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Virada?

Trump deixa de ver Ucrânia como lado perdedor e guerra tem novo horizonte

guerra na ucrânia
Militares ucranianos participam da cerimônia de conclusão de um curso de liderança na base da 15ª Brigada Mecanizada Independente do 10º Corpo de Exército, em Kharkiv, em maio (Foto: SERGEY KOZLOV/EFE/EPA)

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Após o encontro no Alasca com o ditador da Rússia, Vladimir Putin, em agosto do ano passado, o presidente americano, Donald Trump, parecia ver a Ucrânia como a perdedora na guerra contra os russos, já que passou a cobrar de Kiev que aceitasse reduzir o tamanho das suas forças armadas e entregar até mesmo territórios ucranianos que os invasores não conseguiram conquistar no campo de batalha, entre outras exigências. Quase um ano depois, essa visão parece ter mudado, com um novo horizonte no conflito.

A Ucrânia tem imposto ataques desconcertantes à Rússia, ao atingir alvos em profundidade no território do país vizinho, em São Petersburgo, Moscou e até na Sibéria. Os ataques a refinarias estão comprometendo a capacidade de produção e exportação de petróleo dos russos, que também sofrem dificuldades para repor as baixas (mortos e feridos) que vêm sofrendo no campo de batalha.

Segundo o think tank americano Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), a Ucrânia também está obtendo ganhos territoriais líquidos na guerra: as forças russas assumiram o controle ou se infiltraram em uma área de 40,64 quilômetros quadrados entre dezembro e maio, mas perderam 281,1 quilômetros quadrados no mesmo período.

Em entrevista à emissora France 2 após a cúpula do G7 na França, em junho, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que esses feitos estão fazendo Trump mudar sua visão sobre a Ucrânia e considerar apoiar mais as forças de Kiev.

“O que Trump enxergava quando chegou à cúpula de Anchorage [no Alasca]? Ele achava que a Ucrânia iria perder, por isso queria fechar um acordo de paz rápido. Vocês se lembram de janeiro e fevereiro de 2025? Parece que foi há uma eternidade. Ele acreditava que a Ucrânia perderia; as coisas tinham ido mal no Salão Oval com o presidente [ucraniano, Volodymyr] Zelensky”, afirmou, citando o encontro em que Trump e seu vice, J.D. Vance, deram uma bronca no líder da Ucrânia diante da imprensa e depois o expulsaram da Casa Branca.

Macron disse que “muita coisa aconteceu desde então”, citando os recentes triunfos da Ucrânia. “Esse caminho é, acima de tudo, uma vitória dos ucranianos, graças à sua capacidade e confiabilidade. O presidente Trump viu que tudo o que lhe diziam — que os ucranianos perderiam, que não sobreviveriam ao inverno — era falso”, acrescentou o presidente francês.

Um sinal dessa mudança é que, segundo Zelensky,o governo Trump sinalizou positivamente, durante a cúpula do G7, ao seu pedido para que a Ucrânia obtenha licenciamento para fabricar sistemas de defesa Patriot.

“Chegamos ao ponto em que agora só falta o sinal verde de Trump. Todos os outros [fabricantes do setor de defesa europeus e americanos] concordam”, disse o presidente, segundo informações da agência RBC-Ukraine.

Comandante ucraniano enxerga “ponto de virada”

Em entrevista à agência Reuters no final de maio, o brigadeiro-general Andriy Biletsky, fundador do contestado Batalhão Azov e hoje comandante do Terceiro Corpo de Exército da Ucrânia, afirmou que “os próximos seis a nove meses serão um ponto de virada”.

“Precisamos definir as direções onde podemos melhorar nossas posições, conquistar pontos estratégicos e, então, negociar com os russos a partir de uma posição de força — e não de fraqueza — uma trégua verdadeiramente estável”, disse Biletsky.

Em entrevista à reportagem, o coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, disse que a posição de Trump ao longo da guerra na Ucrânia tem sido imprevisível – “ele tem, conforme as circunstâncias, mudado de opinião e apoiado ora mais um lado, ora mais o outro” –, mas que o fato de a balança no momento estar a favor da Ucrânia gera otimismo em Kiev.

“Se isso redundar em, por exemplo, essa autorização para que a Ucrânia fabrique os mísseis [do sistema] Patriot, será um enorme ganho para o país”, disse Gomes Filho.

“Os sistemas [de defesa antiaérea] ucranianos não conseguem, de uma maneira muito eficiente, fazer a proteção contra mísseis, apenas contra drones; portanto, seria uma nova capacidade e uma enorme vantagem para a Ucrânia. Agora, isso também não é instantâneo, pois leva bastante tempo para a instalação de uma fábrica dessas. Eu diria que provavelmente é uma questão de anos, não de meses”, projetou o especialista.

Outra ressalva que Gomes Filho fez é saber se Putin estará disposto a conversar. “Não acredito que ele vá negociar em uma posição de fraqueza, porque isso ficaria muito ruim para ele no campo interno, perante sua própria população”, disse o analista.

“A guerra, que começou para ser terminada em semanas e que era apenas uma ‘operação militar especial’, distante da população russa, especialmente das grandes cidades, agora chegou ao dia a dia das pessoas. Chegou com as dificuldades de abastecimento, com a constatação de que os bombardeios ucranianos podem alcançar as grandes cidades russas”, acrescentou Gomes Filho, que afirmou que negociar nessa condição talvez enfraquecesse Putin politicamente “a ponto de colocar em risco a sua própria continuidade no governo”.

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