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Uma discreta faixa de terra de apenas 20 quilômetros quadrados localizada no Golfo Pérsico, considerada crucial para a exportação de petróleo do Irã, se tornou um alvo estratégico da campanha militar dos EUA e Israel nesta sexta-feira (13).
A Ilha de Kharg abriga a principal instalação petrolífera do país, responsável pelo processamento de até 90% do petróleo que é exportado. A retirada do controle iraniano sobre o território pode derrubar um dos pilares econômicos da Guarda Revolucionária, considerada a "última guardiã" do regime.
O professor de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) João Alfredo Lopes Nyegray, explicou à Gazeta do Povo que a ilha é o gargalo físico que conecta o Irã ao seu principal fluxo de caixa externo.
"Em termos de infraestrutura, Kharg abriga um dos maiores e mais críticos terminais exportadores do país; estimativas recorrentes em fontes de energia indicam que uma parcela muito elevada do petróleo bruto iraniano sai por ali. Além de concentrar carregamento, a ilha tem grande capacidade de estocagem no próprio terminal, o que permite ao Irã 'amortecer' oscilações de fluxo e organizar embarques mesmo sob pressão, algo que serviços especializados também detalham ao tratar da infraestrutura e expansão de tanques em Kharg", disse.
Para o analista, perder o controle da ilha de Kharg iria muito além de perder uma posição simbólica no Golfo Pérsico. Na prática, significaria transformar um conflito que já é dispendioso em uma guerra potencialmente asfixiante.
Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, afirma que Kharg consolidou-se como o pilar central de sobrevivência econômica do Irã. Sem a ilha, Teerã enfrentará um estrangulamento comercial, que pode paralisar a economia nacional, já deteriorada ao longo dos anos pelas inúmeras sanções que enfrenta.
"A ilha é o ponto de partida da 'frota fantasma' que dribla sanções ocidentais para abastecer o mercado chinês. Perder o controle funcional de Kharg significaria, na prática, o estrangulamento imediato das receitas em moeda estrangeira de Teerã. Sem esse fluxo financeiro, o Estado perde a capacidade de financiar subsídios internos e manter a máquina pública, resultando em um isolamento comercial sem precedentes que paralisaria a economia nacional", avalia.
De acordo com a empresa Kpler, que coleta dados e análises para o mercado global de commodities e logística marítima, o Irã aumentou drasticamente sua produção de petróleo na instalação de Kharg nas semanas que antecederam os ataques conjuntos de Israel e EUA, chegando a níveis recordes de quatro milhões de barris por dia, algo que não era visto desde 2018, quando o presidente Donald Trump impôs novas sanções nucleares ao país.
Qual a importância estratégica da ilha para a Guarda Revolucionária do Irã?
EUA e Israel prometeram intensificar a pressão sobre o regime iraniano nesta semana. Um dos alvos estratégicos que as forças militares têm mirado nos últimos sete dias é a Guarda Revolucionária iraniana, considerada a "última guardiã" do regime islâmico.
O poderoso grupo paramilitar ligado às lideranças do país persa exerce profunda influência em diferentes setores da sociedade iraniana. A Guarda Revolucionária administra sua própria marinha e força aérea, funcionando de forma independente das forças armadas regulares do Irã.
Mas a influência vai muito além da área militar, abrangendo ainda inteligência, política e economia. Um dos setores de maior importância do país recebe especial atenção dessa força coercitiva ligada ao regime: petróleo e gás.
Last night, U.S. forces executed a large-scale precision strike on Kharg Island, Iran. The strike destroyed naval mine storage facilities, missile storage bunkers, and multiple other military sites. U.S. forces successfully struck more than 90 Iranian military targets on Kharg… pic.twitter.com/2X1glD4Flt
— U.S. Central Command (@CENTCOM) March 14, 2026
Para Nyegray, a ilha de Kharg é a "pedra angular" da receita iraniana e um grande gerador de recursos para a própria Guarda Revolucionária, um dos sustentáculos do poder iraniano capazes de sufocar levantes internos quando necessário.
