias para mensagens políticas.

No entanto, esses veículos de comunicação são criticados pela sua cobertura nada imparcial sobre a ditadura chinesa, pela distorção de informações e por promover narrativas contra governos de outros países, em defesa dos interesses de Pequim.

Em 2016, a China relançou a sua rede de televisão estatal como uma nova marca global. A divisão internacional da Televisão Central da China (CCTV) passou a se chamar China Global Television Network (CGTN).

Apesar do alto investimento estatal e do apoio dos níveis mais altos da liderança chinesa, a CGTN não conseguiu se tornar uma influência significativa de soft power na esfera global de notícias, conclui um estudo do Lowy Institute, um think tank com sede na Austrália.

Isso porque, para muitos analistas ocidentais, a associação da CGTN com o partido único chinês limita a sua capacidade de influenciar o discurso global, afirma o artigo.

Peça da rede de propaganda

A Televisão Central da China (CCTV) foi ao ar em 1958 na República Popular da China, quando poucos chineses possuíam um aparelho de televisão. Hoje ela tem mais de 40 canais, que chegam a praticamente todas as casas no país. A programação da emissora controlada pelo Partido Comunista Chinês é uma mistura de noticiário, documentários, programas educativos, entretenimento e novelas.

Desde 2016, o seu braço internacional se chama China Global Television Network (CGTN). Os jornalistas que trabalham nos canais internacionais da rede são pressionados a apresentar uma visão positiva da China, de acordo com várias análises e relatos.

A CCTV é uma parte central da rede de propaganda do governo chinês. De acordo com artigo da Freedom House, a emissora "tem um histórico consistente de violações flagrantes e graves de padrões jornalísticos e de incentivo ou justificativa ao ódio e à violência contra pessoas inocentes. A CCTV é um componente essencial do regime autoritário brutal do PCC e deve ser tratada como tal."

Segundo a autora do artigo, Sarah Cook, diretora de pesquisas sobre China, Hong Kong e Taiwan na Freedom House, parte da missão do canal é atacar inimigos do Partido Comunista.

Elogios ao regime, ataques a adversários

A cobertura diária da CCTV é focada em promover as políticas do Partido Comunista e em elogiar a liderança do partido. No entanto, os programas também são usados para atacar adversários quando surge uma nova ameaça política, difamando alvos e minimizando violações aos direitos humanos conduzidas pelo regime, explica a Freedom House.

Uma dessas campanhas televisivas ocorreu durante a repressão de Pequim à prática espiritual Falun Gong, iniciada em 1999. Outros exemplos citados pela Freedom House incluem a exibição de confissões forçadas – parte da repressão a defensores de direitos humanos em 2015, tentativas de justificar a detenção em massa de muçulmanos uigures em Xinjiang, e uma campanha de desinformação sobre os protestos pró-democracia em Hong Kong.

Mais recentemente, a mídia estatal chinesa e as redes sociais de figuras do regime têm promovido uma campanha de desinformação que alega que o novo coronavírus surgiu em uma base militar americana no estado de Maryland, Estados Unidos. Segundo a teoria, o vírus causador da Covid-19 teria sido criado e vazado de Fort Derrick, que fica a 80 quilômetros de Washington.

O aparato de propaganda chinês também é usado para explorar divisões em países rivais e promover a narrativa de declínio ocidental. A CCTV transmitiu neste mês reportagens sobre o julgamento de Kyle Rittenhouse, tratando a polarização gerada pelo caso nos EUA como um sinal do "declínio" e da "desintegração" da democracia americana, segundo noticiou o South China Morning Post, portal de notícias de Hong Kong.

Atuação internacional

As empresas de mídia estatal chinesa operam em países estrangeiros por meio de parcerias com veículos locais (jornais, canais de televisão) que republicam seu conteúdo, e também com sucursais que fazem publicações e transmitem programação no idioma local.

Na Europa, apenas alguns países possuem sedes locais de empresas de mídia chinesas. A França tem a maior presença da mídia da China no continente, com a agência de notícias Xinhua, a CGTN e a China Radio International (CRI) transmitindo conteúdo em francês, além da publicação pelo jornal Le Figaro do suplemento "China Watch", do jornal China Daily, segundo levantamento do Instituto Francês de Relações Internacional (IFRI).

No Reino Unido, a Ofcom, agência governamental para regulamentação de mídia, recentemente revogou a licença para a CGTN atuar no país. A Ofcom afirmou, em fevereiro, que a companhia que detinha a licença britânica para a CGTN não tinha o controle sobre o dia a dia do canal chinês, o que vai contra as regras do órgão.

Segundo a Ofcom, a Star China Media Limited, dona da licença, "não tinha a responsabilidade editorial" sobre o canal de notícias em língua inglesa. Portanto, não estava cumprindo as exigências da licença para transmissão.

Em 2019, o Grupo Bandeirantes, do Brasil, fechou um acordo de cooperação com a empresa estatal chinesa de mídia. O contrato estabelece produções conjuntas e compartilhamento de conteúdos, além de parcerias para a produção de produtos de entretenimento, como novelas e documentários. A China inaugurou, em parceria com a Band, a base para a América Latina da CCTV em São Paulo. O grupo chinês também assinou, no mesmo ano, um acordo similar com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Caso Peng Shuai

A CGTN se envolveu recentemente em outra polêmica. Após as preocupações sobre o paradeiro da tenista chinesa Peng Shuai, que não tinha sido vista em público desde que acusou um ministro do regime chinês de abuso sexual, a CGTN alegou que a esportista havia mandado um e-mail ao diretor da Associação de Tênis Feminino (WTA), Steve Simon, dizendo que estava "tudo bem" e que ela não estava desaparecida, apenas descansando em casa.

A rede publicou no Twitter uma imagem do que seria o e-mail de Peng à WTA. Simon disse que a divulgação da mensagem pela mídia estatal chinesa "apenas aumenta as minhas preocupações sobre a sua segurança e paradeiro". Ele, assim como outros esportistas e ativistas, duvidaram que o e-mail tenha sido escrito pela própria vontade de Peng.

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