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Crise no Paraguai

Quem é Miguel Vázquez, o “Vorcaro paraguaio”, fundador do Ueno Bank

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Miguel Vázquez, de 36 anos, fundou o Ueno Bank e comandou a expansão dos negócios financeiros da família; o empresário está preso preventivamente após a quebra da instituição. (Foto: Agencia Paraguay/Wikimedia Commons)

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Aos 36 anos, Miguel Vázquez já havia transformado os negócios financeiros da família em um dos maiores bancos do Paraguai. Apaixonado por triatlo e automobilismo, o empresário também gostava de velocidade no mundo dos negócios. Sob seu comando, o Ueno Bank conquistou milhões de clientes no país, expandiu suas operações e passou a disputar espaço com instituições tradicionais que atuam no Paraguai. Sua ambição era ainda maior: construir o primeiro negócio paraguaio avaliado em mais de US$ 1 bilhão e levar uma empresa do país à Bolsa de Valores de Nova York, em Wall Street. Mas a trajetória de sucesso sofreu uma reviravolta nesta semana, quando Vázquez foi preso após a quebra do banco que ajudou a construir.

O empresário, que passou a ser chamado nas redes do Brasil de “Vorcaro paraguaio”, em referência a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está no centro da investigação sobre suspeitas de irregularidades financeiras no Ueno Bank. A Justiça determinou sua prisão preventiva e o bloqueio de bens de empresas de seu conglomerado. Nesta semana, policiais também apreenderam um iate de luxo, duas aeronaves e carros de alto padrão ligados ao banqueiro.

A quebra do Ueno Bank, que tinha aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos, provocou uma crise que ultrapassou o sistema financeiro paraguaio e gerou diversos protestos pelo país. O escândalo também levou à renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, e colocou sob pressão o governo de Santiago Peña, que apresentou sua renúncia nesta quinta-feira (5) e enfrenta agora um processo de impeachment, que está sendo analisado no Senado.

De uma financeira familiar a um banco com milhões de clientes

A trajetória de Vázquez no mundo dos negócios começou muito antes da criação do Ueno Bank. O empresário pertence à terceira geração de uma família que construiu um conglomerado econômico a partir de atividades comerciais e financeiras no Paraguai. Seu avô materno, Miguel Jacobo Villasanti, abriu uma oficina mecânica em Assunção em 1945. O negócio posteriormente deu origem à Cóndor, representante da Mercedes-Benz no país. Já seu pai, Víctor Hugo Vázquez, fundou em 1984 a Credicentro, empresa dedicada à concessão de crédito, principalmente para consumidores que tinham dificuldades para acessar os bancos tradicionais.

Miguel Vázquez começou a participar dos negócios da família ainda na adolescência, ajudando o pai nas operações da financeira. Posteriormente, ele assumiu funções de direção e passou a conduzir a expansão das atividades financeiras da família.

Em entrevista concedida em 2024, citada pela agência Bloomberg, o empresário se definiu como um herdeiro que havia construído sua trajetória sobre o trabalho das duas gerações anteriores da família. Miguel Vázquez participou de cursos executivos em finanças, administração e transformação digital no INCAE Business School, na Universidade de Miami e de programas vinculados à universidade Harvard. À Bloomberg, Vázquez afirmou, entretanto, que não concluiu uma graduação universitária.

A principal transformação dos negócios da família ocorreu a partir da Credicentro. A empresa deu origem a uma estrutura financeira que passou a operar sob a marca Ueno. Em 2023, o empreendimento se tornou um banco, após obter autorização do Banco Central do Paraguai.

No ano seguinte, o Ueno Bank incorporou o tradicional Visión Banco, ampliando sua presença no mercado financeiro paraguaio e sua carteira de clientes. A instituição passou a apostar então principalmente em serviços digitais, cartões e benefícios comerciais para conquistar consumidores. A expansão do banco foi rápida. Além da vasta carteira de clientes, o banco administrava atualmente cerca de US$ 2,8 bilhões em depósitos.

Empresário sonhava em levar negócios para Wall Street

A ascensão do banco Ueno transformou Vázquez em uma das figuras mais conhecidas do setor financeiro paraguaio. O empresário passou a defender então publicamente a inovação tecnológica como estratégia para ampliar o acesso da população aos serviços bancários.