Já o diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo, descreve a relação entre a Guarda Revolucionária e a ilha de Kharg como simbiótica. "A ilha opera sob a vigilância direta da Guarda Revolucionária Islâmica, que não apenas garante a segurança militar do perímetro, mas também coordena as operações logísticas clandestinas para contornar embargos internacionais".
Riscos com os ataques a Kharg
Os ataques lançados pelas forças americanas à Ilha de Kharg tem a capacidade de gerar uma turbulência ainda maior nos mercados globais.
O início do conflito, no último dia 28, desencadeou uma instabilidade nos preços do petróleo. Nesta sexta-feira (13), o petróleo Brent, que serve de referência global, voltou a ultrapassar o patamar de US$ 100 o barril e as expectativas do mercado não melhoram com o passar dos dias.
Uma análise do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) aponta que um bloqueio ou tomada da Ilha de Kharg teria a capacidade de gerar uma nova onda de turbulência no mercado energético e na economia global.
Uma ação em Kharg poderia interromper um fluxo de até 1,6 milhão de barris por dia das exportações de petróleo bruto iraniano, todas destinadas à China. O problema é que uma interrupção desse nível em qualquer parte do mundo afeta diretamente os preços globais.
Segundo o CSIS, um bloqueio de EUA e Israel ao controle do Irã sobre a ilha e os impactos da decisão levariam a China a licitar suprimentos substitutos, provavelmente representando um aumento de pelo menos US$ 10 a US$ 12 no preço global do petróleo bruto.
No caso de ataques à infraestrutura, os efeitos poderiam ser ainda mais devastadores. O preço do petróleo provavelmente seria afetado de forma mais grave que na primeira hipótese pois os danos à infraestrutura iraniana manteriam o petróleo fora do mercado por um longo período, criando uma instabilidade de prazo extenso.
O presidente dos EUA, Donald Trump, comentou os ataques desta sexta-feira, argumentando que decidiu não atingir a infraestrutura petrolífera na ilha, até o momento, mas advertiu que a decisão pode ser revista caso o Irã tente bloquear o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado no mundo.
Possível operação na ilha não deve derrubar o regime a curto prazo, avaliam analistas
Os analistas destacam que não há como afirmar de forma imediata que a perda do controle desta faixa de terra provocaria a derrubada do regime islâmico. "[...] Mas é certo que tal evento provocaria um desafio existencial. A incapacidade de pagar o aparato de segurança e de conter a inflação, que já estava em níveis altíssimos mesmo antes do início dos ataques, e que certamente aumentaria a partir do colapso petrolífero, enfraqueceria as bases de sustentação do regime, tornando a manutenção do poder central uma tarefa extremamente difícil", avalia Caichiolo.
Nyegray, por sua vez, diferencia o colapso econômico que a tomada da ilha pode gerar do colapso político. "Um choque em Kharg pode reduzir dramaticamente a entrada de divisas e aumentar estresse social, mas regimes como o iraniano foram desenhados para sobreviver com repressão, racionamento e economia de guerra por períodos surpreendentemente longos".
O analista pontua ainda que um ataque que ameace a sobrevivência financeira da Guarda Revolucionária pode gerar um efeito reverso e fortalecê-la a curto prazo. "[...] quando o sistema entra em modo de cerco, o centro de gravidade migra do político para o securitário: mais controle, mais repressão, menos espaço para dissenso", explica.
Para o professor, a queda do regime iraniano dependeria menos de perder Kharg e mais de uma combinação rara: fratura entre elites (clero, Guarda Revolucionário e burocracia), incapacidade de pagar e controlar as forças de segurança, colapso de legitimidade em larga escala e uma oposição capaz de ocupar o vácuo com coordenação. "E isso, historicamente, não é consequência automática de um único golpe de infraestrutura".








