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Manifestantes do Batalhão Azov na Ucrânia: símbolos neonazistas e crimes de guerra
Manifestantes do Batalhão Azov na Ucrânia: símbolos neonazistas e crimes de guerra| Foto: EFE

“O objetivo é proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio nos últimos oito anos. E para isso lutaremos pela desmilitarização e desnazificação da Ucrânia”. Em seu discurso proferido em 24 de fevereiro, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, justificou nestes termos o início das invasões à Ucrânia.

“Dizem que somos nazistas. Mas poderia um povo que perdeu mais de 8 milhões de vidas na batalha contra o nazismo apoiar o nazismo?” questionou, em russo, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. “Como posso ser nazista? Explique isso ao meu avô, que passou por toda a guerra na infantaria do exército soviético e morreu como coronel em uma Ucrânia independente”.

Ocorre que a acusação da presença de grupos neonazistas na Ucrânia não é apenas mais uma invocação da “lei de Godwin” - segundo a qual “na medida em que uma discussão online cresce, a probabilidade de surgir uma comparação com o nazismo aproxima-se de 100%” -, mas está ancorada em problemas reais. E, para compreender a real dimensão da presença e influência destes movimentos no país do leste europeu, é preciso dar alguns passos atrás: mais precisamente, até a década de 1920, quando o Josef Stalin chegou ao poder.

"Quando Stalin chegou ao poder, as regiões onde os ucranianos habitavam sofreram com impostos extremamente altos. Insatisfeitos, eles se revoltaram, ao que o ditador respondeu aumentando ainda mais os impostos e confiscando a produção agrícola, o que acabou provocando o Holodomor", explica o cientista político Késsio Lemos, pesquisador do INCT-INEU, em referência ao genocídio que ceifaria a vida de cerca de 3,3 milhões de ucranianos (mas que em algumas previsões chega a 12 milhões de pessoas).

Tudo isto fez com que, em 1941, as tropas alemãs assumissem o controle de Kiev recebidas por faixas “Heil Hitler”, uma recepção que logo culminaria no primeiro “ensaio” para o Holocausto: o Babi Yar. Enquanto a vasta população judia da Ucrânia era exterminada pelos nazistas, parte do povo se uniu aos novos invasores, movido pelo desejo de se ver livre do jugo soviético.

Foi nesta época que surgiram figuras proeminentes do nacionalismo ucraniano, como o líder Stepan Bandera, um dos primeiros a atuar para facilitar o domínio dos alemães e que, posteriormente, se voltaria contra eles, sendo enviado para um campo de concentração antes de ser assassinado por um agente da KGB.

Com o fim da guerra, em 1945, a Ucrânia seria novamente integrada à União Soviética. E, em 1991, com a dissolução do bloco, foi entregue às próprias lideranças - e a uma nova geração de conflitos.

Lei antissemitismo e repúdio ao nazismo e comunismo 

O rechaço ao comunismo levaria o Parlamento ucraniano a, em 2015, aprovar uma lei que iguala o comunismo ao nazismo, proibindo a disseminação de seus símbolos. “O regime comunista, como o regime nazista, infligiu danos irreparáveis aos direitos humanos porque durante sua existência exerceu total controle sobre a sociedade e perseguições e repressões politicamente motivadas, violou suas obrigações internacionais e suas próprias constituições e leis”, pontuou a corte, para quem os dois sistemas “implementaram políticas estatais repressivas”. A decisão foi ratificada em 2019.

Além disso, uma pesquisa de 2018 do Pew Research Center descobriu que a Ucrânia é o país que mais aceita os judeus entre todos os países da Europa central e do leste europeu. No ano passado, o Parlamento ucraniano aprovou uma lei criminalizando o antissemitismo, seguindo a definição proposta pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) - um modelo que entidades judaicas desejam espelhar no Brasil.

