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transatlântico
Um barquinho a vela permite que se tomem decisões e ações práticas diretas. Um transatlântico, não. Se o capitão de um imenso navio tiver que se meter no parafuso da turbina, provavelmente o rumo será perdido.| Foto: Pixabay

A pergunta é um desafio. Do que o que o Brasil precisa de mais urgente, mais estruturante, já em 2022? O ano que vem parece, ao mesmo tempo, distante – a pandemia dissolveu a noção de dias e meses – e já presente nas discussões da política.

Aliás, começo falando que não sou do mundo político-partidário, eleitoral ou eleitoreiro. Costumo me intitular, em homenagem ao destino que me coube, um homem sem qualidades – ou melhor, um homem sem dons especialmente brilhantes, como nos conta Vargas Llosa ao ler Jean-François Revel. Esse homem que não é presenteado com alguma capacidade brilhante é obrigado, o tempo todo, a sair da zona de conforto, a deixar de lado a arrogância e olhar de frente a realidade. Pelo lado prático, embora seja um leitor onívoro e tenha a capacidade de falar de muitos assuntos pelo lado conceitual, me vejo incapaz, na maior parte das vezes, de ir ao detalhe.

Não me furto, porém, à responsabilidade de pensar o concreto - com a ressalva de que preciso, sempre, daqueles que vão encaixar o estratégico no empírico. Dou a direção conceitual e acompanho a implantação. E quanto maior o sistema – seja um país, seja uma grande empresa – menor deve ser o número de estratégias determinadas. Um barquinho a vela permite que se tomem decisões e ações práticas diretas. Um transatlântico, não. Se o capitão de um imenso navio tiver que se meter no parafuso da turbina, provavelmente o rumo será perdido.

Como industrial, à frente da Unipar S/A – complexo químico/petroquímico -, tenho, no rastro familiar, seis gerações de empreendedores que assumiram grandes riscos, desde João Teixeira Soares, avô do meu bisavô, que construiu a ferrovia Curitiba-Paranaguá.

Portanto, o desafio é falar ao mesmo tempo do conceitual e do empírico - desse amanhã à nossa porta e de um olhar a médio e longo prazo, sem esquecer a máxima de Samuel Taylor Coleridge: “A luz que a experiência nos dá é de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”.

No Brasil, há muito o que se fazer. Uma imensidão. E quanto maior o sistema que se quer alterar, melhorar, mais cuidadosa deve ser a escolha das iniciativas - escolher poucas e boas ações de cada vez, dar tempo que todos o sistema reaja e se adapte, até para que se tenha parâmetros do que deu certo ou não – seguindo aqui as ideias de Sir Karl Popper e sua Open Society. Essa perspectiva se reforça no nosso país – temos muito do estruturante ainda por construir e, até por isso, continuamos a ser um país de oportunidades.

Na prática, portanto, há que discutir tanto as questões amplas, conceituais, e sua aplicação concreta. E precisamos de um pensamento amplo, decisões globais, ao lado do bom-senso de, repito, delegar as ações aos que têm a responsabilidade de colocar a mão na massa – o operário, o gerente, o executivo. Nesse futuro próximo, duas dessas questões são a privatização e a reforma tributária.

Parece óbvio, mas é importante repetir: bom-senso é privatizar o que não é função do estado. Só assim o poder público pode se concentrar no que é seu papel e no que é mais importante: educação, saúde, segurança. Só dessa maneira vai ser possível dar um ponto de partida digno a todos os cidadãos. Daí, cada um segue com seu esforço, construindo o próprio destino.

Diante do atual debate sobre sistema tributário eu não arriscaria opiniões pontuais, porque é necessário enxergar o panorama geral, a big Picture, todo o arcabouço tributário. O nosso, particularmente, tem aleijões sistêmicos, históricos. Já ouvi que no Brasil se tributa pouco. Já ouvi que se tributa demais. Só que é preciso uma visão ampla para um diagnóstico. Por exemplo: países que mais taxam dividendos tendem a não cobrar sobre ganho de capital; outros cobram sobre patrimônio mas não sobre herança… e assim por diante.

Com a mesma certeza da inevitabilidade da morte e dos impostos, da famosa frase de Benjamin Franklin, considero a simplificação da forma de cobrança - quanto e sobre o que se cobra em cada imposto - o caminho para encontrar uma proporção justa, que incentive a quem produz e garanta um ponto de partida mais e mais inclusivo.

Acredito em gestos e em convergência de interesses. E falo de interesses honestos e abertos, sem a hipocrisia dos “desinteressados”. Reluto em aceitar discursos da moda e posar de bonzinho. Meu ponto é que, voltando ao início dessa conversa, precisamos enxergar e acolher a proporção entre a responsabilidade e a possibilidade de retorno – financeiro, diretamente, e retorno, digamos, “coletivo”, na construção de um ambiente mais saudável.

Do que o Brasil precisa, já em 2022? Não precisa de salvadores da pátria, de ídolos das massas. Precisa de homens comuns, que tenham clareza do que é seu dever e que cumpram seu papel, balizados, cada um, pela ética específica da sua posição e profissão.

*Frank Geyer Abubakir é empresário, presidente do conselho da Unipar S/A

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