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Da esquerda para a direita: embaixador da Guiana no Chile, George Talbot, a vice-ministra de Relações Exteriores da Bolívia, Carmen Almendra, o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benitez, o presidente da Colômbia, Ivan Duque, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, o presidente do Chile, Sebastian Piñera, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o presidente do Equador, Lenin Moreno, o presidente do Peru, Martin Vizcarra, o vice-ministro de Relações Exteriores do Uruguai, Ariel Bergamino, e o embaixador do Suriname no Chile, Marciano Edgar Armaketo, durante o lançamento do Prosul no palácio presidencial de La Moneda, no Chile, em 22 de março de 2019 | Foto: MARTIN BERNETTI/AFP| Foto:

Líderes de direita da América Latina enterraram de vez a Unasul (União das Nações Sul-americanas), que teve como um dos fundadores o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao estabelecer, nesta sexta-feira (22), a criação de um novo bloco de cooperação chamado Prosul (Foro para o Progresso e Desenvolvimento do Sul).

O presidente Jair Bolsonaro está em Santiago, no Chile, onde assinou a certidão de nascimento do organismo de integração regional junto com os presidentes de Colômbia, Iván Duque; Argentina, Maurício Macri; Equador, Lenín Moreno; Paraguai, Mario Abdo; Peru, Martín Vizcarra; o anfitrião Sebastián Piñera; além do embaixador da Guiana, George Talbot.

Também participaram do evento o vice-chanceler do Uruguai, Ariel Bergamino, o embaixador da Guiana no Chile, George Talbot, a vice-chanceler da Bolívia, Carmen Almendra, e o embaixador do Suriname no Chile, Marciano Edgar Armaketo.

Bolívia, Uruguai e Suriname enviaram representantes que apenas observaram a reunião e não assinaram o documento. A chancelaria do Chile informou que eles podem vir a assinar depois, se desejarem.

Neste momento, os objetivos do Prosul são pouco claros. Nas palavras de Duque, um dos idealizadores do bloco, ele será um mecanismo de coordenação sul-americana de políticas públicas, em defesa da democracia, da independência dos poderes, da economia de mercado, da agenda social, com sustentabilidade e com a devida aplicação.

"Prosul é uma aliança para a democracia, é um grande esforço para retomar a integração da América do Sul, já que não temos uma reunião de todos os chefes dos estados sul-americanos há cinco anos", explicou Duque.

Na abertura da conferência de criação do Prosul, Piñera disse que os líderes lá reunidos querem "criar um fórum de diálogo". "Um fórum sem ideologias, sem burocracias, franco e direto com democracia e [preservação dos] direitos humanos", acrescentou o presidente, informando que esses são “valores e princípios”.

Apesar disso, considerando os seus fundadores, o Prosul terá um viés muito mais à direita, oposto à Unasul, com o objetivo de isolar ainda mais a Venezuela. Todos os presidentes que estiveram no fórum desta sexta-feira e assinaram o documento foram eleitos a partir de 2015, quando deu-se início a uma guinada à direita na região.

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Segundo Piñera, todos os países da América do Sul que cumpram os requisitos de vigência plena do Estado de Direito e repeito à liberdade e aos direitos humanos estão convidados a participar do Prosul – um claro recado ao ditador venezuelano Nicolás Maduro, que tem intensificado a repressão contra oposição e jornalistas enquanto luta para se manter no poder.

"Há um sentido de contraposição" à Unasul, afirmou David González, professor de Relações Internacionais da Universidade Santo Tomás, ao chileno El Espectador. "É possível que, a partir da vitória desses presidentes de centro-direita, tenha sido desencadeado um exercício de alianças políticas para dar um impulso final a um projeto de internacionalização do socialismo do século 21 que muitos relacionam à Unasul”, explicou.

