
Poderia um vírus ser a causa da síndrome da fadiga crônica? Um estudo, publicado no jornal Science, sugere que isso pode ser verdade. Os pesquisadores concluíram que muitos pacientes portadores da síndrome estavam infectados com um vírus recentemente descoberto.
A síndrome da fadiga crônica é há muito tempo um mistério da medicina, além de assunto de discussões algumas vezes amargas entre médicos, pesquisadores e pacientes. O mal afeta pelo menos 1 milhão de norte-americanos, causando fadiga extrema, dores musculares e nas juntas, problemas para dormir, dificuldades de concentração e outros sintomas. Sua causa é desconhecida, os sintomas podem durar anos e não existe tratamento efetivo.
Pesquisadores discordam sobre se tratar de uma doença ou apenas uma coleção de sintomas, que podem ter diferentes causas em diferentes pacientes. Algumas vezes, a condição foi estigmatizada como mais mental do que física, com pacientes rotulados como neuróticos, deprimidos ou hipocondríacos. Muitos pacientes consideram até mesmo seu nome ofensivo, uma dica não muito sutil de que não seria uma doença de verdade.
O novo artigo intrigou cientistas, e foi visto como justificativa por alguns pacientes e inspirou esperança para um tratamento. "Eu apenas sinto que todo o futuro mudou para nós", disse Anne Ursu, de 36 anos, escritora que vive em Cleveland e teve a síndrome no passado.
Dúvidas
O recente estudo, porém, não é conclusivo. Muito trabalho ainda precisa ser feito para descobrir se o novo vírus realmente tem alguma função. Simplesmente detectá-lo em pacientes não prova sua responsabilidade pela doença; pessoas com a síndrome podem ter outros problemas primários que os tornam suscetíveis ao vírus, havendo a possibilidade ser apenas um passageiro em suas células.
Mesmo assim, milhares de pacientes já contataram cientistas pedindo para serem examinados, segundo Judy Mikovits, a primeira autora do estudo e diretora de pesquisa do Instituto Whittemore Peterson, localizado em Reno, Nevada, um centro de pesquisa criado pelos pais de uma mulher portadora da síndrome. Mikovits disse esperar que um exame seja disponibilizado "em questão de semanas".
O novo suspeito é um XRMV (da sigla em inglês para vírus xenotrópico relacionado ao vírus da leucemia murine), que provavelmente descendeu de um grupo de vírus causador do câncer em ratos. Como ou quando o XRMV encontrou seu caminho até os humanos, ainda não se sabe. Todavia, ele também foi ligado ao câncer em pessoas: identificado inicialmente há três anos, no câncer de próstata, e posteriormente detectado em cerca de um quarto das biópsias de homens com essa doença (e em apenas 6% das biópsias benignas).
Trata-se de um retrovírus, da mesma notória família responsável pela AIDS e a leucemia nos seres humanos.
Mikovits, junto a pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos EUA e da Clínica Cleveland, relataram na revista Science que 68 de 101 pacientes com síndrome de fadiga crônica, ou 67%, estavam infectados com o XRMV, frente a apenas 3,7% dos 218 participantes saudáveis do grupo de controle.
Exames adicionais após a divulgação do artigo descobriram o vírus em quase 98% de aproximadamente 300 pacientes com a síndrome, segundo Mikovits. Ela afirmou acreditar que o vírus seria eventualmente encontrado em todos os pacientes com a síndrome.
O XRMV afeta o sistema imunológico, pode provavelmente causar uma variedade de doenças e juntar forças com outros vírus para trazer a síndrome à tona, explicou ela.
O estudo recebeu uma avaliação variada de William C. Reeves, diretor da pesquisa de saúde pública sobre a síndrome nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em Inglês). Ele chamou a pesquisa de empolgante, porém preliminar, e disse estar surpreso que um periódico de prestígio como o Science a tenha publicado, pois os pesquisadores não informaram idade ou sexo dos pacientes e controles, ou descreveram a duração da doença ou seu surgimento.
"Se não conheço a natureza dos casos e dos controles, não posso interpretar as descobertas", disse Reeves. "Nós e outros estamos examinando nossos próprios espécimes e tentando confirmá-las", disse ele. "Se validarmos as descobertas, ótimo. Minha expectativa é que não conseguiremos", acrescentou.
Reeves apontou que já houve inícios enganosos antes, incluindo um estudo na década de 1990 relacionando a síndrome a outro retrovírus, o que não pôde ser confirmado por pesquisas posteriores.
Falhas
Muitos pacientes e uma comunidade de médicos e pesquisadores especializados na síndrome veem falhas na abordagem do CDC à síndrome, e na forma pela qual ele define quem é afetado. Eles alegam que o CDC inclui pessoas cujos problemas são puramente psiquiátricos, confundindo esforços para encontrar uma causa física.
William Schaffner, um especialista em doenças contagiosas da Universidade Vanderbilt, disse que a noção de uma infecção viral persistente é plausível. Ele afirmou que, embora alguns pacientes alegando sofrer da síndrome parecerem mais inclinados a um problema psicológico, outros pareciam ter uma doença física. "Há um grupo que é jovem, saudável, ativo e engajado, e repentinamente eles são derrubados por algo", disse Schaffner
Para determinar se o culpado é o XMRV, são necessários mais estudos, afirmou John Coffin, professor de biologia molecular e microbiologia da Universidade Tufts.
O Instituto Nacional de Câncer dos EUA está levando o XRMV bastante a sério, afirmou Stuart Le Grice, diretor de seu Centro de Excelência em Virologia de AIDS/HIV e Câncer.



