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Comunicação

Polícia invade tevê crítica do governo argentino

Ação policial teve como objetivo apreender documentos e designar um interventor, segundo o juiz que autorizou a invasão

Polícia Nacional argentina vigia entrada da sede da emissora de televisão Cablevisión, em Buenos Aires, após mandado judicial | Clarín
Polícia Nacional argentina vigia entrada da sede da emissora de televisão Cablevisión, em Buenos Aires, após mandado judicial (Foto: Clarín)

Numa ação considerada sem precedentes pelos opositores do governo de Cristina Kirchner, a sede da empresa fornecedora de serviços de tevê a cabo Cable­­visión, em Buenos Aires, foi ocupada ontem durante três horas — em circunstâncias inusitadas — por policiais no que críticos consideram um novo capítulo da briga entre Cristina e o Grupo Clarín. A Cablevisión pertence ao grupo de comunicação crítico ao governo.

A incursão da Gendarmería National Argentina — polícia de elite ligada ao Ministério da Segurança — à sede em Buenos Aires foi autorizada por um juiz da cidade de Mendoza, onde a empresa não opera. O objetivo, segundo o juiz, era designar um interventor e apreender documentos para um processo movido contra a Cablevisión pelo grupo Vila-Manzano, dono da Supercanal, empresa concorrente. O grupo Vila-Manzano é aliado dos Kirchner: seus veículos de comunicação, mais influentes no interior, estão entre os campeões em arrecadação publicitária do governo federal.

Além disso, um dos donos do grupo é José Luis Manzano, peronista, ministro do Interior do governo Carlos Menem, muito próximo ao chefe de Gabinete de Cristina, Juan Manuel Abal Medina. O Vila-Manzano acusa o Grupo Clarín — que detém 47% do mercado de tevê a cabo argentino — de monopólio e concorrência desleal desde que houve a fusão entre a Cablevisión e o Multicanal, outra operadora de cabo. A união foi autorizada pelo governo em 2007. Neste ano, um tribunal ordenou que o governo anulasse a fusão. Só que o Grupo Clarín recorreu, e o processo está em andamento.

"É uma história muito mal contada. Como um juiz de Mendoza autoriza uma incursão numa empresa de Buenos Aires? Porque está ligado à Vila-Manzano, que é muito influente na cidade", disse Martín Etch­­evers, gerente de Comu­­nicações Externas do Grupo Clarín.

O cientista político Adrían Ventura, colunista do jornal La Nacíon, outro jornal crítico ao governo, diz não ter dúvidas de que a Casa Rosada está por trás da intimidação, em mais um exemplo de que "a liberdade de expressão agoniza na Argen­­tina". A vinculação do governo com o ocorrido ontem foi considerada "um disparate" pelo ministro do Interior, Florencio Randazzo.

Segundo Ventura e Etchevers, não é mera coincidência a ação ocorrer na mesma semana em que deve ser votado, no Senado (a Câmara já aprovou), o projeto do governo federal que declara de "interesse público" o papel-jornal, cuja única fábrica (a Papel Prensa) tem a participação do Estado, mas é controlada por La Nación e Clarín. Segundo o governo, as empresas realizaram manobras para obter o controle da Papel Prensa durante a ditadura militar (1976-1983).

Os opositores alegam que a medida afetará a distribuição dos jornais no país.

O Grupo Clarín entrou, on­­tem, com uma ação contra o tribunal de Mendoza por abuso de poder por parte do juiz Walter Bento, que autorizou o mandado de busca e apreensão. O juiz e o interventor designado por ele tiveram de sair da sede sob escolta policial e gritos de revolta dos funcionários da Cablevisión.

Associações de imprensa como o Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ) e a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) disseram, na noite de ontem, estar analisando o caso antes de emitir um parecer.

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