Proposta aberta

O cientista político Gunther Rudzit, professor da ESPM e da Sustentare Escola de Negócios, disse que a proposta do Prosul ainda está bastante aberta, e que ainda não é possível saber todos os detalhes dos seus objetivos. "Existe uma tendência latino-americana de criar um novo organismo, em vez de consertar aquilo que está dando errado no antigo", disse Rudzit à Gazeta do Povo. Ele acrescentou que essa tendência é a mesma nas ideologias de esquerda e de direita.

Os novos governos de direita, com uma nova visão macroeconômica, e dentro da tendência latino-americana de criar novos organismos, criam o Prosul, com viés mais liberal. "Não foi à toa que governos de direita foram eleitos em praticamente todos os países da região. Porque os governos de esquerda chegaram no limite das políticas que implementaram em vários países. O exemplo máximo é a Venezuela", avaliou Rudzit.

O novo bloco deve atuar mais diplomaticamente do que economicamente para ajudar a resolver a profunda crise da Venezuela. "Praticamente todos os laços comerciais [da Venezuela] com esses países já deixaram de existir. Esse instrumento, a pressão econômica, já deixou de existir faz tempo", diz o professor.

De acordo com Piñera, a primeira ação do grupo deve ser uma análise sobre o que foi realizado em cooperação entre os países e precisa ser aperfeiçoado. “[Temos de pensar] no desenvolvimento do nosso povo”, disse Piñera. A segunda será a instituição de grupos de trabalho para elaborar as bases para a criação da comunidade comum.

A derrocada da Unasul

A Unasul foi criada em 2008 pelos presidentes que então eram os maiores expoentes da esquerda na América do Sul: Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Néstor Kirchner (Argentina) e Hugo Chávez (Venezuela). O objetivo do órgão era aprofundar a integração regional, mas sem a influência dos Estados Unidos, que tinha presença na OEA (Organização dos Estados Americanos) e na Alca (Área de Livre Comércio das Américas). O tratado que estabeleceu a Unasul foi assinado naquele ano e entrou em vigor em 2011, quando o Uruguai de Pepe Mujica se tornou o nono país a assinar o documento.

Apesar de uma série de iniciativas destinadas a aprofundar a união sul-americana, como um Banco do Sul e cooperação em temas como combate ao tráfico de drogas, o caráter ideológico da instituição ficou claro pela inação de seus membros quanto à crise de direitos na Venezuela. O documento de criação da Unasul tem uma cláusula que pune nações onde houver rupturas que ameacem a ordem democrática. Mas, apesar de todas as evidências de que a Venezuela era uma verdadeira ditadura, passaram-se anos sem que a cláusula fosse invocada contra Chávez ou Maduro.

A derrocada final teve início nos últimos anos, quando se instalou um conflito dentro do órgão que praticamente paralisou suas atividades.

A crise começou em 2016, quando Venezuela, Equador e Bolívia bloquearam a nomeação do embaixador argentino José Octávio Bordón para substituir o então secretário-geral, Ernesto Samper. A Venezuela argumentou que o indicado precisaria ser um ex-presidente ou ex-chanceler. Desde 2017, quando Samper concluiu seu período à frente do organismo, a Unasul está sem secretário-geral em razão da falta de consenso entre os seus membros.

Vários países anunciaram sua saída da organização desde então, já que não estavam dispostos a dialogar com o regime chavista. Os últimos foram Colômbia e Equador, cujo presidente pediu a devolução do prédio cedido para a instalação da sede da Unasul, em Quito. Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Chile e Peru haviam suspendido sua participação em abril do ano passado.

Em agosto de 2018, o colombiano Yuri Chillán, chefe de facto da Unasul, apresentou sua carta de renúncia, trazendo à tona uma série de escândalos e a situação de penúria da instituição. Quando ele saiu, o organismo contava com menos de 25% do necessário para cobrir seu orçamento e os funcionários estavam completamente ociosos. Só em manutenção, o prédio consumia cerca de US$ 2 milhões (R$ 7,5 milhões) por ano.

Hoje a Unasul conta com a participação de cinco países: Venezuela, Bolívia, Suriname, Uruguai e Guiana.

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