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A Covid-19 e o advento das psicopatologias da fé
| Foto: BigStock

Non accedet ad te malum. Essa é uma crença que se tornou base de sustentação da fé evangélica como um todo no mundo ocidental, hipervalorizada por uma modalidade teológica de confissão positiva. A sentença bíblica transcrita no tópico frasal, em latim, e que poderia ser livremente traduzida como “mal algum terá ‘qualquer acesso’ a sua vida”, parece ser uma “promessa” que assume a função de uma “profecia”. O que ela quer sublinhar de modo veemente? Essa pergunta retórica merece uma resposta direta, a saber: garantir uma blindagem plena à saúde da fé de todo crente. Ao afirmar que mal algum sucederá à vida do crente, atingindo-o diretamente, o Salmo 91 cria uma espécie de vacina de efeito psicológico pleno, permanente e eficaz com a finalidade de proteger a saúde da fé do crente de qualquer evento de impacto oxidante que possa acometer a vitalidade do seu sistema de imunidade espiritual.

Essa passa ser uma certeza inescapável da fé, capaz de tornar inquebrável o senso de “segurança ontológica” do agente de fé. É nesta condição que a saúde da fé é apresentada com efusividade na estrutura poética do Salmo 91. O mundo que o circunda pode até implodir, mas o crente, diz a poesia salmúdica, permanecerá incólume com a proteção divina. Essa é uma promessa dada, reafirmo, em tom profético. E a fé tem a convicção efetiva dessa “proteção invisível” contra toda forma de ameaça mortal presente na realidade objetiva.

A natureza dessa confiança da fé ganha suporte no Novo Testamento, quando se diz que a fé é a “prova de coisas que se esperam” (Hb 11,1). Quando se admite, porém, o medo ou o pavor coexistindo como componente oxidante no interior orgânico da fé, capaz de oxidá-la, se acolhe, portanto, a crença de que a própria fé pode ser adoecida do ponto de vista de sua psicologia funcional. Mas essa probabilidade chega a zero (devendo ser descartada do enredo teológico da confissão do salmista) quando ele, para tornar intacta essa certeza intuitiva da fé, assegura que Deus é “escudo protetor” capaz de impedir que a vida física do crente seja letalmente atingida por algum “dardo maligno mortal” que pretende atingi-lo objetivamente.

Essa crença, portanto, representa um marco de sustentação teológica da saúde psicológica da fé do seu portador, de modo geral. Por isso ele deve viver de modo “destemido”, num mundo cheio de ameaças letais. Nem mesmo as “pestes que vagueiam no mundo tenebroso ao seu redor” (“a peste perambulante in tenebris”) devem lhe causar qualquer forma de medo ou pânico. E com esse grau de certeza, enraizada em seu sistema de crença, a fé do crente fica impossibilitada de adoecer (em tese). É com essa compreensão que geralmente se faz a interpretação dessa poesia salmúdica.

Este panorama hermenêutico feito do Salmo 91 seria uma apresentação perfeita do mundo da fé se ele não tivesse sido duramente relativizado/desautorizado com o advento da pandemia de Covid-19. Sim! Uma inversão funcional dos fatos acabou por revelar uma desconhecida e perturbadora “natureza negativa” da engenharia da fé: ela desenvolveu tanto um medo da vida no mundo pestilento quanto um medo de confiar em Deus. Uma crença matricial do senso da fé (“Deus sempre protege aos seus”) trincou, e isso implicou uma revisitação não esperada a uma noção rudimentar da fé que se fazia desse Salmo 91. A nova situação da vida de fé, a partir desse novo contexto histórico covidiano, alterou a semântica do texto. Logo, os conceitos que são emblemáticos nele, bem como os predicados morais de Deus associados a eles presente em sua antiga moldura de crença, tiveram de ser agora reavaliados.

O holofote das evidências extraídas do contexto covidiano projetou nova luz de compreensão da atuação divina na qual as garantias enviesadas por uma teologia da confissão positiva ganharam franca rejeição de crentes em geral. De uma versão paterno-sentimentalista (que assegurava ao crente uma espécie de campo magnético impenetrável sobre sua vida) nasceu uma “variante explicativa” (agora mais desconfiada) que começa a considerar que uma mesma sorte ou desgraça pode acometer tanto crentes como não crentes.

