
Washington - Ele permaneceu as últimas quatro semanas praticamente confinado em seu pequeno apartamento em Dupont Circle, bairro vizinho do centro da capital norte-americana, acordado até 3h da madrugada às custas de dezenas de xícaras de café expresso e latas do energético Red Bull, sentado diante do seu laptop numa mesa repleta de blocos de anotações, livros de História e transcrições de discursos históricos.
Jon Favreau vem enfrentando assim o maior desafio de sua vida: redigir o discurso de posse de Barack Obama. Pessoas muito próximas do presidente eleito dizem que ele e Favreau têm almas gêmeas. Obama acha que não é bem assim. Para ele, o rapaz de 27 anos é, na verdade, uma pessoa capaz de ler pensamentos.
Por isso, quando Obama encomenda um texto a Favreau, ele sabe que o resultado será exatamente como ele próprio o faria ou próximo disso. O texto final acaba sempre sendo editado por Obama, que suprime e acrescenta palavras, dá um toque bem pessoal à mensagem. De vez em quando as alterações são mínimas: "Eu também sou um redator e, por isso, sei que há dias em que você está inspirado e em outros não muito", ponderou Obama em recente entrevista.
Para Christopher Buckley, que fazia este trabalho para o primeiro presidente Bush, o importante é haver uma sintonia perfeita entre o que é colocado no papel, quem lê e como lê: "O truque nesse ofício é fazer com que o cliente diga as suas palavras brilhantes de uma forma tal que consiga fazê-las soar como se viessem diretamente de dentro de sua própria alma."
Foi Robert Gibbs, diretor de comunicações da campanha de Obama, e que será o seu principal porta-voz na Casa Branca, quem apresentou Favreau ao candidato, em 2005, quando Obama ainda era senador. O autor, que até então trabalhava para o senador John Kerry, foi contratado.
"Eu anotava quase tudo o que Obama dizia, e absorvia isso. Agora, quando sento para escrever, eu simplesmente me sintonizo em suas ideias, suas frases", disse o redator, que é chamado de "Favs" por Obama e sua equipe.
Às vezes o presidente eleito telefona para ele e diz que tem algumas ideias na cabeça que gostaria de lhe expor. Depois de ditá-las ele pede que o redator faça "uma limpeza" e escreva um rascunho que, mais tarde, o próprio Obama vasculhará realizando emendas, podando trechos. Isso aconteceu várias vezes ao longo das eleições primárias, cujos discursos foram produzidos nessa base.
Inspiração
Favreau é o chefe de uma equipe que tem mais dois redatores. Os três manterão este trabalho na Casa Branca. Ao falar a respeito, Favreau confirma o que muita gente já notou nos discursos de Obama: as suas fontes de inspiração.
"Há matizes de John Kennedy, de Robert Kennedy, e de Martin Luther King."
Tommy Victor, porta-voz de Obama, diz que os dois trabalham " em parceria". "O presidente eleito entende que Jon é um talento raro e confia nos seus instintos e habilidades. Há um respeito mútuo e muito apreço entre eles", diz.



