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O presidente da Argentina, Alberto Fernández, em reunião com o gerente geral da Pfizer, Nicolás Vaquer, em 10 de julho de 2020. As negociações da Argentina para compra de vacinas da farmacêutica não avançaram
O presidente da Argentina, Alberto Fernández, em reunião com o gerente geral da Pfizer, Nicolás Vaquer, em 10 de julho de 2020. As negociações da Argentina para compra de vacinas da farmacêutica não avançaram| Foto: Casa Rosada

Quando as vacinas contra o coronavírus eram apenas uma promessa, os argentinos esperavam que o imunizante da Pfizer/BioNTech fosse um dos primeiros a chegar ao país para dar início à campanha de imunização contra a Covid-19. Mas, até agora, o governo de Alberto Fernández não comprou uma dose sequer, mesmo ela tendo sido a primeira vacina aprovada pela Anmat, a agência reguladora de medicamentos argentina.

O contato entre o governo de Alberto Fernández e a Pfizer começou em meados do ano passado. Em julho, um comunicado das farmacêuticas norte-americana e alemã informava que a Argentina havia sido escolhida como um dos locais de testes clínicos da vacina em desenvolvimento, devido à experiência científica local e à experiência prévia da Argentina em realizar estudos clínicos.

“Um grande desafio e um enorme orgulho”, disse Fernández na época, ao comentar a notícia que tornou a Argentina o primeiro país da região a realizar testes para uma possível vacina contra a Covid-19. Mais de 4.500 voluntários argentinos participaram da fase três de testes clínicos do produto da Pfizer, que em todo o mundo envolveu mais de 44 mil pessoas.

Contudo, a boa relação inicial, que poderia colocar a Argentina como um dos países com prioridade para receber as futuras doses da vacina da Pfizer, parece ter “azedado” no meio do caminho. A farmacêutica e o governo até hoje não conseguiram se entender para fechar um acordo e, diante da escassez mundial de vacinas e dos atrasos nas entregas das doses da Sputnik V e da AstraZeneca, Fernández está sendo cada vez mais questionado e pressionado pela oposição quanto às suas decisões em relação à vacina da Pfizer.

Vacinação na Argentina

A Argentina foi o segundo país da América do Sul a iniciar a vacinação contra a Covid-19. Ainda em dezembro de 2020, quando na região apenas o Chile tinha iniciado uma campanha de imunização, a Argentina começou a receber as primeiras doses da Sputnik V que haviam sido contratadas em acordo com o governo russo. Mas os cinco meses que se seguiram fizeram murchar a esperança inicial de que o país poderia rapidamente vacinar sua população.

Durante esse período, 20% dos argentinos receberam a primeira dose de imunização e menos de 6% receberam a dose complementar. Atualmente a Argentina está vacinando menos que o Chile, Uruguai, Brasil e Guiana, com uma taxa de doses aplicadas diariamente que está em torno de três para cada mil habitantes – semelhante a Equador e Bolívia, segundo a plataforma Our World In Data, da Universidade de Oxford.

A lentidão gerou muitas críticas, da oposição e de jornalistas. Embora a escassez de doses seja um problema mundial, que afeta principalmente os países mais pobres, os atrasos nas entregas de doses – principalmente da AstraZeneca – que o governo argentino já pagou fez com que o governo fosse duramente cobrado por ainda não ter fechado um acordo com a Pfizer. A pressão aumentou depois que outros governos latino-americanos, como Brasil e Peru, começaram a vacinar com o imunizante altamente eficaz.

"É incrível que ao ter sido o país que realizou os mais importantes ensaios clínicos da Pfizer no mundo, o que nos deu o direito de comprar 13 milhões de vacinas, este governo não as comprou e hoje temos 5% da população vacinada com as duas doses", disse o ex-presidente Maurício Macri no começo desta semana. A Casa Rosada disse que a Pfizer nunca ofertou ao governo 13 milhões de doses. Segundo o ex-ministro da Saúde Gines González García, a oferta inicial era de 3 milhões de doses.