A crença de que uma parte da população humana recebe proteção especial perdeu plausibilidade: crentes e descrentes estão morrendo pelo mesmo agente pestilento. Essa realidade de vida, vista no contexto covidiano, tem constrangido a todos a lembrar um pouco mais das afirmações feitas por Lutero em sua teologia do “Deus escondido” (ou Absconditus): uma crença teológica pode, sim, ser desmentida por uma situação vivida. Às vezes, ao se fazer uma associação entre “uma experiência vivida e uma noção teológica que de Deus se tem”, é possível constatar uma descontinuidade entre elas. A interpretação psicológica que C. G. Jung fez do livro de Jó trouxe essa impressão, e o conceito heterodoxo de um “deus ambivalente” teve de ser introduzido por ela: “Deus pode querer matar e salvar concomitantemente (por razões que se desconhecem) até mesmo um justo”. Esse é um discurso denso, capaz de provocar uma alteração da noção tradicional que se tem de Deus, o que pode produzir um efeito adverso no imaginário dos crentes. Sim: ele pode começar a desenvolver mais medo do que confiança na ação da Providência no mundo da vida real. Não é à toa que a ansiedade e a depressão, sobretudo no contexto dessa pandemia, se tornaram mais frequentes entre religiosos. O fascínio hermenêutico com a teologia de confissão positiva deixou de exercer glamour sobre milhões de antigos adeptos.

Associado a essa nova situação vivida entre os agentes religiosos, uma grande quantidade de crentes no Brasil teve de admitir brechas e exageros da teologia de confissão positiva relacionados à recusa de uma provável “natureza inadoecível” da fé por ela engendrada, e das circunstâncias em que isso se torna possível. Afinal, é inegável o fato de que muitos crentes perderam a capacidade de continuar crendo como antes nas promessas de uma vida de fé inadoecível. Esse acontecimento pestilento contribuiu para descortinar um sintoma psicológico desconhecido (até então) pela teologia de confissão positiva: o advento de psicopatologias da fé. Como efeito colateral dessa experiência de reveses, uma visão de mundo religiosa paradoxalizada irrompeu com a chegada da pandemia de Covid-19 e atingiu, patologicamente (e de modo inesperado), o organismo mítico da fé da vida de milhões de crentes no Brasil. A depressão e o alto grau de ansiedade indicam a existência desse fenômeno de degeneração patológica da fé.

Nasceu desse episódio, portanto, um tipo insalubre de “ansiedade-do-não-destino” que começou a se desenvolver em grande parte dessa população de crentes. O desinteresse atual em voltar para as atividades normais das igrejas reflete a existência dessa psicopatologia da fé presente no imaginário dos religiosos. Por conta disso se tornou possível constatar duas crenças circulando entre crentes no geral: 1. uma desconfiança paranoica em relação ao agir da Providência neste momento, e 2. o medo de uma fé que parece ter perdido a confiança nas “garantias fundamentais” que a faz ser fé (nos moldes compreensivos da teologia de confissão positiva).

Talvez agora seja um momento propício para se fazer uma revisitação corajosa à interpretação que Ludwig Feuerbach faz sobre essa engrenagem psicopragmática da religião. O advento da pandemia fragilizou a estrutura teológica das “certezas da fé” dessa hermenêutica de confissão positiva que colonizou a subjetividade de uma geração de crentes. Essa nova percepção da “possibilidade adoecível da fé” se tornou “pedra de escândalo” para os crentes que se silenciaram diante de uma decepção com ela. O “grau de indeterminação” na estrutura funcional do cotidiano de vida do crente aumentou, tornando-o, como diria Niklás Luhmann, “repleto de paradoxos”, o que em tese não poderia acontecer. E, despojada de uma “confiança da esperança”, a psicologia da fé, nesse contexto covidiano, deixou de apresentar uma dinâmica terapêutica para a vida mental dos antigos adeptos da teologia de confissão positiva. A perturbabilidade fragilizante da fé se tornou “um estado normal de funcionamento” deles.

Uma aporia, pois, se instalou na realidade de vida de centenas de milhares de crentes espalhados pelo país: a linha do horizonte de esperança de todos eles se tornou “inextensa”. Isso parecia ser improvável antes do advento pandêmico. A ameaça da “morte a qualquer momento” passou a ser compartilhada por crentes também. E, com a saúde da fé esperante gravemente comprometida, seu campo místico de visibilização do futuro se turvou. Dessa anomalia psíquica, agora presente na vida de fé dos crentes em geral, emergiu outra psicopatologia correlacionada à primeira: uma forma de “ansiedade neurótica do destino” (ou o medo paranoico de uma morte iminente), um fenômeno que, em tese, não poderia coexistir com a fé na psicologia do crente. Ora, como é sabido, segundo recomenda Paulo apóstolo (Fl 4,7), a mente do crente deve ser portadora de uma “serenidade imperturbável” diante de qualquer ameaça letal em potencial. Entretanto, o que se constatou na conjuntura covidiana foi uma alteração no estado natural da fé. Enquanto no Salmo 91 a promessa de neutralização das pestilências foi sublinhada com a finalidade de oferecer uma proteção à saúde da fé dos crentes envoltos por um cenário de incertezas profundas, no contexto atual da pandemia a situação se inverteu. Crentes apresentam os mesmos medos dos não crentes. A confiança da fé deixou de ser identificada na vida mística dos mesmos.

