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Caso de sucesso

Transplante de rosto traz problemas para a vida toda, mas pacientes aprovam

Americana Connie Culp é primeiro transplante facial completo em seu país. Uso de drogas contra rejeição coloca vida da pessoa em risco constante

Connie Culp aparece em público após um transplante completo de rosto nos EUA |
Connie Culp aparece em público após um transplante completo de rosto nos EUA (Foto: )

Connie Culp, uma americana de 46 anos cuja face foi destruída por um tiro disparado pelo próprio marido, capturou a atenção do mundo ao ser apresentada como o primeiro caso de sucesso de um transplante completo de rosto nos EUA. Culp e outras pessoas que passaram por versões desse procedimento pioneiro vão enfrentar dificuldades para controlar a rejeição dos tecidos faciais pela vida toda, mas todos parecem considerar que a operação vale a pena. Para esses pacientes, afinal, o novo rosto é a única chance de voltar a se alimentar normalmente, de conseguir falar ou mesmo de aparecer em público sem provocar repulsa em outras pessoas.

O caso de Connie Culp é emblemático. Após ser baleada em 2004, ela só conseguiu voltar a comer alimentos sólidos, como pizza, frango e hambúrguer, no último mês de janeiro. Ela também ressaltou as sérias dificuldades sociais ligadas à sua deformidade. "Quando ver alguém com o rosto desfigurado, não julgue essa pessoa, porque você nunca sabe o que aconteceu com ela", declarou Culp em entrevista coletiva. "Precisamos do nosso rosto para poder encarar o mundo", ecoou a médica Maria Siemionow, que participou do procedimento.

O procedimento, realizado na Cleveland Clinic, no estado de Ohio, envolveu, além da face de uma pessoa morta não-identificada, também o transplante do osso do nariz e partes da arcada dentária superior, destroçados pelo tiro.

Por enquanto, a primeira descrição científica detalhada dos resultados de um transplante facial é a feita pelos médicos franceses que operaram Isabelle Dinoire, hoje com 42 anos, no fim de 2005. O cão de Dinoire havia mastigado seu rosto após a mulher tomar uma overdose de comprimidos para dormir, e ela passou por um transplante parcial de face após o acidente.

Em artigo publicado na revista especializada "The New England Journal of Medicine", a equipe liderada por Jean-Michel Dubernard, do Hospital Edouard Herriot, da Universidade de Lyon 1, relata que a paciente também recebeu células hematopoiéticas (precursoras das células do sangue, como os glóbulos vermelhos) do seu doador, como forma de minimizar a rejeição. O processo de adaptação de Dinoire à nova face foi lento e complicado.

As sensações naturais de frio e calor e a sensibilidade ao toque suave retornaram ao rosto transplantado após seis meses. A recuperação dos movimento foi ainda mais vagarosa - para se ter uma ideia, a boca só começou a fechar completamente dez meses depois do transplante. Dois episódios sérios de rejeição ocorreram 18 dias e 214 dias depois do procedimento, mas foram revertidos - não sem que ela tivesse passado por um episódio de falência dos rins.

A necessidade de tomar remédios que diminuem a atividade do sistema de defesa do organismo, como forma de "convencer" o corpo a aceitar o rosto estranho, significa que o paciente ficará bastante vulnerável a infecções ao longo de toda a vida. Também há o problema psicológico de se acostumar à face nova, já que ela é uma mistura das feições do paciente e as do doador.

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