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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embarcou nesta terça-feira (12) rumo à China para um encontro de dois dias com o ditador chinês, Xi Jinping, em Pequim. A visita é a primeira de um presidente americano ao país comunista asiático desde 2017, quando o próprio Trump esteve lá durante seu primeiro mandato, e ocorre em um momento de instabilidade nas relações diplomáticas entre as duas maiores economias do mundo.
A cúpula desta semana deveria ter ocorrido no final de março, mas Trump adiou o encontro para conduzir a guerra contra o Irã. Agora, com uma frágil trégua em vigor no conflito no Oriente Médio, os dois líderes se encontram carregando uma agenda densa: comércio, Taiwan, inteligência artificial, controle nuclear, repressão a dissidentes e a sombra do Irã – rival dos EUA e aliado de Pequim – que deverá pairar sobre cada ponto da pauta.
Acompanham Trump na viagem à China alguns dos nomes mais poderosos do empresariado americano: Elon Musk (Tesla, X e SpaceX), Tim Cook (Apple), Kelly Ortberg (Boeing), Larry Fink (BlackRock), Stephen Schwarzman (Blackstone) e Larry Culp (GE Aerospace), entre outros 16 executivos. A presença do setor privado sinaliza que acordos comerciais de grande porte estão no horizonte.
Para o coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPM, Alexandre Uehara, o encontro é acompanhado com atenção pelo potencial impacto que pode ter sobre a economia mundial – e, por extensão, sobre o Brasil, que mantém relações econômicas relevantes com ambas as potências.
O especialista avalia que a simples retomada do diálogo entre os dois líderes já representa um sinal positivo para o mercado internacional, mas alerta para o risco de o encontro produzir apenas resultados simbólicos.
Discussão sobre o comércio e acordos
Após a guerra tarifária que chegou a impor taxas acima de 140% sobre produtos chineses, os dois países firmaram uma trégua durante o encontro Trump-Xi de outubro de 2025, em Busan, na Coreia do Sul, reduzindo parte da pressão de ambos os lados.
Contudo, segundo dados citados pelo Fórum Econômico Mundial (FEM), as exportações chinesas para os EUA continuaram caindo nos primeiros meses de 2026 – uma queda de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número indica que, mesmo após a trégua, a reorientação comercial chinesa para outros mercados seguiu em curso.
Para o encontro desta semana, segundo funcionários americanos ouvidos pela agência Reuters, espera-se que China e EUA avancem na criação de novos fóruns bilaterais permanentes que busquem institucionalizar a gestão da relação comercial e de investimentos entre os dois países, substituindo o atual modelo de escaladas e tréguas pontuais por um canal estruturado de negociação. Um deles pode ser o chamado "Conselho de Comércio" bilateral, uma espécie de fórum permanente para gerir os fluxos comerciais entre os dois países, com listas de produtos sujeitos a tarifas reduzidas.
Um "Conselho de Investimentos" paralelo também deve ser formalizado. Além disso, a China deve anunciar compromissos de compra de produtos agrícolas americanos e de energia. O maior negócio esperado, contudo, é uma encomenda de até 500 aeronaves Boeing 737 MAX, o que seria o maior pedido de aviões da história e a primeira grande encomenda chinesa à fabricante americana desde 2017, segundo fontes da indústria ouvidas pela Reuters.
Michael Froman, especialista em política econômica internacional e presidente do think tank Council on Foreign Relations (CFR), avaliou em análise publicada no site da instituição que os acordos comerciais devem ser o principal resultado concreto da cúpula desta semana.
A professora do curso de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, avalia que a reunião pode ajudar a reabrir canais de diálogo e diminuir parte da instabilidade internacional, embora a imprevisibilidade de Trump siga como fator de atenção. Holzhacker aponta que o presidente americano chega ao encontro em um cenário de maior desgaste político e econômico, impactado pelos efeitos internos de sua política externa e pelas tensões envolvendo o Irã, enquanto Xi Jinping enfrenta um ambiente doméstico mais estável e uma atuação internacional mais cautelosa, menos envolvida diretamente nos grandes conflitos globais.
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Taiwan na mira
Taiwan tende a ser um dos temas mais sensíveis da reunião entre Trump e Xi nesta semana. Para Pequim, a ilha democrática é o ponto central da relação bilateral com os Estados Unidos. O chanceler do regime chinês, Wang Yi, já advertiu o secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que Taiwan representa “o maior risco nas relações China-EUA” e afirmou que Washington deveria “honrar seus compromissos” – uma forma diplomática de cobrar recuos americanos no apoio político e militar a Taipei.
Trump indicou que o assunto Taiwan fará parte da conversa com Xi. Em declaração na Casa Branca nesta segunda-feira (11), o presidente americano disse que pretende discutir com o ditador chinês a venda de armas dos EUA à ilha, alvo de ameaças de reunificação forçada de Pequim.
“O presidente Xi gostaria que não vendêssemos armas para Taiwan, e terei essa conversa [com ele]”, afirmou Trump.
