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Five Eyes

Países que emitiram alertas sobre eleições no Brasil integram poderosa aliança de inteligência

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EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália adotaram alertas ou medidas de segurança às vésperas da eleição no Brasil; os quatro integram o Five Eyes. (Foto: Jessica Kind/Wikimedia Commons)

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Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália adotaram medidas e emitiram alertas de segurança nas últimas horas relacionados ao Brasil às vésperas das eleições presidenciais deste domingo (4). Além do momento em que as decisões foram tomadas, os quatro países têm outra característica em comum: eles fazem parte de uma das mais antigas e integradas alianças de inteligência do mundo.

Trata-se do chamado Five Eyes, grupo formado pelos quatro países e pela Nova Zelândia e que mantém há décadas uma ampla estrutura de compartilhamento de informações de inteligência.

Não há até este momento indicação de que os alertas e as medidas adotadas em relação ao Brasil tenham sido coordenados pelo Five Eyes. Contudo, no caso da Austrália, o próprio governo informou que sua orientação aos cidadãos levou em consideração o alerta de segurança emitido pelos Estados Unidos nesta quinta-feira (1º).

O Five Eyes surgiu a partir da cooperação entre americanos e britânicos durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1946, os dois países assinaram um acordo que formalizou o compartilhamento de inteligência de sinais, como a interceptação e análise de comunicações. O Canadá posteriormente entrou na parceria e, em 1956, Austrália e Nova Zelândia completaram o grupo que passou a ser conhecido então como Five Eyes, ou “Cinco Olhos”, na tradução livre.

Durante décadas, boa parte dessa cooperação permaneceu em segredo. O acordo que deu origem à estrutura somente foi oficialmente revelado ao público em 2010, quando documentos históricos foram liberados pelos governos americano e britânico.

Uma rede que vai além do compartilhamento de informações

Um relatório do Comitê de Inteligência e Segurança do Parlamento britânico publicado em 2023 classificou o Five Eyes como a principal parceria de inteligência do Reino Unido.

Segundo o documento, os cinco países que integram a aliança compartilham informações em um nível muito maior do que o mantido com outros aliados. Na inteligência de sinais, que inclui a interceptação e análise de comunicações, a regra é sempre compartilhar as informações entre os integrantes. Não fazer isso é tratado como exceção.

A cooperação também envolve operações conjuntas, desenvolvimento de tecnologias e divisão de capacidades entre as agências dos cinco países.

Nos Estados Unidos, participam da cooperação órgãos como o FBI, responsável por investigações federais e contrainteligência, e a NSA, a Agência de Segurança Nacional, especializada em inteligência de sinais e segurança cibernética.

No Reino Unido, estão o MI5, serviço de inteligência voltado para ameaças internas, e o GCHQ, responsável principalmente pela inteligência de sinais e segurança cibernética.

A rede inclui ainda a ASIO, agência de segurança e contrainteligência da Austrália; o CSIS, serviço de inteligência de segurança do Canadá; e o NZSIS, serviço de inteligência e segurança da Nova Zelândia, além de outras estruturas de inteligência, defesa e segurança cibernética dos cinco países.

Hoje, o Five Eyes atua em áreas que vão do terrorismo e da espionagem ao crime organizado, ataques cibernéticos, proliferação de armas e ameaças provocadas por governos estrangeiros.

Aliança ajudou a impedir atentados

Entre setembro de 2014 e o começo de 2017, autoridades australianas afirmaram ter impedido, com ajuda de informações compartilhadas entre a aliança, 12 planos de atentados terroristas no país.

Entre os planos interrompidos estava a preparação de um ataque de grandes proporções em Melbourne durante o período do Natal. Ao apresentar os casos perante o Parlamento, o então procurador-geral da Austrália, George Brandis, afirmou que alguns dos atentados não teriam sido impedidos sem as informações recebidas por meio da cooperação de inteligência.

Five Eyes atuou contra rede de espionagem russa

Um dos casos mais recentes envolvendo a cooperação entre os cinco países ocorreu em 2023, durante uma operação contra uma rede de espionagem ligada ao Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB).

Durante quase 20 anos, o grupo utilizou um programa chamado Snake para invadir computadores e roubar informações. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, centenas de máquinas em pelo menos 50 países foram infectadas.

Em maio de 2023, o FBI derrubou a rede na chamada Operação Medusa. No mesmo momento, órgãos dos cinco países do Five Eyes divulgaram em conjunto informações sobre o programa russo para ajudar outros governos a identificar e remover o Snake de seus sistemas.

Aliança também desenvolve novas tecnologias

A cooperação entre os participantes do grupo não se limita apenas à troca de informações. Os cinco países mantêm uma estrutura conjunta que reúne mais de 2 mil cientistas para desenvolver e testar novas tecnologias voltadas à defesa e à segurança.

Em agosto deste ano, representantes dos governos definiram como prioridades da cooperação o combate ao terrorismo, espionagem, crime organizado internacional e ameaças de outros Estados.

PF investiga possíveis ameaças contra instalações dos EUA no Brasil

Após os alertas, a Polícia Federal abriu uma investigação sobre possíveis ameaças contra instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil. Nesta sexta-feira, agentes cumpriram dois mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal para investigar um suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco a Embaixada e consulados americanos.

Segundo a PF, a investigação surgiu a partir da cooperação com agências de inteligência estrangeiras. Após as buscas, a PF afirmou que não encontrou até o momento elementos que confirmem os riscos inicialmente apontados. Equipamentos eletrônicos foram apreendidos e continuam sendo analisados.

Os Estados Unidos suspenderam nesta sexta-feira os serviços consulares da Embaixada em Brasília e dos consulados no país por “preocupações de segurança”. O governo americano também recomendou que seus cidadãos mantenham um alto nível de vigilância, evitem manifestações e grandes aglomerações e tenham cautela nas proximidades de prédios governamentais.

A Austrália também fechou temporariamente sua embaixada em Brasília por “preocupações de segurança” e orientou seus cidadãos a evitar instalações diplomáticas americanas. Em seu alerta de viagem, o governo australiano mencionou ainda as eleições brasileiras, possíveis manifestações e o risco de terrorismo, embora não tenha informado sobre uma ameaça terrorista específica no país.

Reino Unido e Canadá não fecharam suas embaixadas, mas atualizaram suas orientações de viagem. Os britânicos recomendaram que seus cidadãos evitem manifestações e reuniões políticas durante o período eleitoral. O Canadá também alertou para possíveis manifestações e reforço da segurança antes, durante e depois das eleições, além de ter reproduzido o alerta emitido pela Embaixada dos Estados Unidos.

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