Sempre que este fenômeno se manifestou na experiência histórica, houve uma exacerbação da consciência de vulnerabilidade biológica da vida humana no mundo, bem como a possibilidade de ver o seu crepúsculo acontecer abruptamente. E, com o aumento cada vez mais crescente de óbitos entre os crentes por causa da Covid-19, a teologia de confissão positiva se viu encurralada, com sua autoridade hermenêutica despencando e o vigor do seu sistema de crença arrefecendo rápida e progressivamente. Ao valorizar excessivamente os indicadores negativos da pandemia de Covid-19 popularizados pela mídia oficial, o vitalismo dessa fé sofreu um choque mortal diante dos testemunhos que pareciam reforçar a sensação de fragilidade biológica da vida, uma trágica estatística na qual os crentes também estavam incluídos. Essa situação produziu uma disfuncionalidade mecânica na fé. Desse modo, o medo se extrapolou e se tornou substancialmente maior que ela. A “fé que deveria ser somente fé” sofreu uma alteração em sua estrutura operacional e passou a atuar com alto grau de desconfiança da ação da Providência frente aos números cada vez crescentes na estatística dessa tragédia. A fé perdeu sua “função descomplexificante” da vida humana no mundo. Crentes também começaram a entrar em pânico.

Essa nova condição a ela imposta começou a ameaçar sua vocação natural, a saber: que “a fé quer ser somente fé”. Mas como isso seria possível diante da nova realidade? Um silêncio ensurdecedor emerge diante dessa situação. Uma nova versão teontológica de Deus começou a derivar dessa crise, produzindo uma interpretação variante e ressentida com Deus: dele foi destituído seu indissociável predicado de “Pai”, haja vista que ele deixou de cuidar e proteger, o tempo todo, a vida dos crentes (crença pregressa). Com essa mudança, seus antigos protegidos agora passaram a se sentir expostos diante de um cenário existencial ameaçado por “pestes que andam na escuridão (...) [e pela] mortandade que assola ao meio-dia” (Sl 91,6). Os excessos da hermenêutica prometista da confissão positiva criaram a ilusão de um “mundo de garantias garantidas” no qual se preconizava que os crentes estavam plenamente protegidos de toda forma de tragédias pensáveis. Mas, à medida que a linguagem dos fatos do contexto covidiano começou a desmentir essa versão teológica, Deus começou a ser intuído como “Deus fraco e incompetente”. E, nessa conjuntura de crise de plausibilidade generalizada dessa fé, as palavras do profeta Isaías caíram como luva: “verdadeiramente, tu és um Deus misterioso” (Is 45,15).

Assim, de uma “desconfiança paranoica” em relação ao Deus que promete garantias de proteção plena à vida dos crentes nasce uma versão variante de fé impotente, medrosa e (des)resiliente. Crentes foram aprisionados no cativeiro do pânico. O risco de vida aumentou exponencialmente enquanto a confiança da fé no Deus que guarda os seus sofreu um prejuízo irreparável, da qual só nos daremos conta com o passar do tempo. Essa crise de plausibilidade da fé criou dilemas irrespondíveis à própria vida de fé de milhões de crentes do Brasil. Passou-se a desenvolver dessa negatividade histórica, configurada na conjuntura de pestilência covidiana, uma intuição negativa de Deus. Uma nova percepção religiosa entra em cena: Deus deixou de ser compreendido como “aquele que é bom o tempo todo”. Todo sentimentalismo da fé se despotenciou. E o motivo parece óbvio: Deus deixou de proteger (como se desejava) os crentes o tempo todo contra tudo o que lhes ameaçava. Essa é uma dedutiva que passou a circular provavelmente entre milhões de religiosos no Brasil. Não se pode negar esse fato. E dessa desconfiança patológica emergiu, portanto, uma “pistopatologia”: a memória autoidentitária da fé entra em processo de colapso rapidamente. E com isso a fé começa a se esquecer de quem é e de como deveria atuar num mundo real em que coisas ruins acontecem.