A declaração aumentou a incerteza em torno da posição americana sobre a defesa da ilha. Historicamente, Washington evita consultar Pequim sobre vendas de armas defensivas a Taiwan, em linha com as chamadas “Seis Garantias” adotadas no governo de Ronald Reagan. Ao admitir que tratará do tema diretamente com Xi, Trump abre espaço para dúvidas sobre até onde a Casa Branca estaria disposta a negociar em uma das questões mais delicadas da disputa entre Estados Unidos e China.
David Sacks, pesquisador de estudos asiáticos do CFR, aponta que Xi enxerga neste encontro uma janela de oportunidade para arrancar concessões de Trump. Segundo Sacks, Pequim pode pressionar por uma mudança na linguagem americana, de "não apoiar" a independência de Taiwan para "se opor" a ela, além de buscar limitar as vendas de armas e enfraquecer a cooperação de segurança entre Washington e Taipé.
Xi também pode tentar usar a recente visita da líder oposicionista taiwanesa Cheng Li-wun a Pequim para retratar o presidente taiwanês Lai Ching-te – que é contra a reunificação - como um elemento radical que tanto Pequim quanto Washington deveriam conter.
"O que mais tememos é que Taiwan seja colocada no cardápio das conversas entre Xi e Trump", disse um alto funcionário taiwanês à agência Reuters. O temor tem fundamento: o governo Trump já atrasou a entrega para Taiwan de um pacote de armas no valor de US$ 14 bilhões (R$ 68,7 bilhões), aparentemente para não irritar Pequim às vésperas da cúpula.
Raymond Kuo, especialista em segurança internacional do think tank Chicago Council on Global Affairs, avalia que a composição da delegação americana será um sinal importante sobre o peso de Taiwan nas conversas. Segundo ele, se a reunião for conduzida principalmente por autoridades da área econômica, como o secretário do Tesouro, Scott Bessent, cresce o risco de que Taiwan entre na mesa como moeda de troca em busca de um acordo comercial mais favorável com Pequim. Se a presença de autoridades militares e de segurança nacional for mais forte, a tendência, segundo Kuo, é de uma posição americana mais firme em defesa da ilha.
Irã também deverá estar em debate
A guerra entre EUA, Israel e o regime do Irã, iniciada em 28 de fevereiro com ataques americanos e israelenses às instalações militares e governamentais iranianas, também deve pesar na cúpula.
Trump, segundo analistas, deverá pedir a Xi Jinping que use sua influência sobre Teerã para pressionar o regime islâmico por um acordo que encerre a guerra em curso no Oriente Médio e permita a reabertura do Estreito de Ormuz. O bloqueio da passagem afeta tanto os Estados Unidos – que veem os preços dos combustíveis aumentarem – quanto a China, a maior compradora de petróleo iraniano.
Nos dias que antecederam a visita, Washington escalou a pressão sobre Pequim nessa frente. Em abril, o Departamento do Tesouro aplicou sanções à segunda maior refinaria independente da China, Hengli Petrochemical, acusada de ser uma das maiores compradoras de petróleo iraniano, com bilhões de dólares em transações com Teerã.
Nesta segunda-feira (11), véspera da partida de Trump, o Tesouro americano anunciou novas sanções contra 12 indivíduos e entidades no Irã, em Hong Kong, nos Emirados Árabes Unidos e em Omã, com foco no uso de empresas de fachada pela Guarda Revolucionária iraniana para disfarçar vendas de petróleo à China.
No total, cinco refinarias independentes chinesas já foram atingidas pelas sanções americanas nas últimas semanas. Na semana passada, o Departamento de Estado também sancionou três empresas chinesas de satélite – Chang Guang Satellite Technology, The Earth Eye e MizarVision – acusadas de fornecer imagens que facilitaram ataques iranianos contra forças americanas no Oriente Médio.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, acusou os EUA de "difamar outros países aproveitando a situação de guerra" e garantiu que a China continuará desempenhando um "papel construtivo" para promover um cessar-fogo no conflito em curso.
Segundo análise do CFR, a China tem defendido publicamente uma saída negociada para o conflito, mas ao mesmo tempo oferece apoio político a Teerã e mantém canais econômicos relevantes com o regime iraniano. Para analistas do CFR, Xi tem “pouco apetite” para pressionar o Irã de forma mais dura no conflito. A leitura é que Pequim prefere ver os Estados Unidos presos a mais um conflito no Oriente Médio, enquanto tenta ampliar sua influência global e preservar sua relação estratégica com Teerã.
Um funcionário americano ouvido pela Reuters disse que Trump já tem tratado sobre a guerra diretamente com Xi. “O presidente tem falado repetidamente com o secretário-geral Xi Jinping sobre o Irã e sobre a Rússia, incluindo a receita que a China fornece a esses regimes, os bens de uso dual e os componentes”, afirmou. “Espero que essa conversa continue.”
Minerais críticos, IA e a questão nuclear
Além dos temas mais recentes, a cúpula promete abordar outras três áreas estratégicas para a disputa a longo prazo entre Estados Unidos e China: minerais críticos, inteligência artificial e controle nuclear.
