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“Morte a Israel!”, gritou ela, no meio do caminho, ao passar pela nossa mesa de debate e desaparecer na multidão. Eu a reconheci — uma colega da minha época na universidade. Poucos minutos antes, eu a havia convidado para se sentar comigo e expor seus argumentos sobre Israel, mas ela recusou.
Esse encontro aconteceu no início deste ano, quando voltei ao Randolph-Macon College, minha alma mater em Ashland, Virgínia, nos Estados Unidos, para promover um debate sobre se o Ocidente deveria apoiar Israel. Nos dias que antecederam o evento, ele ganhou repercussão: panfletos foram distribuídos pelo campus, o pôster online foi compartilhado mais de sessenta vezes nas redes sociais e, no YikYak, um aplicativo anônimo do campus, alguém o republicou com a legenda “vamos envergonhá-los”, acumulando quase 100 votos positivos — a publicação mais comentada.
A paixão era inegável. O que se seguiu foi outra coisa. Dezenas de pessoas apareceram, mas a maioria apenas para assistir. Um aluno se aproximou da mesa e perguntou sobre o tema. Convidei-o a debater. Ele hesitou e disse que “simplesmente não tinha as palavras”. Um prêmio em dinheiro e donuts grátis atraíram alguns participantes — principalmente alunos com opiniões moderadas ou sem opinião formada. Os que tinham as convicções mais fortes, vários dos quais eu conhecia pessoalmente, não estavam em lugar nenhum.
Esta não é uma história sobre censura. Ninguém proibiu o evento. Ninguém o cancelou. Os alunos optaram por não participar voluntariamente — e esse é precisamente o problema
Durante anos, o debate sobre a liberdade de expressão nos campi universitários concentrou-se quase exclusivamente em impedir que palestrantes se manifestassem e em censurar certos tipos de discurso. Essa luta é importante. Mas o problema mais corrosivo está sendo amplamente ignorado: uma geração de crentes fervorosos que não tem interesse em qualquer contestação legítima às suas ideias. Meu professor de ética da graduação presenciou isso em tempo real. Ano após ano, os alunos têm se mostrado cada vez mais relutantes em opinar sobre temas políticos controversos, mesmo quando questionados diretamente.
A epifania veio no dia seguinte à eleição presidencial dos EUA de 2024. Apesar de meses de visível ansiedade em relação aos resultados, sua turma permaneceu em silêncio quando o assunto foi abordado em discussão. Os dados confirmam que não se trata apenas de uma sala de aula: uma pesquisa da Fundação Knight, de 2024, revelou que dois em cada três estudantes universitários praticam a autocensura durante discussões em sala de aula; o Ranking de Liberdade de Expressão Universitária de 2026 da FIRE, baseado em 68.510 respondentes de 257 instituições, constatou que 52% praticam a autocensura pelo menos uma ou duas vezes por mês.
Os alunos não estão sendo silenciados. Eles estão se calando por conta própria. A questão é: por quê?
A política se tornou nossa identidade. Criticar a política de alguém significa não mais questionar uma opinião, mas sim questionar a própria essência dessa pessoa. Há um motivo para estudantes cobrirem seus laptops com adesivos políticos e suas biografias nas redes sociais com hashtags de ativismo. Eles não estão apenas sinalizando suas crenças, mas também quem são. E ser desmentido sobre quem você é, mergulhando, então, em uma espiral existencial, deixou de ser um temor irracional.
É também uma crise de honestidade intelectual. Muitos estudantes com fortes convicções políticas nunca as questionaram seriamente. Em um campus típico, os liberais superam os conservadores em uma proporção aproximada de 5,5 para 1 entre os estudantes, 6 para 1 entre os professores e 12 para 1 entre os administradores. Essa assimetria naturalmente instiga uma espécie de ortodoxia incontestada, na qual as visões dominantes são repetidamente aceitas e reforçadas. Os estudantes conservadores enfrentam o problema oposto: sentindo que suas opiniões são indesejáveis, eles se autocensuram duas vezes mais do que seus colegas liberais. Suas visões também não são questionadas — simplesmente permanecem ocultas.
