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Trabalhadores deixam a fábrica após o fim de turno em Chongqing, China, 21 de fevereiro. Foto: Gilles Sabrié / The New York Times| Foto: NYT

A feira de trabalho na próspera cidade de Shenzhen oferecia um futuro profissional corporativo em um país que atingiu a grandeza econômica por meio da força de suas linhas de montagem, escavadoras e guindastes. Empresas de tecnologia, do mercado financeiro e de imóveis anunciavam vagas em vendas, engenharia, contabilidade e logística. Um salário anual de 150 mil dólares (mais de meio milhão de reais), dizia um pôster, "não é apenas um sonho".

No entanto, para muitos candidatos a um emprego, ainda parecia um sonho. Em uma ponta do centro de exposição, duas dúzias de candidatos desalentados se sentavam sob um cartaz em que se lia "Espero que você encontre um trabalho em breve". "Procurar um trabalho hoje é como ser constantemente estapeado na cara", desabafou Hou Hao, contadora de 28 anos que não conseguiu achar uma colocação que correspondesse a seu salário mensal anterior de 2.700 dólares (10 mil reais).

Recessão ampla

A recessão da China, que tornou ociosas fábricas e projetos de construção, está reverberando pelos escritórios do país. Profissionais executivos com formação estão enfrentando cortes de vagas e reduções salariais. Nem mesmo as grandes empresas de tecnologia, como a JD.com, varejista on-line, e a Didi Chuxing, a resposta da China ao Uber e uma das startups mais valiosas do mundo, foram poupadas.

A instabilidade nos trabalhos corporativos sugere que a recessão da economia chinesa, a segunda maior do mundo, é mais ampla do que indicam os números oficiais. Cada vez mais, a China depende dos consumidores da classe média, que estão ajudando a expandir a economia para além de sua base industrial. Entretanto, eles não estão gastando tanto quanto antes e essa letargia está repercutindo em todas as camadas da economia chinesa, desde o mercado de imóveis até o setor de tecnologia, tão bem-sucedido no passado.

A recessão também sugere que o governo vai ter mais dificuldade de evitar o colapso da economia. As políticas estratégicas do país para impulsionar o crescimento – liberar ondas de empréstimos no sistema bancário estatal ou construir novas estradas e aeroportos – não serão de grande ajuda para profissionais acostumados a registrar solicitações de seguradoras ou inserir dados em sistemas de computador. Apoiar esse tipo de negócio e de profissional exigiria mudanças de longo prazo, como incentivar bancos estatais a emprestar mais dinheiro para negócios privados ou diminuir a burocracia que enfrentam os empreendedores.

No passado, "ao construir uma ponte, você conseguia alavancar a economia", comentou Fraser Howie, coautor de três livros sobre o sistema financeiro chinês. Agora, completou, "não existe recuperação óbvia e, portanto, é ainda mais crucial que a China tome decisões importantes e difíceis para avançar".

A China não divulga informações confiáveis sobre admissões ou demissões, por isso o efeito concreto da recessão não está claro. Algumas pesquisas indicam que ainda há grande demanda por trabalhadores em alguns setores. Mas há múltiplos sinais que apontam dificuldades para os profissionais corporativos.

Redução de vagas de emprego

Uma das medidas de análise, baseada em uma pesquisa de empresas de serviços, sugere redução das vagas de emprego em uma variedade de indústrias. Os resultados de uma busca realizada na Baidu, a maior ferramenta desse tipo da China, e analisados pelo Nomura, um banco japonês, mostram que o uso do termo "vaga de emprego" cresceu ao nível máximo em dezembro. Executivos de recursos humanos e profissionais seniores em empresas de tecnologia, construtoras e outras grandes companhias privadas descreveram que mais de 30 por cento do pessoal foi demitido nos últimos meses, o que, em algumas organizações, significou a demissão de centenas de colaboradores, de acordo com uma enquete recente feita pela empresa de pesquisa Global Source Partners.

Em um grande site de empregos, o Zhilian, o número de vagas para todos os setores no quarto trimestre caiu dez por cento em comparação ao mesmo período de 2017. Novas vagas em empresas de tecnologia e startups caíram 51 por cento no terceiro trimestre de 2018 em relação ao ano anterior.

