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Aos 34 anos, Iryna Terekh comanda uma das principais empresas privadas de defesa da Ucrânia. Ex-empresária dos setores de arquitetura, construção e mobiliário urbano, Terekh é CEO e diretora de tecnologia da Fire Point, fabricante de drones e mísseis usados por Kiev em ataques de longo alcance contra alvos dentro da Rússia.
Criada após a invasão em larga escala da Ucrânia ordenada pelo ditador Vladimir Putin em fevereiro de 2022, a Fire Point deixou de ser uma pequena fabricante de drones e outros equipamentos militares para se tornar uma das principais empresas privadas do setor de defesa do país, com milhares de funcionários e dezenas de unidades de produção espalhadas pelo território ucraniano.
Terekh entrou para a empresa em 2023, inicialmente para comandar a linha de produção. O convite partiu do fundador da Fire Point, o engenheiro e físico Denys Shtilerman, que precisava transformar os projetos e protótipos da empresa desenvolvidos em meio à guerra em equipamentos capazes de serem fabricados em larga escala.
Antes de entrar na empresa, Terekh levava uma vida profissional distante da indústria militar. Ela havia construído sua carreira nos setores de arquitetura, construção e mobiliário urbano, administrando uma empresa que produzia bancos, vasos, pias e outras estruturas destinadas a espaços públicos. Também participou de projetos de desenvolvimento urbano em Kiev.
Terekh estudou arquitetura na Universidade Nacional de Construção e Arquitetura de Kiev, mas deixou o curso antes de concluí-lo. Na época, já administrava seus próprios negócios e conciliava a vida profissional com a criação dos filhos. Poucos dias depois do início da invasão russa, Terekh foi buscar a mãe, que morava perto de Bucha, ao norte de Kiev. Durante a tentativa de deixar a região, o carro em que as duas estavam foi atingido por disparos, obrigando-as a retornar para a cidade e se esconder enquanto forças russas avançavam pela área. A experiência vivida em Bucha, segundo ela, mudou sua visão sobre a guerra e sobre o papel que poderia desempenhar na defesa do país.
Ao The Wall Street Journal, Terekh afirmou que jamais teria entrado para a indústria de armamentos se a Ucrânia não tivesse sido invadida pela Rússia.
Do planejamento urbano para a fabricação de drones e mísseis
Quando Terekh chegou à Fire Point, a empresa ainda possuía uma operação pequena. Segundo relato da própria executiva à imprensa internacional, a companhia tinha apenas 18 funcionários em 2023.
Inicialmente, Shtilerman, o fundador, se concentrava principalmente no desenvolvimento dos equipamentos da empresa, enquanto Terekh passou a trabalhar na organização da produção. Sua função, contudo, logo foi ampliada.
Terekh assumiu funções mais amplas e passou a acumular os cargos de diretora de tecnologia e CEO da Fire Point. Com isso, deixou de atuar apenas na organização da produção e passou também a participar mais diretamente do desenvolvimento dos armamentos e da estratégia tecnológica da companhia.
Ela começou a estudar o funcionamento de mísseis, consultou antigos manuais soviéticos e buscou ajuda de especialistas para aprofundar seus conhecimentos técnicos. A experiência adquirida anteriormente com materiais e fabricação também passou a ser utilizada na indústria de defesa.
Foi Terekh quem propôs uma mudança no processo de fabricação da Fire Point que reduziu de seis dias para aproximadamente duas horas e meia o tempo necessário para produzir uma asa de drone. A capacidade de Terekh de simplificar projetos e acelerar a produção se tornou uma das bases da expansão da Fire Point.
A mudança proposta por Terekh foi aplicada na produção do drone de ataque de longo alcance FP-1, atualmente um dos principais produtos da Fire Point, utilizado pela Ucrânia contra alvos dentro da Rússia. Quando Shtilerman concluiu o projeto do drone, Terekh avaliou que o método de produção inicialmente previsto não era adequado à fabricação em massa. A partir de sua experiência com materiais e processos industriais, Terekh propôs uma nova forma de fabricar as asas do FP-1, o que reduziu o tempo necessário para produzir cada uma delas de seis dias para cerca de duas horas e meia.
Segundo a companhia, o FP-1 tem alcance de aproximadamente 3.380 quilômetros e vem sendo empregado em ataques ucranianos contra refinarias, centros logísticos e outras instalações estratégicas em território russo. A Fire Point também produz drones da família FP-2, destinados a operações de menor alcance.
Segundo dados compilados pela emissora CNBC, a companhia ucraniana fabricou cerca de 200 drones em seu primeiro ano. Desde então, sob o comando de Terekh, a escala aumentou de forma acelerada. Em entrevista à CNBC, ela afirmou que a Fire Point já possui capacidade para desenvolver mais de 100 mil drones ao longo deste ano. A empresa também já emprega mais de 7 mil pessoas.
