O candidato à presidência do Uruguai pelo Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, após segundo turno das eleições em Montevidéu, 24 de novembro de 2019
O candidato à presidência do Uruguai pelo Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, após segundo turno das eleições em Montevidéu, 24 de novembro de 2019| Foto: PABLO PORCIUNCULA / AFP

O Uruguai passa por um momento de suspense após a realização do segundo turno da eleição presidencial no domingo (24). Com todas as urnas apuradas na madrugada desta segunda-feira, uma margem mais apertada do que o esperado de diferença entre os dois candidatos exigiu uma contagem mais meticulosa. O candidato de oposição, Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, está na liderança e pode comandar uma mudança para a direita após 15 anos de esquerda no poder do país. Mas a pequena margem de diferença na votação pode significar que o próximo presidente, quem quer que seja, precise dialogar com a oposição, adotando uma posição mais centrista.

A Corte Eleitoral informou que apenas entre quinta e sexta-feira o Uruguai conhecerá o presidente que governará o país por cinco anos a partir de 1º de março de 2020. A diferença entre Lacalle Pou e o candidato esquerdista da Frente Ampla, Daniel Martinez, é de 1,2%, ou pouco mais de 28 mil votos, dos quase 2,7 milhões de eleitores que foram às urnas no domingo.

O que são os "votos observados"?

O que definirá os resultados da votação serão os chamados "votos observados", que ainda não foram apurados.

No Uruguai, os eleitores devem votar em um colégio eleitoral específico, assim como no Brasil. Quando isso não é possível, o cidadão realiza o "voto observado". É o caso de mesários convocados a trabalhar em uma seção eleitoral que não é a sua, ou de pessoas com alguma deficiência que votam em local diferente do estipulado por condições de acessibilidade, por exemplo.

A contagem desses votos é mais demorada do que a do restante dos votos, já que a identidade dos eleitores precisa ser confirmada. Neste segundo turno, eles totalizam 35.229, ou 1,45% dos votos - ou seja, um número maior do que a diferença entre os dois candidatos. Martínez precisaria que mais de 90% de todos os votos observados fossem para ele para uma reviravolta, uma situação pouco provável de acontecer, embora matematicamente possível.

Os votos nulos totalizam 2,24% do total, e os votos em branco, 1,54%.

País polarizado?

Falando no final da noite de domingo, Lacalle Pou pediu "prudência e paciência" a seus apoiadores durante a contagem oficial que formalizará a sua "vitória irreversível". Ele também criticou a decisão de Martínez de não reconhecer a sua vitória.

Martínez afirmou em sua conta no Twitter que "o correto é esperar os resultados da Corte Eleitoral". Ele disse que haverá diálogo com Lacalle Pou, não importando o resultado, e que, se confirmada a vitória do candidato do Nacional, irá "pessoalmente cumprimentá-lo".

As pesquisas inicialmente haviam indicado uma folga muito maior para Lacalle Pou, de 5 a 8 pontos, sobre Martínez.

Com os resultados mostrando uma disputa tão acirrada entre os dois partidos e uma divisão no país, a questão é se a governabilidade o próximo presidente ficará prejudicada. Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, explica que a divisão no Uruguai é diferente do que nos outros países da América Latina. "Eles têm um modelo de conciliação. Vai haver mudança política, mas não se espera que haja grandes dificuldades em termos de governabilidade", disse à Gazeta do Povo.

Holzhacker ressaltou que a situação do Uruguai não é a mesma da Bolívia, que teve as eleições presidenciais canceladas após a apuração ter sido suspensa e retornado com mudança nos resultados.

Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, concorda que a demora no anúncio dos resultados no Uruguai não indica uma anormalidade. "Em meio a tantos problemas na região, isso pode ser entendido como algo anormal", disse Vieira à Gazeta do Povo, lembrando que as instituições do Uruguai têm a reputação de serem mais sólidas. "A recontagem serve justamente para evitar uma crise", disse.

Qualquer que seja o presidente declarado vitorioso no final da semana, o seu governo deverá ser mais centrista, na opinião de Vieira, dada a pequena margem de diferença na votação. "Seja o Martínez, o que acho pouco provável; seja o Lacalle Pou, o que acho mais provável; teremos mais pressão por parte do lado perdedor", afirmou o professor.

"O presidente que assumir vai carecer de legitimidade para implantar uma agenda que seja muito associada ao seu campo político. Tanto que já há declarações de Lacalle Pou de que, em linhas gerais, as políticas serão mantidas, principalmente na parte comportamental", explicou Vieira, que acredita que ele não deve inicialmente revisar questões que talvez os conservadores gostassem que fossem revisadas, como o casamento gay ou a legislação sobre drogas.

Mas deve haver mudança do ponto de vista da economia, "porque temos claramente um grupo que tem interesse no desenvolvimento de uma política mais liberal".

Se o resultado se mantiver, ele reafirmará uma tendência crescente na América Latina, em que os eleitores escolhem a mudança, para a direita ou para a esquerda, para substituir os ocupantes do poder e tentar algo novo.

Uma das principais propostas de Lacalle Pou é a redução do déficit do setor público para proteger o acesso do Uruguai ao crédito barato. Sua agenda também inclui reformas nos sistemas públicos de previdência e de educação. O ex-senador conseguiu formar uma coalizão de cinco partidos, de centro-esquerda à direita, que daria à sua presidência uma confortável maioria em ambas as câmaras do congresso, se ele vencer.

Cabildo Abierto

Um vídeo publicado na véspera do segundo turno pelo ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, pedindo que as forças armadas não votassem no partido de Martínez, a Frente Ampla, causou controvérsia.

Manini Ríos foi candidato à presidência pelo partido Cabildo Abierto e teve cerca de 11% dos votos no primeiro turno, em 27 de outubro. No segundo turno, Manini Ríos apoiou Lacalle Pou. Mas, segundo analistas, o estilo radical do ex-comandante do Exército pode ter afastado alguns eleitores de Lacalle Pou na última hora.

Após Manini Ríos ter sido uma surpresa no primeiro turno, ao ficar em quarto lugar em sua primeira disputa presidencial, o seu partido direitista Cabildo Abierto pode avançar nos próximos anos e acabar influenciando a política do próximo governo.

"É interessante observar o surgimento do partido de Manini Ríos", comentou Vieira. Dependendo do que acontecer nos próximos cinco anos, o possível governo de Lacalle Pou "pode se sentir pressionado a desenvolver políticas mais à direita a medida que o seu mandato avançar, se houver um avanço do Cabildo Abierto", opinou.

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