Executivos chineses já tinham sofrido durante as últimas recessões, mas os cortes agora têm um efeito mais amplo à medida que a economia do país se consolida e eles se tornam uma grande parcela da força de trabalho.

Para profissionais como Sherry Xu, o mercado de trabalho desaquecido compromete a premissa básica de que o diploma universitário possibilita um futuro mais seguro do que um trabalho em uma fábrica. Xu, uma executiva de 34 anos, se formou em uma prestigiosa universidade e, depois, desenvolveu sua carreira no mercado financeiro. Recentemente, logo após ter finalizado uma apresentação para um grupo de potenciais investidores, foi chamada para uma reunião com o RH da empresa em que trabalhava. A companhia estava passando por dificuldades, foi informada. Logo, começariam as demissões. Ela estaria na lista.

"O mercado de trabalho não está bom. Sinto que, desta vez, vai ser mais difícil do que nunca encontrar um trabalho", asseverou Xu, que, após a reunião, aceitou assinar um contrato como freelancer com a mesma empresa, mas recebendo metade do que ganhava.

A JD.com, empresa de e-commerce, comunicou à equipe em fevereiro que tinha começado a avaliar colaboradores com o intuito de eliminar dez por cento de seus melhores executivos. Ao ser questionada sobre os cortes, a JD.com disse que planejava contratar 15 mil novos colaboradores em 2019. "A JD valoriza muito sua força de trabalho", afirmou Tracy Yang, porta-voz, em uma declaração.

As demissões, assim como outros episódios referentes à economia, tornaram-se assuntos sensíveis do ponto de vista político; e empresas evitam confirmar cortes na equipe. Em resposta a relatos de que a gigante do e-commerce Alibaba estava planejando congelar contratações, a empresa publicou uma declaração prometendo "contratar mais talentos e aumentar nosso investimento em talentos", completando que isso era importante "principalmente em momentos em que a economia se mostra desafiadora".

Startups com dificuldades

O cenário tecnológico vibrante chinês também enfrenta uma crise financeira. Muitas startups estão encontrando dificuldades para levantar dinheiro.

Qi Feng começou a trabalhar em vendas na Renrenche, uma plataforma on-line de carros, há quase quatro anos. Ele e outros colegas foram chamados para uma reunião na qual foi sugerido que eles se demitissem, relatou. Ofereceram a eles novos contratos, segundo os quais deveriam pagar 6 mil dólares (quase 23 mil reais) à empresa em troca de dados dos consumidores que eles, então, poderiam usar para vender carros na plataforma e embolsar o lucro. Qi se recusou a pedir demissão e foi informado de que, portanto, seria demitido.

"O impacto em minha vida é muito grande", expôs Qi. Ele precisa pagar todo mês uma hipoteca de 400 dólares (1.500 reais), além de 300 dólares mensais (pouco mais de 1.000 reais) do financiamento do carro. A filha dele só tem um ano, contou, e, além do mais, ele e a esposa cuidam dos pais.

Um porta-voz da Renrenche disse que a medida é parte de uma estratégia para transformar empregados em sócios. "Aqueles que não estiverem dispostos a virar sócios receberão tratamento adequado e previsto em lei", atestou Han Di, o porta-voz.

Qiao Lifeng, um contador com diploma universitário que deixou o mercado por um breve período para abrir um restaurante, se mudou da província de Heilongjiang, no nordeste chinês, para Shenzhen, no sudeste, há duas décadas, quando a cidade estava na linha de frente da reforma econômica protagonizada pela China.

Ele conseguiu seu primeiro emprego no Mercado de Talentos de Shenzhen, a mesma feira de empregos de que Hou participou. Aos poucos, foi subindo na carreira de contador em diversas organizações, até que, dois anos atrás, decidiu tentar a sorte e abrir o próprio negócio.

Agora que seu restaurante fechou, ele está de volta ao mercado, mas o mundo mudou. "Acabei de começar a procurar um emprego. É muito difícil encontrar um trabalho adequado para mim", alegou.

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