Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Paleontologia

O tesouro de Messel

Ida, o fóssil de primata mais completo já encontrado, é apenas uma das milhares de criaturas ancestrais conservadas nas rochas de uma antiga jazida de xisto, na Alemanha

Ida, o fossil de 47 milhões de anos, ficou duas décadas em posse de um colecionador: elo perdido | AFP
Ida, o fossil de 47 milhões de anos, ficou duas décadas em posse de um colecionador: elo perdido (Foto: AFP)
Fóssil Propalaeotherium, um dos primeiros ancestrais dos modernos cavalos, que viveu há 45 milhões de anos |

1 de 3

Fóssil Propalaeotherium, um dos primeiros ancestrais dos modernos cavalos, que viveu há 45 milhões de anos

Fóssil de inseto de mais de 40 milhões de anos: preservação impressiona |

2 de 3

Fóssil de inseto de mais de 40 milhões de anos: preservação impressiona

Veja onde fica Grube Messel, na Alemanha |

3 de 3

Veja onde fica Grube Messel, na Alemanha

Veja também

Londres - A apresentação em Nova Iorque do fóssil da fêmea Darwinius masillae, carinhosamente apelidada de Ida, causou grande frisson na mídia no mês passado. O animal, que viveu há 47 milhões de anos, foi considerado pelos jornais como sendo "um elo perdido crucial entre nosso ramo evolucionário da vida e o resto do reino animal".

Apesar da importância científica deste célebre fóssil de uma fêmea primata para os debates no presente e no futuro, o que chama mais atenção é o seu passado: um pulso quebrado, resultado de uma queda fatal, e os 20 anos que passou escondida nas garras de um colecionador particular possessivo antes de vir ao conhecimento do público. Igualmente incrível, todavia, são as histórias de milhares de outras criaturas que, assim como Ida, viveram, morreram e encontraram uma vida futura no Grube Messel (Poço Messel, como é mais conhecido), um dos maiores e mais ricos repositórios de fósseis do mundo.

Ao contrário de Ida, o fóssil "rock-star", Messel é "tímido" ao extremo. Incrustado em uma zona industrial a mais de 30 quilômetros ao sul de Frankfurt, o local é mal sinalizado e difícil de ser encontrado. Os executivos e operários da cidade dão de ombros às perguntas; eles mal sabem explicar o que é e onde está o "Poço".

Num verdadeiro corredor pavimentado com antipó, entre uma construção de um prédio e vários caminhões exalando resquícios do xisto removido do local, estão instaladas duas cabines portáteis para os visitantes que tem a sorte de achar o local. Uma faxineira, que também atua como segurança, ajuda a manter a ordem. Uma cerca baixa e simples mal consegue esconder a cratera enorme, que dá nome ao local, com seus 60 metros de profundidade disfarçados com a folhagem de árvores e arbustos típicos desta região da Alemanha.

No fundo da cratera existe um pequeno lago e pode se ouvir o coaxar de sapos. A "trilha sonora" seria a mesma há 48 milhões de anos, quando Messel era um profundo lago vulcânico encravado nas florestas subtropicais do então arquipélago europeu. Nesta época, primatas, como Ida, corriam soltos e subiam nas árvores, enquanto os porcos e ouriços primitivos fuçavam o solo da floresta e os tamanduás e pica-paus perseguiam formigas gigantes. Um cavalo-miniatura, com 50 cm de altura, beberia água lentamente, admirando os crocodilos se disporem sob o lago como troncos, as tartarugas se reproduzirem e algumas cobras, que mais tarde foram batizadas com o nome do político ecológico Joschka Fischer, se enrolarem e ondularem pelas margens.

Mesmo que voltemos "apenas" 2 milhões de anos no tempo, os seres-humanos tendem a representar um papel insignificante na história do Poço Messel. Fischer, por sua vez, é uma pessoa que teve um papel significativo para garantir a sobrevivência deste santuário de fósseis. Outro nome que ganhou sua importância através do trabalho na preservação dos vestígios da vida pré-histórica é o do cientista Stephan Schaal, do museu Senckenberg, o maior museu de história natural em toda a Alemanha, que quando não está limpando fósseis fósseis deve pensar como Ida irá impactar o futuro de Messel. Cada descoberta leva a centenas de novas perguntas. Por que os tamanduás estão extintos na Europa? Como a enguia migratória foi parar no lago? "É como montar um grande quebra-cabeça. Cada ano aparece uma peça nova", diz Schaal.

A revelação de Ida, entretanto, criou enigmas com fundo menos científico. Será que Ida vai fazer com que o "poço", hoje aberto ao público e com escavações restringidas a cientistas com permissões especiais, seja inundado com visitantes? Isso irá levar aos saques ilícitos de seus tesouros? Existe outra Ida, ou algo ainda mais espetacular, ainda escondido ou enterrado por aí?

O primeiro crocodilo foi removido do solo de Messel por mineradores em 1875, época em que o local era um campo de extração de xisto betuminoso, utilizado para produzir parafina e, posteriormente, óleos industriais. O xisto é uma rocha escamosa e escura disposta em camadas que se desprendem como as folhas de um livro. Quando essas camadas se separam, elas revelam fósseis que foram achatados entre elas.

Os fósseis desta região foram incrivelmente bem-preservados. Devido à profundidade deste lago vulcânico, não existia oxigênio no fundo, o que permitiu que as carcaças de animais mortos não fossem devoradas por peixes como o cascudo. Vagarosamente, bactérias decompuseram os tecidos moles dessas carcaças, o que criou um molde da criatura nos restos minerais resultantes da decomposição. Além dos ossos, é possível ver claramente o contorno dos animais, o detalhe de penas, da pele e até dos conteúdos do estômago.

Só existe um problema: estes fósseis são tão efêmeros quanto o pôr-do-sol. Quando o xisto é removido do solo, ele seca rapidamente, se torna quebradiço e se esfarela com muita facilidade. Os primeiros fósseis simplesmente viraram pó.

Nos anos 60, todavia, uma técnica de "transferência" foi desenvolvida no intuito de preservá-los. Era aplicada uma resina sobre a placa de xisto, de forma que os ossos e os traços principais se desprendessem da rocha e grudassem no material. "Com este método foi possível salvar alguns fósseis importantes com resultados esteticamente agradáveis", diz Norbert Micklich, funcionário do museu da cidade de Hessen, próximo a Darmstadt, também na Alemanha (o museu de Micklich e o de Senchenberg, este com sede em Frankfurt, são atualmente as únicas instituições que possuem licença para escavar o solo de Messel). "Sem esse método, até a Ida pareceria um monte de estrume", complementa.

Cientistas e colecionadores acabaram aprimorando a técnica, e hoje é possível dizer que todos os fósseis de Messel poderiam ser transformados em souvenirs ou peças ideais para serem dependuradas em qualquer sala de visitas.

A extração do xisto, que foi encerrada em 1971, acabou destruindo milhares de fósseis singulares, mas, como destaca Schaal "sem ela, não teríamos o poço. Não haveria acesso às camadas de rocha betuminosa. Estaríamos 60 metros acima delas e nem imaginaríamos a existência desses remanescentes fantásticos abaixo de nossos pés".

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.