Uma de suas maiores ambições era criar o primeiro unicórnio do Paraguai, denominação dada a empresas privadas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Ele também pretendia levar uma companhia paraguaia à Bolsa de Valores de Nova York, nos Estados Unidos.

O crescimento financeiro do Ueno acompanhou essa ambição. O banco chegou a ser avaliado em quase US$ 500 milhões no início deste ano, enquanto a participação de Vázquez na instituição alcançava um valor estimado de até US$ 375 milhões. O empresário também acumulou influência sobre outros setores econômicos. Em abril deste ano, ele detinha 75,94% do capital do Grupo Vázquez e concentrava 94,02% dos direitos de voto, de acordo com informações societárias divulgadas pelo conglomerado.

O grupo chegou a reunir 28 empresas, com negócios nas áreas financeira, tecnológica, agropecuária, de seguros, turismo e comércio eletrônico. A expansão também levou a marca Ueno ao futebol, com patrocínios esportivos, incluindo o patrocínio da seleção de futebol do Paraguai.

Fora dos negócios, Vázquez cultivava uma imagem de empresário competitivo. Adepto do triatlo, de provas de Ironman e de corridas de automobilismo, ele frequentemente associava a velocidade das competições esportivas à maneira como administrava suas empresas. Em sua apresentação institucional no site do Ueno Bank, ele descrevia sua paixão pelas corridas, pela competição e pela busca constante de inovação.

“Sou apaixonado por velocidade e por competir”, escreveu, citando sua participação em corridas de rali e provas de triatlo. “Mas, acima de tudo, correr na velocidade da inovação em cada um dos meus empreendimentos”, acrescentou.

Iate, aviões e carros de luxo do banqueiro entraram na mira das autoridades

O patrimônio acumulado pelo empresário passou a ser alvo das autoridades após a quebra do Ueno Bank. Nesta quinta-feira, policiais e integrantes do Ministério Público paraguaio apreenderam um iate da fabricante italiana Azimut Yachts em um condomínio privado na região de Itapúa, no sul do Paraguai.

As operações também alcançaram duas aeronaves vinculadas ao grupo empresarial e nove veículos, incluindo automóveis de luxo encontrados em uma residência de Vázquez em Assunção. Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia, a frota de veículos foi avaliada em aproximadamente US$ 1,4 milhão.

Nesta sexta-feira (6), o promotor Silvio Corbeta afirmou que a investigação sobre o caso Ueno continuará buscando bens vinculados aos dirigentes e envolvidos com a crise do banco. A intenção é preservar o patrimônio para uma eventual decisão judicial de confisco ou ressarcimento de vítimas.

A Justiça paraguaia também determinou o bloqueio de bens e contas bancárias de outras dez empresas relacionadas ao Grupo Vázquez. A medida ampliou restrições anteriormente impostas a sete companhias.

Relação com o governo Peña

A proximidade entre Vázquez e o presidente Santiago Peña passou a ser investigada logo após a crise envolvendo o banco. Peña manteve investimentos em uma empresa do grupo entre 2019 e 2025, embora não fosse acionista diretamente do Ueno Bank.

Durante o governo Peña, os depósitos de recursos públicos no banco cresceram de forma expressiva. A instituição recebeu mais de US$ 800 milhões de órgãos estatais, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por recursos previdenciários do país.

O Ueno Bank também mantinha uma parceria comercial com a estatal petrolífera Petropar, que oferecia benefícios e descontos aos clientes do banco. Após a intervenção, a companhia apresentou uma denúncia criminal contra responsáveis pela instituição financeira, alegando dificuldades para recuperar recursos depositados.

A crise no Ueno Bank teve início do começo deste mês. No dia 2, o Banco Central do Paraguai aprovou a abertura do procedimento de resolução do Ueno Bank, após identificar uma deterioração grave dos indicadores financeiros da instituição, cujo índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. As apurações apontaram empréstimos de valores elevados a empresas relacionadas ao próprio conglomerado, garantias insuficientes e problemas na documentação de operações.

Vázquez foi detido na terça-feira (3). Dois dias depois, o juiz Rodrigo Estigarribia determinou sua prisão preventiva, juntamente com a de outros antigos e atuais membros da administração do banco. A defesa de Vázquez solicitou que ele fosse colocado em prisão domiciliar com monitoramento eletrônico e apresentou imóveis como garantia.

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