Se esse processo de adoecimento da fé continuar com a potência e a velocidade que está acontecendo, o advento que sucederá, em curto prazo, será o fenômeno da apostasia em escala global. Tudo o que adoece e não recebe cura, ou o devido tratamento, morre. E a apostasia representa uma falência múltipla das funções da fé até que ela chegue ao seu colapso derradeiro. Isso está longe de ser um falso alarde. Toda vez que se tentou implementar aditivos à fé para ela se tornar uma fé ainda mais operante, ela caiu na tentação de deixar de ser fé, somente fé. Parece que o fenômeno pestilento covidiano veio para separar a das fés, o joio do trigo. Uma versão semanticamente invertida da fé predominou por muito tempo no imaginário coletivo religioso no Brasil. Infelizmente se desconsiderou que o habitat natural da fé não é o da positividade, mas o da negatividade. A fé não precisa de “amparo da evidência” para ser fé. Por isso ela se porta com indiferença a qualquer versão tragicista da evidência. A fé sempre sobrevive a tudo e triunfa sobre todos, mesmo quando as perdas acontecem ou se tornam inevitáveis. Nenhuma perda pode ameaçar de morte a esperança da fé, pois ela é a “prova de coisas que não se vê” (Hb 11,1).

Talvez seja por essa razão que Paulo apostolo afirmou, em tom de certeza inquebrável, que “nem mesmo a morte e nem a vida (...) nem o presente e nem o porvir (...) poderiam separá-lo da fé no amor de Deus que estava em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Vale ressaltar aqui, para finalizar, que a fé não existe hoje (e nunca existiu) para negar qualquer componente negativo da realidade, mas para sobreviver a ele mesmo diante de uma ameaça não hipotética. A teologia de confissão positiva foi silenciada não porque fosse uma farsa religiosa planejada, mas porque não conseguiu dar respostas convincentes e honestas à negatividade histórica que emergiu do contexto de perdas em grande escala, imposta pela pandemia de Covid-19. Um projeto hermenêutico que produziu inúmeras ilusões foi colocado a serviço dessa forma de fé, e suas garantias foram apresentadas com teor indesmentível. Ledo engano! Descobriu-se que essa fé possuía tão somente (e na verdade) um “coração artificial de plástico”, com tempo determinado de validade. O tempo se despontou, e sua validade parece ter chegado ao fim.

Pode ser que os representantes dessa fé já estejam sendo considerados criminosos pelo fato de se sentirem seguros para viver sem prestar rendição à racionalidade do medo forjada pelo mundo covidiano da vida.

A boa notícia, porém, é que a fé genuína está mais viva que nunca. Quando me reporto a ela aqui, não a menciono numa abordagem soteriológica, obviamente, mas numa perspectiva de compreensão ontológica. E nela sua natureza não lhe permite ser outra coisa que não ela mesma: a fé pura e simples, sem nenhum aditivo que altere seu metabolismo místico e operacional, tampouco sua identidade vocacional. E, assim apresentada, deve-se ressaltar que a fé genuína é habitação permanente da vitalidade. Por essa razão, ela nunca adoece. A fé que é fé não faz concessão ao medo, nem ao pavor, e nem se deixa intimidar pela aproximação de qualquer realidade que representa a antivida. A esta fé autêntica a pandemia não conseguiu (e não conseguirá) afetar letalmente. É dela que a Bíblia se refere quando diz: “o justo viverá por fé” (Hb 10,38). Esta fé não se alimenta do medo ou do pavor, e nem se torna menor que eles. Pois mesmo quando ela reconhece, com serenidade, a presença de uma ameaça potencial, ela não lhe presta continência.

Contra essa fé, portanto, não há canto de cisne que prenuncie a sua morte. A coragem de portabilizá-la acaba por representar um porto seguro para aqueles que caminham ao lado de seu agente detentor. Por esse motivo talvez seja necessário levantar uma hipótese: Será que, no contexto da pestilência covidiana, algumas instituições representativas usaram a pandemia como forma de tornar esse tipo de fé uma espécie de ameaça real à sobrevivência da sociedade? Se isso ocorreu, é possível deduzir que algumas instituições sociais podem ter criado regras duras somente com o fim de conter a expressão livre dos seus portadores. Não há como não admitir que, nesta nova conjuntura, uma psicopatologia social ainda velada tenha saído das sombras: a “pistofobia”, ou o medo da aproximação do “portador de uma fé genuína” no sentido ontológico. Existe, na verdade, um grande risco caso isso seja considerado: pode ser que os representantes dessa fé já estejam sendo considerados criminosos pelo fato de se sentirem seguros para viver sem prestar rendição à racionalidade do medo forjada pelo mundo covidiano da vida. Parece, então, que os prováveis apelos que o Salmo 91 (distorcido pela teologia de confissão positiva) faz sejam: vivam sem medo; assumam os riscos do mundo e da vida; e valorizem a coragem que não se sujeita às regras de uma lógica paranoica/alucinógena do pânico.

Anderson Clayton Pires é doutor em Sociologia e em Teologia/Hermenêutica, pastor luterano e professor acadêmico.

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