A executiva disse que os equipamentos da Fire Point já participam de mais de 60% dos chamados ataques profundos realizados pela Ucrânia contra a Rússia, operações destinadas a atingir alvos a grandes distâncias da linha de frente.
Mísseis de cruzeiro
Além dos drones, a Fire Point, sob o comando executivo de Terekh, também passou a investir no desenvolvimento de mísseis de cruzeiro.
Atualmente, o principal projeto da empresa neste setor é o míssil FP-5, conhecido como Flamingo. Terekh é uma das figuras por trás do desenvolvimento do armamento. Segundo as especificações do míssil divulgadas pela companhia, o Flamingo pesa aproximadamente seis toneladas, transporta uma ogiva de cerca de 1.150 quilos e possui alcance máximo declarado de até 3 mil quilômetros.
O apelido do míssil surgiu durante os testes. Em 2024, protótipos do FP-5 foram pintados com cores fortes para facilitar a localização dos fragmentos depois dos lançamentos. Quando um deles recebeu pintura rosa, alguns funcionários fizeram uma brincadeira com Terekh, dizendo que aquilo era o que acontecia quando uma mulher assumia o comando de uma empresa de defesa. O míssil acabou ficando conhecido como Flamingo.
O armamento ampliou a capacidade da Ucrânia de realizar ataques de longo alcance com uma carga explosiva muito superior à transportada pelos drones da Fire Point. O Flamingo já foi utilizado em uma operação ucraniana contra uma fábrica russa de componentes militares na cidade russa de Cheboksary, percorrendo cerca de 1.800 quilômetros devido à complexidade da rota utilizada.
Segundo Terekh, a capacidade de produção da Fire Point já chegou a cerca de 100 mísseis Flamingo por mês. Cada unidade custa cerca de US$ 600 mil (cerca de R$ 3,1 milhões).
A empresa também está desenvolvendo outros projetos de mísseis e trabalha neste momento também na criação de sistemas de defesa aérea. Terekh disse que um dos objetivos da empresa neste momento é o desenvolvimento de interceptadores de mísseis balísticos que possam ser produzidos por uma fração do custo dos sistemas Patriot usados atualmente pela Ucrânia.
Acusações de favorecimento e investigação anticorrupção
A Fire Point passou a enfrentar nos últimos meses acusações de ter recebido tratamento preferencial do governo ucraniano na concessão de contratos públicos de defesa.
As suspeitas ganharam força depois que o Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia, o NABU, abriu uma investigação para apurar se a empresa teria inflado os custos de componentes usados na fabricação de seus armamentos e se teria informado ao Ministério da Defesa uma quantidade de drones superior à efetivamente fornecida.
A investigação também passou a examinar possíveis vínculos entre a Fire Point e Timur Mindich, empresário que foi sócio do presidente Volodymyr Zelensky. A companhia confirmou a existência da investigação, mas negou as acusações. Terekh rejeitou a tese de favorecimento do governo, afirmando que a Ucrânia precisava naquele momento de produção em larga escala de equipamentos militares, por isso fechou contratos com a empresa, e que a Fire Point aceita auditorias, fiscalização e mecanismos de transparência externos.
Vendas internacionais
Apesar da rápida expansão da companhia, os drones e mísseis da Fire Point ainda não são vendidos regularmente a outros países. A demanda provocada pela guerra faz com que a produção permaneça destinada às necessidades militares da própria Ucrânia.
Terekh, porém, já fala abertamente sobre uma futura atuação internacional da empresa ucraniana. “A Ucrânia, em uma economia do pós-guerra, precisará ser uma exportadora de produtos com alto valor agregado. Não queremos mais ser apenas o celeiro do mundo”, afirmou em entrevista ao jornal The Guardian.
Ao mesmo tempo, a executiva se tornou uma das principais representantes da Fire Point no mercado internacional, participando de feiras e fóruns de defesa ao redor do mundo e apresentando a potenciais parceiros os drones, mísseis e sistemas desenvolvidos pela companhia.
A Fire Point já relata forte interesse de países europeus em receber linhas de produção da empresa. Terekh, no entanto, criticou os entraves regulatórios enfrentados pela empresa ucraniana para avançar com esses projetos na Europa.
“A burocracia europeia é uma ameaça maior à defesa da Europa do que os russos”, afirmou a executiva. “Com os russos, você pode lidar com mísseis e drones, mas como se luta contra a burocracia europeia?”.
A empresa começou a desenvolver recentemente uma estrutura industrial na Dinamarca para produzir combustível sólido utilizado nos mísseis Flamingo. O projeto recebeu tratamento especial das autoridades dinamarquesas, que removeram mais de 20 obstáculos regulatórios para permitir a instalação da fábrica.






