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Volta ao passado

Populismo resgata o nacionalismo na América Latina

Curitiba – A ascensão de lideranças consideradas populistas na América Latina nos últimos anos tem sido cada vez mais um motivo de preocupação para os Estados Unidos. O líder da nova onda populista na região, Hugo Chávez, presidente da Venezuela, tem criticado duramente os países latino-americanos que buscam Tratados de Livre Comércio (TLC) com os EUA. Inclusive, a disposição dos vizinhos para acordos foi o motivo alegado por Chávez ao anunciar a saída da Venezuela da Comunidade Andina de Nações (CAN).

A tendência à esquerda na América Latina também ganhou espaço esta semana nas páginas do principal jornal norte-americano, o The New York Times, que afirmou que a nacionalização dos hidrocarbonetos na Bolívia é uma prova de que o populismo está se espalhando na América Latina, em especial na figura de Chávez. O New York Times também questionou, em editorial, sobre o risco das eleições no Peru – disputadas entre um ex-presidente acusado de corrupção, Alan García, e um nacionalista, Ollanta Humala.

"Evo Morales (presidente da Bolívia) está sendo apadrinhado por Chávez. A nacionalização dos hidrocarbonetos faz parte de uma política de expansão dos interesses venezuelanos", analisa o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Argemiro Procópio. O cenário tende a dar ao Chávez o controle político sobre os recursos naturais da Bolívia, o que preocupa os EUA, diz Procópio.

"Os EUA estão preocupados com a projeção da Venezuela no lugar do Brasil. Foi um baque para a política externa de Lula." Caso Humala vença o pleito presidencial no Peru, o círculo populista quase se completa na América Latina, diz o especialista.

O discurso de integração mais radicalizado na América Latina também traz em seu bojo a perspectiva de unidade ideológica, diz Denilde Oliveira Holzhacker, especialista em Relações Internacionais da Faculdades Rio Branco. "A onda populista vem com forte incorporação das massas sem apego às instituições democráticas. A decisão de Morales de nacionalizar a produção de hidrocarbonetos marca uma nova fase de desenvolvimento na região, buscando autonomia e independência dos países centrais."

Diante da crise do gás, a tendência é de queda nos investimentos na região, mas Brasil e Chile ainda sustentam a credibilidade para atrair recursos externos mesmo que suas políticas tenham traços populistas, diz Denilde. "Por isso, é tão decisiva a postura do Brasil nesse episódio. O ideal seria o Brasil não ser liderado, e sim líder." Os desdobramentos da união Chávez-Morales ainda não podem ser vislumbrados.

Precedentes

Waldir Rampinelli, especialista em História da América Latina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta três lideranças populistas na América Latina no século 20: o presidente mexicano Lázaro Cárdenas (1934–1940), o brasileiro Getúlio Vargas (1930–1945 e 1951– 1954) e o argentino Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973– 1974), que promoveram desde reforma agrária à nacionalização do petróleo. "O populismo não é um fator negativo. Se confunde muito com demagogia."

Para Rampinelli, o neopopulismo ressurge a partir do ano 2000 por conta do fracasso das políticas neoliberais dos anos 80. "A política internacional das novas lideranças mantém o antiimperialismo e a tentativa de fortalecer o mercado interno como foi na era Vargas, Cárdenas e Perón."

A democracia na América Latina vem sendo revestida de populismo, mas a decisão de Morales em nacionalizar a produção de gás e pretróleo pode isolar a Bolívia do resto do mundo e criar dependência da Venezuela, analisa Procópio.

A crise do gás mostra que a liderança do Brasil na América Latina está cada vez mais apagada, opina Procópio. "O Mercosul está se afogando. O Uruguai está buscando alternativas de acordos bilaterais, enquanto o Paraguai está insatisfeito com o bloco." Procópio diz que há o risco de o Paraguai pedir um preço mais justo em Itaipu, seguindo o exemplo de Morales. "Será outra dor de cabeça para o Brasil, que perdeu espaço na América Latina. Ou seja, a política externa brasileira é frágil, uma política de promessa que não deu prioridade aos vizinhos". Morales havia anunciado desde a sua campanha eleitoral que iria nacionalizar os hidrocarbonetos, mas "Lula pensou que Morales fosse como ele. Mas Morales falou e fez."

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