A primeira envolve o domínio chinês sobre minerais críticos e terras raras, insumos essenciais para mísseis, eletrônicos avançados, baterias e veículos elétricos. Depois de ameaçar restringir o fornecimento desses materiais aos EUA durante abril e outubro de 2025, pressionando Trump a recuar em pontos da guerra tarifária, Pequim chega à mesa com uma vantagem importante.
A China controla a maior parte do processamento global desses materiais, e os EUA ainda não desenvolveram cadeias de fornecimento alternativas em escala suficiente para reduzir essa dependência. Os EUA e seus aliados têm investido na construção de cadeias alternativas de minerais críticos, mas esses esforços devem levar décadas para produzir resultados concretos.
A segunda frente deve ser a inteligência artificial (IA). A disputa entre Estados Unidos e China nessa área deixou de ser apenas tecnológica e passou a envolver diretamente segurança nacional, já que modelos avançados de IA podem ser usados em sistemas militares, ataques cibernéticos e decisões estratégicas.
Hoje, os EUA mantêm, segundo analistas, uma vantagem estimada em cerca de oito meses sobre a China no desenvolvimento de modelos de IA de ponta. Pequim, porém, tenta reduzir essa distância. Para isso, vê os controles americanos sobre chips avançados, como os da Nvidia, como um dos principais obstáculos.
Por isso, analistas apontam que a China deve tentar vincular neste encontro qualquer diálogo sobre segurança em IA a concessões dos EUA no acesso a semicondutores. Segundo a Reuters, autoridades americanas admitem abrir uma conversa sobre o tema, mas ainda não definiram o formato desse diálogo.
Chris McGuire, especialista em competição tecnológica sino-americana do CFR, alerta que Trump não deve buscar agora um acordo amplo com Pequim sobre IA. Para ele, Washington deveria ampliar a pressão com controles de exportação e tentar aumentar sua vantagem de oito meses para até dois anos antes de negociar algo mais amplo.
“Se a administração Trump estabelecer um diálogo com a China sobre IA, deve deixar claro que ele será estritamente focado em questões de segurança e não cobrirá controles de exportação”, escreveu McGuire. Segundo ele, Pequim vê esse tipo de conversa como uma oportunidade para tentar ampliar o acesso à tecnologia americana.
A terceira frente é o controle nuclear. Com o colapso do New START, o último tratado bilateral entre EUA e Rússia que limitava arsenais nucleares, que expirou em fevereiro sem um acordo para prolongamento, o mundo entrou em uma era sem marcos formais de controle nuclear entre as grandes potências. Trump tem defendido um novo acordo que inclua a China, argumentando que os acordos anteriores não refletem mais as realidades estratégicas atuais.
O problema é que Pequim não quer negociar nessa área. A China acelerou nos últimos anos a construção de seu arsenal nuclear, com projeções que apontam para cerca de 1.500 ogivas até 2035 – o ritmo de expansão mais rápido desde o início da Guerra Fria.
Em público, Pequim argumenta que seu arsenal é muito menor que o americano e o russo, e que não faz sentido negociar limites antes de haver “paridade”. Um funcionário americano ouvido pela Reuters já revelou que a China sinalizou à Casa Branca que "não tem interesse em sentar e discutir qualquer tipo de controle de armas nucleares neste momento".
Presos americanos e repressão em Hong Kong
Trump também prometeu tratar com Xi de casos de presos políticos e perseguidos pelo regime chinês. Entre eles está o de Jimmy Lai, magnata da mídia pró-democracia condenado em fevereiro a 20 anos de prisão em Hong Kong por “conspiração com forças estrangeiras”. Outro caso que deve ser abordado é o do pastor Jin Mingri, fundador da Igreja Zion, preso no fim do ano passado.
O caso do pastor Jin insere-se num contexto mais amplo de escalada da repressão religiosa na China. A prisão dele foi acompanhada da detenção de cerca de 30 outros pastores e membros da Igreja Zion, num dos maiores ataques coordenados contra uma rede de igrejas cristãs “não registradas” pelo regime em anos.
Neste mês, a Comissão dos EUA para a Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) recomendou que a China seja designada como "país de preocupação particular" e sujeita a sanções Magnitsky. No relatório anual de 2026, a comissão instou o governo americano a aplicar sua nova política de restrições de visto por violações de liberdade religiosa com foco especial nos países recomendados para designação, incluindo a China.
A pauta também deve envolver a situação de dois americanos presos na China há mais de uma década: Dawn Michelle Hunt e Nelson Wells Jr., condenados por tráfico de drogas em processos contestados por suas famílias. Segundo o advogado James Zimmerman, assessor das famílias dos dois americanos presos, Pequim já sinalizou abertura para uma possível libertação humanitária dos dois americanos, mas espera uma demonstração direta de interesse por parte de Washington.
Para Holzhacker, a agenda do encontro desta semana deve ser ampla, com foco principal em temas econômicos e comerciais, como as tarifas, cadeias globais de suprimentos, investimentos chineses nos EUA e setores estratégicos como soja, Boeing e minerais raros, mas com espaço crescente para questões geopolíticas, especialmente o conflito no Irã e os debates sobre inteligência artificial e governança tecnológica.











