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Segurança em frente ao Instituto de Virologia de Wuhan, na China, 27 de janeiro de 2021
Segurança em frente ao Instituto de Virologia de Wuhan, na China, 27 de janeiro de 2021| Foto: EFE/EPA/ROMAN PILIPEY

Documentos recentemente divulgados pela imprensa americana dão mais detalhes sobre as pesquisas sobre coronavírus de morcegos feitas na China, financiadas pelo governo dos Estados Unidos, antes da pandemia de Covid-19, e oferecem mais elementos para o debate sobre a origem do novo coronavírus – especialmente sobre a hipótese de que o Sars-CoV-2 pode ter surgido a partir de um acidente de laboratório.

Um documento de 900 páginas obtido pelo portal americano The Intercept por meio da lei de informação dos EUA detalha o trabalho da organização americana de saúde EcoHealth Alliance (EHA) em parceria com o Instituto de Virologia de Wuhan (IVW) em pesquisas sobre coronavírus de morcego no laboratório chinês. Entre os documentos obtidos estão duas propostas para requisição de financiamento, que não haviam sido divulgadas ao público até então, ao Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA (NIH), uma agência federal americana dirigida por Anthony Fauci, principal conselheiro da Casa Branca para a resposta à pandemia de Covid-19.

Os documentos aparentemente contradizem as alegações de Fauci de que o NIH não financiou pesquisas de ganho de função em coronavírus de morcegos no Instituto de Virologia de Wuhan.

A proposta de financiamento era para um projeto chamado “Compreendendo os riscos do surgimento de coronavírus de morcegos”, que envolvia amostragens de morcegos e de pessoas que trabalhavam com animais vivos, para a detecção de novos tipos de coronavírus.

A pesquisa recebeu financiamento de US$ 3,1 milhões para o período entre 2014 e 2019. O incentivo foi renovado em 2019 e cancelado em 2020, pelo governo do então presidente Donald Trump. Os recursos incluíram US$ 599 mil para as pesquisas com coronavírus de morcegos do Instituto de Virologia de Wuhan.

“Trata-se de um roteiro para uma pesquisa de alto risco, capaz de ter provocado a pandemia atual”, disse Gary Ruskin, diretor executivo do US Right to Know, grupo que investiga as origens da pandemia, ao Intercept.

Uma das informações reveladas pelos documentos que foram tornados públicos é a de que a pesquisa com camundongos “humanizados” – geneticamente modificados para apresentarem tecidos humanos e usados em pesquisas – foi conduzida em um laboratório de biossegurança de nível 3 da Universidade de Wuhan, e não no Instituto de Virologia de Wuhan – que tem nível 4 de biossegurança – como se acreditava até então.

A proposta encaminhada ao NIH reconhecia os riscos associados a esse tipo de pesquisa: “O trabalho de campo envolve o maior risco de exposição ao SARS ou a outros coronavírus, pois o trabalho é realizado em cavernas com alta densidade de morcegos e com potencial para inalação fecal”, afirma o texto.

Fauci repetiu diversas vezes que as pesquisas financiadas pelo NIH americano na China não se qualificavam como pesquisas de “ganho de função” – experimentos em que um organismo é geneticamente modificado para ganhar novas funções biológicas. O tema ganhou atenção com o debate sobre a possibilidade de que o Sars-CoV-2, o vírus causador da Covid-19, possa ter surgido a partir de um acidente de laboratório, e não de um vazamento natural de animais para humanos, que é a tese mais aceita hoje por cientistas.

Mas alguns críticos, como o pesquisador Richard Ebright, especialista em biossegurança e professor de Química e Biologia na Universidade de Rutgers (EUA), contestam as alegações de Fauci.

Ebright disse ao portal de notícias National Review que as pesquisas em Wuhan financiadas pelo NIH se classificam como experimentos de “ganho de função”, e que elas alteraram artificialmente coronavírus para torná-los mais transmissíveis a humanos, o que poderia ter levado a um acidente de laboratório.

“Os materiais [divulgados recentemente] mostram que o financimento do NIH entre 2014 e 2019 ao EcoHealth com subcontrato ao IVW financiaram pesquisa de ganho de função como definido por políticas federais em vigor entre 2014 e 2017 e potencialmente melhoria de patógeno pandêmico como definido por políticas federais em vigor de 2017 até o presente”, afirmou Ebright pelo Twitter.

Nesta semana, um grupo alegou ter obtido documentos com uma proposta feita pela EcoHealth Alliance e o Instituto de Virologia de Wuhan para receber financiamento da Darpa, agência federal americana para pesquisas avançadas, que descrevem um projeto de pesquisa com coronavírus geneticamente modificados que seriam usados em aerossóis liberados em cavernas da China, para inocular morcegos contra doenças que poderiam saltar para seres humanos. A proposta foi rejeitada pela Darpa, segundo o grupo.

As origens da pandemia de Covid-19 ainda não foram estabelecidas. Após investigações na China, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não descarta a hipótese de acidente de laboratório, mas considera a tese “muito improvável”. Em agosto, uma investigação do serviço de inteligência americano, encomendada pelo presidente americano Joe Biden, não chegou a uma conclusão.

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