Em todo o espectro ideológico, o resultado é o mesmo: o que se passa por convicção geralmente é um conjunto de argumentos herdados, apoiados em uma base não examinada — bastando uma pergunta incisiva para que toda a visão de mundo desmorone.
Os alunos sabem disso. E, por isso, evitam discutir assuntos polêmicos, mantendo suas convicções — por mais fervorosas que sejam — bem guardadas, para não precisarem se defender nem receberem respostas. Com o tempo, essas convicções se fundem à identidade. O dogma se cristaliza. O ciclo se repete.
Não é preciso ser um teórico político para saber que isso é prejudicial à democracia. Sem o diálogo, a democracia se deteriora. John Stuart Mill compreendeu que é somente por meio do choque de ideias que aprendemos quais crenças merecem ser mantidas. “Aquele que conhece apenas o seu próprio lado da questão”, escreveu Mill em Sobre a Liberdade, “pouco sabe sobre ela”. Sem questionamento, até mesmo nossas crenças mais fundamentais se esvaziam — as palavras permanecem, mas o raciocínio subjacente se deteriora.
Uma geração cuja principal forma de engajamento político é compartilhar manchetes nos stories do Instagram não é apenas intelectualmente preguiçosa; é democraticamente inadequada
A autogovernança exige cidadãos que possam enfrentar o escrutínio, examinar suas crenças mais profundas, atualizar seus pontos de vista quando estiverem errados e discordar sem insistir no erro. Em vez disso, estamos cultivando uma classe de jovens adultos fluentes em slogans e imersos em dogmas.
As universidades têm responsabilidade por isso. Durante uma década, elas trataram o desconforto dos estudantes como um problema institucional a ser resolvido com espaços seguros, administradores avessos a conflitos e uma cultura universitária que se escandaliza com a heterodoxia ideológica. A mensagem que os estudantes recebem, implícita e, às vezes, explicitamente, é que a discordância é uma ameaça a ser administrada, em vez de uma oportunidade para pensar. E então os estudantes agem de acordo. A Fundação Knight descobriu que a maioria dos estudantes desconhece qualquer programa em suas instituições que promova o diálogo construtivo. No entanto, entre aqueles que sabem que tais programas não existem, uma clara maioria os deseja. A demanda existe, mas as instituições não a estão atendendo.
A luta pela liberdade de expressão nos campi universitários tem sido quase inteiramente defensiva: acabar com as proibições, proteger os palestrantes, resistir à censura. Essas medidas são necessárias, mas insuficientes para restaurar um debate civilizado e frutífero e uma genuína amizade intelectual entre os estudantes.
As universidades precisam, em vez disso, de uma argumentação afirmativa em defesa da liberdade de expressão no campus. Isso significa incorporar o debate estruturado ao currículo básico, não como uma disciplina eletiva ou atividade extracurricular, mas como um requisito para a graduação.
Significa que o corpo docente deve tratar a manhã seguinte a uma eleição histórica como uma ocasião para discussão, em vez de um silêncio sufocante. Significa que os administradores devem medir o sucesso não pelo nível de conforto dos alunos, mas pela frequência com que eles são genuinamente desafiados. Os campi não devem se limitar a ser fóruns abertos à expressão; eles devem ser combativos, no melhor sentido da palavra.
A estudante que gritou e se afastou da minha mesa tinha uma posição que valia a pena contestar. Eu teria insistido. Ela teria que responder. Essa troca de ideias — por mais desconfortável que fosse — é exatamente o que se espera de uma educação universitária. Num momento em que os americanos mal conseguem dialogar com pessoas de diferentes espectros políticos, estamos formando uma geração que nunca aprendeu a fazê-lo. Isso não é um problema do campus. É uma emergência democrática.
Yaniv Regev é um escritor e pesquisador americano, pós-graduando em Teoria Política pela Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Seu trabalho combina teoria política, história e análise institucional para examinar como as ideias moldam o comportamento político e o debate público. Seus ensaios foram publicados em The Bulwark, DC Journal e RealClearBooks & Culture, abordando temas como populismo, transparência, censura governamental e guerra irregular.
©2026 Public DIscourse. Publicado com permissão. Original em inglês: The Real Campus Speech Crisis Isn’t Censorship—It’s Dogma



