Ex-presidente da Libéria Charles Taylor (esq.) e seu advogado Courtenay Griffiths: segurança ao apresentar-se aos três juízes como o 21º presidente da República da Libéria | Robin van Lonkhuijsen / United Photos / Reuters
Ex-presidente da Libéria Charles Taylor (esq.) e seu advogado Courtenay Griffiths: segurança ao apresentar-se aos três juízes como o 21º presidente da República da Libéria| Foto: Robin van Lonkhuijsen / United Photos / Reuters

O ex-presidente da Libéria, Charles Taylor, disse nesta terça-feira (14) que o caso movido contra ele no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, é baseado em mentiras e informações incorretas. Durante seu primeiro testemunho no tribunal, ele negou que tenha comandado e armado rebeldes que mataram e torturaram dezenas de milhares de civis.

Taylor, o primeiro líder africano a ser levado ao tribunal por crimes de guerra, é acusado por 11 crimes de assassinato, tortura, estupro, escravidão sexual, uso de crianças como soldados e terrorismo durante a guerra civil entre 1991 e 2002 em Serra Leoa.

Um número estimado de 500 mil pessoas foram vítimas de assassinato, mutilações sistemáticas e outras atrocidades durante a guerra. Alguns dos piores crimes foram cometidos por crianças soldados, que eram drogadas para anular seus sentimentos com relação ao horror de suas ações.

É "muito, muito desafortunado que o processo, por causa de desinformação, informações erradas, mentiras e rumores, associe a mim tais títulos ou descrições", disse Taylor quando perguntado por seu advogado, o britânico Courtenay Griffiths, sobre o que pensava sobre as acusações.

"Eu sou um pai de 14 filhos, netos e tenho lutado toda a minha vida por o que eu acho seja correto sob os interesses da justiça e honestidade", disse Taylor ao tribunal. "Eu me sinto mal com essa caracterização que é feita de mim. É falsa, é mal intencionada", acrescentou.

Vestindo um terno cinza e óculos escuros, Taylor falou com segurança ao se apresentar ao painel de três juízes como o 21º presidente da República da Libéria. Foi a primeira vez em que ele se apresentou como testemunha.

Os promotores do Tribunal Especial para Serra Leoa, apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), dizem que Taylor liderou e armou rebeldes com o objetivo de conquistar o controle do país do oeste africano e sua vasta riqueza mineral, principalmente os chamados "diamantes de sangue", extraídos por trabalhadores escravos. Mas Taylor disse que o caso teve com objetivo retirá-lo do poder.

"Todo esse caso tem sido sobre 'vamos pegar Taylor'", disse ele "Eles ainda não tiveram seu quinhão? Eu não sou culpado de todas essas acusações".

O testemunho de Taylor tem como objetivo persuadir os juízes de que as 91 testemunhas apresentadas pela acusação desde janeiro de 2008 estão mentindo.

Algumas dessas testemunhas afirmaram que Taylor enviou armas para os rebeldes em sacos de arroz, numa contravenção ao embargo de armas, e como pagamento recebeu diamantes contrabandeados das minas de Serra Leoa em vidros de maionese. Taylor negou a acusação. "Eu nunca recebi, nem em vidro de maionese, café ou qualquer outro, qualquer diamante da RUF", afirmou ele, referindo-se à Frente Revolucionária Unida (RUF, pela sigla em inglês), que ele supostamente apoiou. "É uma mentira, uma mentira diabólica".

Griffiths disse que Taylor vai testemunhar sobre seus "extenuantes esforços para levar a paz a Serra Leoa".

Taylor graduou-se em economia nos Estados Unidos e fez treinamento militar na Líbia antes de liderar a força revolucionária na Libéria em 1989.

Um ano mais tarde, o então presidente Samuel Doe, cujo regime também foi acusado de frequentes abusos aos direitos humanos, foi torturado até a morte por forças leais a Prince Johnson, um rival de Taylor que atualmente é senador na Libéria. Doe foi torturado até a morte em uma praça na capital da Libéria, Monróvia.

"Nós lançamos a revolução para produzir a estabilidade no país", disse Taylor aos juízes.

Mas a morte de Doe mergulhou a Libéria em lutas internas ainda mais intensas que duraram até pouco tempo antes de Taylor ser eleito presidente em 1997.

Taylor disse que, durante o período em que presidiu a Libéria, entre 1997 e 2003, trabalhou para reconstruir o país, devastado pela guerra civil de sete anos. Derrubado por um golpe em 2003, Taylor fugiu para a Nigéria, onde foi preso e deportado para a Holanda. Taylor mostrou-se furioso com o presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, ao qual acusou de primeiro ter-lhe dado refúgio e depois entregue ao tribunal internacional.

Taylor é acusado de apoiar a RUF em Serra Leoa em sua luta para depor o presidente Joseph Momoh e sues sucessores. Os promotores disseram que Taylor treinou na Líbia com o líder da RUF, Foday Sankoh.

Mas Taylor disse que nunca conspirou com Sankoh para invadir "aquele país amigável" que é Serra Leoa. Ele também negou ter ordenado aos rebeldes que cortassem as mãos de seus inimigos, a assinatura da atrocidade do conflito em Serra Leoa. "Está errado Isso nunca aconteceu na Libéria. Eu nunca aceitaria isso na Libéria e nunca encorajaria isso em Serra Leoa", afirmou Taylor. As informações são da Associated Press.

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