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Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).| Foto: AFP

Nesta terça-feira (31), o presidente Jair Bolsonaro usou uma fala de Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), para relativizar a importância do isolamento social para a contenção do coronavírus. Após a declaração do presidente, a OMS reiterou a importância de medidas agressivas de isolamento para o combate à Covid-19.

Em nota oficial enviada à imprensa, a OMS diz que “para derrotar o vírus, os países precisam de táticas agressivas e direcionadas” para “localizar, testar, isolar e tratar casos e rastrear contatos”. Afirmou ainda que essas medidas são “a melhor e mais rápida saída” para prevenir restrições econômicas e sociais.

A OMS também destacou a importância de medidas para evitar problemas socioeconômicos no mundo. Segundo o órgão, “emergências de saúde em larga escala” têm “consequências potencialmente abrangentes que transcendem as fronteiras nacionais”. Os novos contextos socioeconômicos decorrentes da doença, diz a nota, “amplificam seu impacto e disseminação, as vulnerabilidades comunitárias e nacionais, e dificultam seu controle”.

O órgão enfatiza a importância de um esforço coordenado dos diversos setores do poder público. Segundo a nota “um engajamento político mais amplo na interface de saúde, política externa e finanças permitiria aos países desenvolver melhor posições comuns e apoiar planos de prevenção de riscos multissetoriais”.

Uma visão desse tipo, diz a OMS, proporcionaria benefícios para áreas como “nutrição, segurança alimentar e acesso a medicamentos e novas tecnologias”. “Isso levaria a medidas concretas para manter o mundo seguro, proteger economias e conectar nações na preparação para futuras emergências de saúde”, afirma o órgão.

A OMS diz ainda que “continua a fornecer orientações e recomendações de saúde pública racionais e baseadas na ciência, para que os países possam estar melhor preparados para responder ao surto” e destaca sua cooperação com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) para avaliar o impacto econômico da epidemia.

Bolsonaro ignorou trechos da declaração de Adhanom sobre coronavírus

Ao falar com jornalistas e apoiadores na manhã desta terça-feira (31), Bolsonaro destacou somente a parte do discurso de Tedros Adhanom que poderia endossar sua própria visão e deu a entender que fará um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão nesta terça para defender sua tese. Segundo Bolsonaro, Adhanom falou "praticamente" que os informais "têm que trabalhar" durante a crise causada pela pandemia do coronavírus.

O presidente, porém, não contextualizou a declaração do diretor da OMS e omitiu trecho do discurso em que Adhanom afirma que governos de todo o mundo precisam garantir assistência a pessoas mais vulneráveis e informar sobre a duração das medidas de restrição de movimentação das pessoas.

Em suas entrevistas diárias, Adhanom costuma salientar a importância do isolamento social. No discurso desta segunda-feira (30), ele escolheu, como foco, a sobrecarga dos sistemas de saúde. A citação aos informais veio no final de sua intervenção.

"Vocês viram o presidente da OMS ontem", perguntou Bolsonaro nesta terça. "O que ele disse, praticamente… Em especial com os informais, têm que trabalhar. O que acontece? Nós temos dois problemas: o vírus e o desemprego. Não podem ser dissociados, temos que atacar juntos", continuou.

Ao se comparar a Adhanom, o presidente afirmou que quando ele começou a defender que os dois problemas deveriam ser enfrentados juntos, "entraram até com um processo no Tribunal Penal Internacional" contra ele, chamando-o de "genocida". "Eu sou genocida defendendo o direito de você levar um prato de comida para casa."

Ao chegar ao púlpito para falar com a imprensa, o presidente carregava folhas de papel sulfite com um texto escrito a mão que citava o discurso de Adhanom. As declarações foram dadas em uma entrevista que provocou a saída dos jornalistas que acompanham diariamente o Palácio da Alvorada. Eles se retiraram depois que Bolsonaro estimulou apoiadores a hostilizar os profissionais da imprensa que estavam no local e mandou os repórteres ficarem quietos.

O discurso de Adhanom a que Bolsonaro se refere foi feito na segunda-feira. O diretor-geral da OMS ressaltou que cada país é diferente e precisa respeitar essa situação ao adaptar as medidas contra o coronavírus. Ele destacou as populações pobres, em especial da África, seu continente de origem – Adhanom é da Etiópía –, que precisam trabalhar diariamente para comer. O chefe da OMS disse ainda que as ações governamentais precisam considerar as pessoas mais vulneráveis, "porque todo indivíduo importa".

"Entendemos que muitos países estão implementando medidas de restrição de circulação da população. Ao implementar essas medidas, é vital se respeitar a dignidade e o bem-estar de todas as pessoas", afirmou Adhanom. "Também é importante que os governantes mantenham sua população informada sobre a duração dessas medidas e dar apoio para idosos, refugiados e outros grupos vulneráveis."

Na sequência, o chefe da OMS citou os trabalhadores informais. "Governantes devem garantir o bem-estar da população que perdeu sua renda e está em necessidade desesperada de comida, saneamento ou outros serviços essenciais."

Ministro da Saúde também comenta declaração

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, também comentou as declarações do diretor-geral da OMS. Ele considerou que o órgão deu, de fato, importância às medidas socioeconômicas, sem desconsiderar a questão da saúde.

“O que eu entendi da posição da Organização Mundial de Saúde é que há, sim, que se fazer considerações sobre a parte de dinâmica social, mas sem abrir mão em momento nenhum da ciência”, afirmou.

O ministro ressaltou que o governo brasileiro tem mais autoridade para avaliar as medidas a serem tomadas no Brasil do que uma organização internacional como a OMS. “Imagina uma Organização Mundial da Saúde fazer uma receita de bolo para o mundo! O que ele faz são considerações”, disse Mandetta.

Segundo o ministro, o governo não vai “fazer medidas que sejam arriscadas” para o povo. Ele argumentou que, proporcionalmente à capacidade de sua economia, o governo brasileiro é um dos que mais está investindo no mundo para evitar que a economia de seu país entre em colapso.

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