
Nova York - The Bridge ("A Ponte"), título do incisivo novo livro de David Remnick sobre Barack Obama, sem previsão de lançamento no Brasil, faz referência à ponte em Selma, Alabama, onde manifestantes pelos direitos civis foram violentamente reprimidos pela polícia do Estado em 7 de março de 1965, num choque sangrento que mobilizaria a nação e ajudaria a abrir caminho para a aprovação do Voting Rights Act (lei que deu o direito ao voto para os negros nos Estados Unidos).
A referência surgiu num comentário de um dos líderes daquela passeata, John Lewis, de que "Barack Obama era o que havia do outro lado daquela ponte em Selma" uma observação que o congressista Lewis fez 44 anos depois, no dia da posse de Obama.
E é também uma referência à esperança manifestada por muitos dos apoiadores do presidente de que ele seria uma ponte entre as raças, entre os Estados de coloração republicana e os de inclinação democrata, entre conservadores e progressistas, entre as gerações que se lembram dos dolorosos tempos da segregação e aqueles que cresceram num país diferente, cada vez mais multicultural.
A essa altura, a história de Obama já foi contada muitas vezes por jornalistas e pelos autores de várias biografias e livros sobre a campanha, e de forma ainda mais memorável pelo próprio presidente, que antes de se tornar político escreveu um volume de memórias (A Origem dos Meus Sonhos, Editora Gente) em que investiga, com notável eloquência, sua juventude, sua luta para superar a ausência do pai e seu esforço perscrutador para forjar uma identidade própria.
Mas, se os contornos da história contada em The Bridge são muito familiares, Remnick editor da revista The New Yorker e autor de um artigo irrepreensível publicado em 2008 pela revista, "The Joshua Generation: Race and Campaign of Barack Obama" ("a geração de Josué: raça e a campanha de Barack Obama), do qual o livro é, aparentemente, um desdobramento agora recheou aqueles contornos com profundidade e nuances.
Lançou mão de entrevistas com muitas das figuras que contribuíram para a formação do presidente ao longo da vida, adicionando detalhes à narrativa de sua educação política e sentimental em particular sobre suas relações com o pai autodestrutivo e a mãe romântica, por vezes ingênua.
Misturando, ao escrever, emoção na medida certa com um conhecimento seguro de política, Remnick situa solidamente a carreira de Obama num contexto histórico. Coloca sua vida e sua filosofia política na perspectiva do movimento pelos direitos civis que moldou sua imaginação, e também sob a ótica das disputas de poder em Chicago e das políticas raciais e suas batalhas, tanto no Estado como nacionalmente.
A exemplo de muitos outros repórteres, Remnick descreve Obama no livro como descolado, carismático, levemente distante: um autodidata com a inteligência analítica de um advogado e o temperamento atraente de um romancista; um idealista que é também pragmático; um político que tende a ser metódico e cauteloso ao tomar decisões.
Remnick também coloca ênfase considerável no papel que teve o trabalho comunitário na construção da visão de política de Obama uma experiência determinante na disposição do futuro presidente em ouvir e motivar outras pessoas. Uma disposição que teria sido reforçada ainda mais durante seus estudos na Harvard Law School e na Universidade de Chicago, lugares politicamente diversificados e, com frequência, dados à discórdia, onde seu impulso era tentar a conciliação e a síntese de pontos de vista opostos. Talvez seja também o que explica por que fez tamanho esforço, no ano passado, para tentar angariar apoio à reforma do sistema de saúde junto aos republicanos.
"Certa vez, num debate sobre ações afirmativas com o pessoal da revista da Harvard Law School", escreve Remnick, "Obama falou como se entrelaçasse os vários argumentos expostos na sala, pesando sua força relativamente uns aos outros, sem nunca julgar ou desprezar um ponto de vista. Se alguém entrasse ali, pensaria que ele era um professor, diz Thomas J. Perelli, um amigo de Obama que virou funcionário do Departamento de Justiça na atual administração. Ele conduzia a discussão, mas não tentava impor sua própria visão. Era muito mais um mediador."
Em outro momento do livro, Remnick descreve Obama como um filho que aspirava a ser calmo, equilibrado e responsável exatamente aquilo que seu pai, volátil e inconstante, não fora e como um estudante ávido que cultivava mentores com quem pudesse aprender, como o estudioso do direito constitucional Laurence H. Tribe, em Harvard, e o senador Richard J. Durbin, democrata de Illinois.
Ele observa que Obama aprendia rápido e, de início, não costumava ser muito eloquente ("voz poderosa, professoral, concentrado na própria seriedade um bolo sem fermento"), e que podia "alternar estilos sem abandonar sua autenticidade", mudando sutilmente "sotaque e cadência da fala, a depender do público".
Comentando o tema da autoinvenção que percorre toda a autobiografia A Origem dos Meus Sonhos, Remnick faz uma leitura aguda, muitas vezes comovente, do livro. "No ensino médio", escreve, "Barry (Obama) por fim parou de escrever cartas para o pai. Seu esforço para compreender a si mesmo era um ato solitário. De forma tocante, desajeitada, ele se educava sobre como ser negro."
Passo a passo, enquanto Obama crescia vivendo com os avós brancos no Havaí, prossegue Remnick, "ele começou uma imersão na cultura afro-americana que parecia existir a milhares de quilômetros de onde estava".
Alguns leitores poderiam argumentar que esses capítulos têm o efeito de definir Obama, em grande medida, pelo prisma racial. Para Remnick, "a raça está na essência da história de Obama", e que o presidente escreveu longamente, em A Origem dos Meus Sonhos, sobre essa busca por identidade como afro-americano, e também costuma falar sobre ter se apoiado sobre os ombros dos gigantes dos direitos civis, o que teria tornado sua trajetória possível.
"Para Obama", conclui Remnick, "a luta pela liberdade dos negros define não apenas a experiência afro-americana, mas a experiência americana em si" a história, conforme observou o próprio presidente, de que "nós, como afro-americanos, somos americanos, e de que nossa história é a história dos Estados Unidos, e de que, aperfeiçoando nossos direitos, melhoramos a Nação".
Serviço
The Bridge, de David Remnick. Knopf, 672 págs., US$ 29,95 (importado).
Tradução de Christian Schwartz







