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América

Professor escreve sobre o contexto político, econômico e social de Honduras

País já esteve envolvido em uma guerra com El Salvador motivada pelo futebol

Guerra do Futebol - com este nome ficou conhecido o conflito bélico que afetou dois países centro-americanos, El Salvador e Honduras, em julho de 1969, por conta da disputa classificatória para a Copa do Mundo que teria lugar um ano depois no México e onde o Brasil se sagraria tricampeão mundial. O que havia de comum com esses três países? Todos eram ditaduras militares, em pleno contexto da Guerra Fria. No caso do enfrentamento entre El Salvador e Honduras, houve mais de 2.000 mil mortos entre ambos países; milhares de migrantes expulsos em ambos os lados e um tratado de paz firmado apenas 10 anos depois.

América Central foi palco de terríveis lutas intestinas, inspiradas pelos acontecimentos da Revolução Cubana. Sob o lema geopolítico norte-americano de evitar o chamado "efeito dominó", por meio de medidas preventivas para evitar uma nova Cuba, os EUA gastavam um milhão de dólares diários em El Salvador para contrapor-se à guerrilha da Frente Farabundo Marti, e financiar os ‘contras’ (anti-sandinistas) na Nicarágua, onde em 1980 a Frente Sandinista de Libertação Nacional derrotou o clã dos Somoza.

Diferentemente de Cuba, os sandinistas mantiveram um sistema político plural, com partidos e imprensa livre, o que lhes custou posteriormente a perda de mandato, mas anos depois recuperado e atualmente representado por Daniel Ortega, ex-lider guerrilheiro. Honduras foi uma espécie de vitrine preventiva, para os norte-americanos, uma vez que após a restauração do processo democrático, em 1980 e uma constituinte em 1982, consegue reinstaurar o sistema oligárquico e bipartidário das duas forças tradicionais, representados pelos Partidos Liberal e Nacional.

Se em Honduras tudo parecia ir na mesma toada de sempre, sucedendo-se no governo desde os anos 1980 liberais e nacionais, essa aparente calmaria é rompida bruscamente em 28 de junho de 2009, com a destituição do Presidente Zelaya que resolve utilizar-se de uma consulta popular para sondar a vontade popular sobre a realização de uma nova constituinte, a chamada "quarta urna", em alusão à consulta feita de forma diferente, em três urnas, para as eleições separadas de presidente, deputados e prefeitos.

Por que tal intenção aparentemente inofensiva ao sistema democrático teria desencadeado a fúria dos setores conservadores e dominantes dos importadores, exportadores, do congresso nacional, da mídia, das forças armadas e dos setores eclesiásticos? Naquele mesmo ano de sua derrubada, o Presidente Zelaya resolve realizar um processo licitatório público para a importação de combustíveis, o que implicou ameaçar as empresas norte-americanas que controlam este setor. Zelaya teve que se aproximar dos movimentos populares do campo e da cidade para forçar a mudança do sistema político, aproveitando o contexto geopolítico regional, com a emergência de novos governos de esquerda, como os da Venezuela, Equador, Bolívia e Cuba.

Em 1998, outro fenômeno não político, mas natural, destrói quase que completamente o país, o Furacão Mitch. Este episódio agravou terrivelmente a organização econômica e social da sociedade hondurenha, colocando a nu as contradições que anteriormente não se explicitavam com toda a crueldade, como é o caso hoje do Haiti, também devastado por terremoto e furacões. As sociedades centro-americanas estão constituídas majoritariamente por populações tradicionais, camponesas, índias e mestiças. Os povos nativos de Honduras, por exemplo, representados pelos indígenas Lencas e os Garifunas (afrodescendentes, que formaram quilombos) resistem em suas terras contra a instalação de hidrelétricas e outros empreendimentos florestais.

Embora seja devastador o saldo histórico deixado pela estrutura de poder político e econômico – a oligarquia terrateniente e o oligopólio econômico das empresas internacionais exportadoras de produtos agrícolas, como o café e a banana – setores populares resistem diante desse poder avassalador, uma verdadeira máquina de produção da desigualdade e da pobreza. No caso de Honduras, segundo nos informa o jornalista Félix Molina, o número de assassinatos cometidos contra camponeses, jornalistas, advogados e defensores dos direitos humanos aumentou nos últimos tempos; 70% da população de 8,5 milhões vive com menos de dois dólares diários. Dos 24 jornalistas assassinados, apenas um caso foi apurado.

Em torno de 200 estações de rádio e 50 canais de televisão comercial são propriedade de políticos, empresários e representantes eclesiásticos influentes. Essa situação não é de se estranhar, pois é comum para toda América Latina, o que demandaria uma "reforma agraria do ar", segundo expressão ainda do jornalista Molina.

O esporte globalizado, midiatizado, mercantilizado como é o caso do futebol, nos é apresentado como uma possibilidade de fomentar a concórdia, o entendimento e até a paz entre as pessoas, embora declaradamente seja um ato de guerra e de apelos aos nacionalismos irreconciliáveis. Sabemos que a "orden" mundial segue seu caminho imperturbável, na inercia reprodutiva de uma realidade que repõe a desorden, a desigualdade interminável. Por momentos, podemos dizer que alcançamos a Zona RR, segundo o poeta chileno Nicanor Parra, ou seja a Zona da Realidade Real, aquela que permite enxergar de uma vez por todas o terrível e o cruel deste mundo. Isso só é possível detectar por aquilo que o filósofo francês Jacques Rancière designava como "desentendimento", ou seja, quando um sistema social já não permite mais buscar uma saída razoável.

Dimas Floriani, sociólogo, coordenador acadêmico da Casa Latino-americana (Casla) e professor da UFPR

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