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O termo “niilista” se presta a muitos usos. De modinha para jovens que posam de niilistas pra dizer que são fodões e não padecem dos males dos fracos que creem em deuses, uma espécie de Meursault nutella (o personagem niilista de Camus no livro O Estrangeiro), até um uso filosoficamente mais consistente, e que merece nossa atenção e cuidado.

No segundo sentido, o niilismo pode ser uma condição para a qual você “escorrega” mesmo sem ter plena consciência disso. Uso a expressão “condição niilista” para descrever este segundo sentido.

O niilismo é um termo que nos remete à ausência de fundamento da vida. “Nihil”, em latim, é nada. Essa ausência de fundamento da vida implica em ausência de fundamento para toda uma gama de valores que vão do bem e do mal a temas como a verdade e a mentira.

Ao afirmar o nada como nossa origem e nosso fim, estaríamos de alguma forma afirmando nosso “parentesco” com esse nada, como algo que nos corrói desde a nossa raiz.

Na maioria do casos, o niilismo vem acompanhado do ateísmo (não que ser ateu implique necessariamente ser niilista, ateus podem ser kantianos e sustentar a ética em decisões racionais públicas e privadas) e do relativismo (não existe verdade absoluta).

Mas, mesmo entre os crentes, o nada permanece no horizonte. Filósofos como o russo Nikolai Berdiaev (1874-1948), dostoievskiano, defendia que este mesmo nada – do qual saímos pelas mãos de Deus – nos acompanha e nos ameaça.

Nesse sentido, Berdiaev afirmava que apenas uma vida criativa (um tanto nietzschiana), sem medo da espontaneidade, poderia nos distanciar desse nada que nos constitui.

Nada este que nos espreita não apenas com os olhos da morte, mas também com as garras do tédio, da banalidade, do vazio de sentido, enfim, da “queda no nada” como afeto do tornar-se inexistente, do afogar-se lentamente na irrelevância e na invisibilidade da vida moderna emancipada. As redes sociais, nesse sentido, são o paraíso dos irrelevantes histéricos (ele assim diria se as tivesse conhecido).

O niilismo é, assim, uma condição, não uma escolha. É um dado da “história” do homem, mais concreto do que uma “linha de pensamento” que escolhemos.

Primeiro, porque ele está sempre presente quando uma pessoa é incapaz de experimentar a esperança no cotidiano. Você pode experimentar o niilismo mesmo que nunca tenha ouvido falar dele. Niilismo é o conceito filosófico irmão da melancolia. Sentir-se caindo na inexistência e na irrelevância é afogar-se no niilismo como realidade psíquica.

O niilismo exige cuidados, principalmente quando com ele se flerta em aulas de humanas, levando os alunos à conclusão de que caminhamos sobre um vazio de sentido e de fundamento moral.

As religiões e a política, muitas vezes, vêm em socorro dessa ameaça, que hoje, com a transformação de tudo em produto, torna-se a cada dia mais presente no horizonte dos mais jovens.

Você pode, faceiramente, estar pregando o relativismo típico de antropólogos e sofistas sem se dar conta que seu ouvinte, caso ele seja uma pessoa honesta, corajosa e sincera (o que você muitas vezes não é porque está ali apenas pregando seu credo relativista “libertador de preconceitos”), facilmente chegará à condição niilista como consequência lógica e existencial do que ouve.

As pessoas têm medo do niilismo porque o associam à falta de moral. Niilistas não são confiáveis porque “comem criancinhas”.

Do ponto de vista filosófico você teve, ao longo da história, três grandes atitudes niilistas diante da vida. Uma é a melancólica que tende à passividade. Uma outra é a “alegre” do tipo nietzschiana, afirmando a vida porque, justamente, ela é “nada”. Uma outra é a russa, de teor político, que desaguou na revolução comunista.

Nikos Kazantzákis (1883-1957), escritor grego, dizia: “Não espero nada, não desejo nada, sou livre”. Esta é a forma mais bela, entendo eu, de afirmar o niilismo como modo de vida. Mas a condição niilista exige cuidados, e não estamos prestando muita atenção em como esta condição tem tomado corpo entre os mais jovens.

Luiz Felipe Pondé, escritor, filósofo e ensaísta, é doutor em Filosofia pela USP e professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap.
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