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US Jardim Gabineto, no CIC.
US Jardim Gabineto, no CIC.| Foto: Levy Ferreira/SMCS

Um dos problemas mais prevalentes na análise da atenção primária à saúde é a visão estereotipada de que os cuidados nas unidades de saúde são simples. Na realidade, os cuidados oferecidos nas unidades de saúde são de condições de saúde mais frequentes, mas isso não significa que são necessariamente menos complexos.

Há, obviamente, muitas condições de saúde de fácil manejo. Contudo, o aumento da expectativa de vida, aumento da obesidade, sedentarismo e do tabagismo impulsionaram o número e a complexidade de condições crônicas, a exemplo da hipertensão, diabetes e transtornos mentais.

Na organização dos sistemas de saúde há variações na interpretação da atenção primária. A primeira concepção vê a atenção primária à saúde como um programa seletivo, destinado a populações e regiões pobres, onde se oferecem, exclusivamente, tecnologias simples e de baixo custo, com profissionais de baixa qualificação e sem a possibilidade de encaminhamento para outros serviços.

A segunda concepção preconiza a atenção primária como porta de entrada do sistema de atenção à saúde, enfatizando a função resolutiva desses serviços sobre os problemas mais comuns de saúde. O objetivo é minimizar os custos e satisfazer as demandas da população, restritas às ações de atenção de primeiro nível. É uma interpretação muito comum em países desenvolvidos e, em geral, está relacionada com a oferta de médicos.

É preciso mudar radicalmente de um sistema reativo de atenção à saúde para um sistema proativo

A terceira concepção da atenção primária como estratégia de organização do sistema de atenção à saúde. Objetiva reordenar os recursos do sistema para satisfazer às necessidades, demandas e representações da população. As equipes das unidades básicas têm o papel de articular e coordenar o cuidado dos usuários na rede de atenção à saúde.

Essas três concepções se apresentam na prática no Brasil. Mas, indiscutivelmente, a concepção da atenção primária seletiva ou da medicina simplificada ainda influencia, fortemente, a visão prevalente de atenção primária como um nível de atenção de baixa complexidade no qual se ofertam serviços de saúde simples.

Para que possamos avançar para uma atenção primária à saúde que seja efetivamente uma estratégia de reordenamento do SUS, há de se romper com esta visão simplificada de cuidados primários.

A situação de saúde vigente em Curitiba – da tripla carga de doenças, com aumento e predominância das condições crônicas e suas consequências; as sequelas por acidentes e homicídios, e a persistência de doenças infecciosas – demanda que o sistema de saúde e, consequentemente, os profissionais de saúde repensem o modelo de atenção.

Neste contexto, os modelos de saúde baseados no cuidado ao evento agudo são pouco efetivos. É necessário quebrar o paradigma do atendimento uniprofissional e isolado (focado apenas na figura do médico) e avançar no cuidado contínuo e multiprofissional às condições crônicas, com o envolvimento da sociedade e a corresponsabilização do cidadão no cuidado da sua saúde e dos seus fatores de risco.

Leia também: Saúde brasileira: menos leitos, menos esperança (artigo de Sandra Franco, publicado em 19 de abril de 2018)

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É preciso, portanto, mudar radicalmente de um sistema reativo de atenção à saúde para um sistema proativo. Não basta fornecer consultas, exames e medicamentos às pessoas. É preciso incorporar novas formas de abordagem para que tenhamos uma população mais saudável e feliz.  Da cura para o cuidado.

A nova proposta do Ministério da Saúde de fortalecer a atenção primária à saúde e, pela primeira vez em décadas, colocar a atenção primária como principal proposta do sistema de saúde brasileiro é muito promissora. Essa prioridade está confirmada pelo aumento dos incentivos financeiros para as equipes da atenção primária, além de implantar sistemas de monitoramento e avaliação, elementos fundamentais para a consolidação de uma atenção primária coordenadora do cuidado dos usuários.

A gestão da saúde em Curitiba já vem se estruturando ao longo dos anos para que o sistema de saúde, e em especial as equipes das unidades básicas de saúde, promovam o cuidado integral do cidadão, e nos credencia à nova proposta do Ministério da Saúde – Saúde na Hora. Nos últimos dois anos, investimos na implantação de protocolos clínicos, na melhoria dos processos de trabalho das equipes multiprofissionais com avaliação e monitoramento dos indicadores de saúde da população das 111 unidades de saúde.

Além da atenção às condições de saúde, avançamos nas ações de promoção à saúde e melhoria do cuidado com o Programa Escute seu Coração, que implantou diversas ações de apoio à mudança de estilo de vida para estímulo à adoção de hábitos saudáveis na alimentação, atividade física e diminuição do tabagismo, entre outras. Em 2016, Curitiba era, segundo dados da pesquisa Vigitel do Ministério da Saúde, a capital com o maior número de fumantes no Brasil: 14% da população. Essa mesma pesquisa foi realizada em 2018 e passamos para o terceiro lugar, com 11,4% da população fumante, resultado do trabalho implantado nas nossas unidades básicas de apoio aos usuários para diminuir o tabagismo.

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Somos das poucas cidades brasileiras com sistema de prontuário eletrônico integrado às ações de vigilância epidemiológica e aos prestadores de serviços ambulatoriais e hospitalares. Isso nos proporciona meios para tomar decisões mais assertivas. Implantamos mecanismos de avaliação das filas de especialidades junto às equipes das unidades básicas que nos permitiram reduzir o tempo de espera em até 90 dias para cerca de 75% das especialidades. Foram também incorporados sistemas de alertas para as equipes das unidades de saúde em casos de situações e resultados de exames alterados. Isso nos permite uma ação mais rápida e integrada. São mais de 500 mil exames de análises clínicas realizados por mês no laboratório municipal.

Nas 111 unidades de saúde de Curitiba são realizadas 7.560 consultas médicas, 4.280 consultas com o profissional enfermeiro, 6.440 procedimentos odontológicos por dia. Nas nove UPAs do município são 4,1 mil pessoas, e 490 atendimentos pelo Samu por dia. Na atenção especializada são realizadas por dia 3,2 mil consultas médicas e 19.460 exames para investigação diagnóstica. Na atenção hospitalar são realizadas 470 internações por dia nos 16 hospitais que atendem pelo SUS na nossa cidade.

Todas essas ações são resultado do maior investimento realizado em saúde nos últimos dois anos. Isso significa um orçamento de cerca de R$ 1,9 bilhões para 2019.

Porém, o grande desafio que temos é manter os bons indicadores e continuar avançando para acrescentar vida aos anos vividos da nossa população.

Márcia Huçulak é secretária municipal da Saúde de Curitiba.

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