A IHRA define o antissemitismo como "uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação a eles. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientados contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas". Inclui também a negação ao povo judeu de seu direito à autodeterminação afirmações que invalidem a existência do Estado de Israel, ou considerem-na intrinsecamente racista.

O Batalhão de Azov 

Há que se lembrar, contudo, que, em meados de 2014, a Ucrânia estava às voltas com a guerra russa pela anexação da Crimeia. E foi nesta época que surgiu o Batalhão Azov, fundado por um supremacista branco declarado que afirmou que o objetivo nacional da Ucrânia era livrar o país de judeus e outras raças inferiores.

Ainda que não usem explicitamente a suástica, as inspirações nazistas do Azov não são nada sutis: seus emblemas apresentam um “Wolfsangel”, símbolo usado por voluntários da infantaria da SS, e um “Sol Negro”, desenhado por ninguém menos que Heinrich Himmler, um dos principais líderes do Partido Nazista alemão.

Em 2010, Andriy Biletsky, primeiro comandante do batalhão e ex-parlamentar ucraniano, afirmou que o propósito nacional da Ucrânia deveria ser “liderar as raças brancas do mundo em uma cruzada final contra os Untermenschen [subumanos] liderados pelos semitas”. O movimento conta, inclusive, com seu próprio partido político, o National Corps, que conseguiu 2,2% dos votos, elegendo apenas um representante no parlamento ucraniano.

O problema é que, na guerra pela Crimeia, o Batalhão Azov desempenhou um papel importante contra as forças russas, como na Batalha de Mariupol, ainda em 2014. Desde então, foram incorporados à Guarda Ucraniana – e não saíram mais.

"O batalhão de Azov é uma questão bem pontual, especialmente se levarmos em conta da localização dessas forças na região do Donbass e de Mariupol, onde há um cerco bastante incisivo", explica a pesquisadora Larleciane Piccolli, doutora em estudos estratégicos internacionais e diretora de pesquisa do Isape.

"Além disso, apesar de a guerra de narrativas dificultarem a apuração do problema, há inúmeros relatos de tortura, crimes de guerra e crimes hediondos cometidos por soltados deste batalhão nas regiões onde eles dominam".

"Quando houve o ataque à maternidade em Mariupol, o governo russo declarou que se tratava de uma estrutura utilizada pelo Azov, que estaria usando civis como estudo. Sabe-se também que é um grupo que reúne muitos estrangeiros - há alguns anos, a PF desmantelou uma célula do batalhão no Brasil", explica a especialista.

Nos protestos ucranianos de 2013 e 2014, também foram avistados bandeiras e manifestantes com camisetas estampando o rosto do nacionalista Stepan Bandera. “Existe uma cultura anticomunista muito forte na Ucrânia, que tem como resposta o surgimento de uma ideologia nacionalista que tem esses elementos do nazifascismo. A Rússia se utiliza desse argumento e transfere para todo o contexto ucraniano. Há uma guerra de narrativa – ou, como se diz nas relações internacionais, uma infoguerra. Percebe-se que a Ucrânia é um Estado conservador no qual operam esses partidos, mas não podemos cair no risco da generalização”, diz Roberto Rodolfo Georg Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre.

A conivência com este tipo de formação paramilitar, contudo, pode cobrar um preço alto. “Neste momento, é conveniente ao governo ucraniano ter ao seu dispor fortes combatentes ultranacionalistas, que nutrem o sentimento comum contra um inimigo comum. Um cálculo perigoso, que pode dar armas, recursos e prestígio a um grupo com interesses tão repugnantes e preconceituosos. A chegada de voluntários, armamentos, e suprimentos por parte do ocidente potencializa ainda mais essa realidade”, avalia Késsio Lemos.

"Ainda assim, a guerra de Putin é injustificada. O nazismo não é o modelo político/ideológico que governa a Ucrânia. No entanto, a política do 'o inimigo do meu inimigo é meu amigo' pode gerar frutos bastante preocupantes para a Ucrânia e para o Ocidente".

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