Por que o acordo não vingou

Em dezembro do ano passado os argentinos estavam esperando receber 750 mil doses da vacina anti-Covid da Pfizer, devido a um anúncio feito pelo próprio presidente no mês anterior. Contudo, foram surpreendidos quando o governo afirmou que as condições exigidas pela farmacêutica americana eram “um pouco inaceitáveis”.

O então ministro da Saúde, Gines González García – que renunciou por envolvimento no escândalo do desvio de doses de vacina conhecido no país como “sala de vacinação VIP” –, disse em meados de dezembro que a Pfizer estava pedindo que o país aprovasse uma “nova lei” para que a Argentina se adequasse às exigências da companhia. Afirmou também que a Pfizer não tinha condições de garantir o fornecimento de doses diante da crescente demanda global por vacinas e que, por isso, estava atrasando as negociações com novos requisitos à Argentina.

A “nova lei” à qual se referiu García diz respeito a um desentendimento entre as partes sobre uma legislação aprovada pelo Congresso argentino em outubro do ano passado, que permitia a compra de vacinas pelo governo federal em caráter emergencial. Segundo informações que constam em reportagens da imprensa argentina, a Pfizer não estaria de acordo com um dos artigos da lei que responsabilizaria a farmacêutica em caso de negligência.

“A Pfizer nos pediu uma Lei de Vacinas e nós atendemos. Agora nos pedem uma outra lei para evitar responsabilidades legais se as vacinas causarem danos físicos. Não daremos essa imunidade jurídica, eles são responsáveis pelas vacinas”, disse o presidente argentino no ano passado.

Recentemente, o chefe de gabinete de Fernández, Santiago Cafiero, disse que “a palavra negligência sempre foi uma dificuldade para avançar na contratação” com a Pfizer. “A Pfizer exigia condições que não estavam de acordo com a lei que o Congresso votou com o apoio da oposição, que definia parâmetros contratuais. Com esses parâmetros, para muitos laboratórios com os quais temos assinado, foi possível avançar, e não com a Pfizer”, resumiu o chefe de gabinete nesta semana.

O governo continua conversando com a Pfizer, mas não fez nenhum movimento até agora para mudar a lei de vacinas.

Confusão política

Na semana passada, criou-se uma confusão ainda maior acerca da Pfizer quando uma opositora declarou que a negociação não tinha avançado porque o ex-ministro da Saúde estava exigindo o envolvimento de um aliado do governo argentino no acordo.

“Ginés González García disse que para assinar um contrato com a Pfizer era necessário um intermediário, que é o mesmo da AstraZeneca, Hugo Sigman. E a Pfizer disse-lhe que não podia”, disse Patricia Bullrich, presidente do PRO. “Esta é a matriz do funcionamento do kirchnerismo: coloque um Cristóbal López ou um Lázaro Báez [empresários próximos aos Kirchner que foram acusados de corrupção], alguém que me garanta que terei participação”.

A fala dela foi interpretada como se González estivesse exigindo propina da Pfizer, o que foi rapidamente e categoricamente negado pela farmacêutica e pela Casa Rosada. Em comunicado, a companhia afirmou que "nunca recebeu solicitações de pagamentos indevidos" e que "não possui intermediários, distribuidores privados ou representantes para fornecimento da vacina Covid-19".

Hugo Sigman é um empresário argentino, aliado ao kirchnersimo, acionista da mAbxience, a companhia que produz o princípio ativo das vacinas da AstraZeneca que será enviado ao México, onde outro laboratório, Liomont, se encarregará do envase e da distribuição para países da América Latina. Em abril, Sigman afirmou que nem ele e nem a empresa assinaram “qualquer contrato com o Ministério da Saúde da Argentina, ou de qualquer outro país, para a vacina Covid, nem coletamos dinheiro de qualquer governo para sua fabricação ou venda”.

Diante de mais esse escândalo, Fernández disse que vai processar Bullrich.

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