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O empresariado está descrente, cansado da perversa carga tributária que carrega ao longo das décadas, na grande parte das vezes vítima da defasada legislação trabalhista e do chamado "custo Brasil"

Aparentemente, vivemos em um país razoavelmente aliviado diante da crise econômica internacional, que se avoluma. O Brasil possui R$ 1,1 trilhão reservado para enfrentar a crise e suas consequências, valor cerca de 40% superior ao que tínhamos para encarar o mesmo fenômeno mundial há três anos. Essa proteção, acumulada desde os primeiros tempos de estabilidade econômica, é significativa e poucos podem usá-la como um escudo à turbulência que se aproxima.

Porém, ao mesmo tempo, é também perceptível no mercado e nas entidades nas quais convivemos um gravíssimo problema que desafia, além da economia, nossos sentimentos patrióticos, de cidadãos preocupados com um pensamento estratégico para o nosso país, visando sedimentar o presente e construir o futuro; um raciocínio não só imediato, mas, por exemplo, para 2030. O que será de nosso país e de sua população daqui a duas décadas? Falo da desindustrialização, cada vez mais marcante em todos os setores da atividade fabril do país. De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o coeficiente de importação (mede a participação dos produtos importados no consumo interno) alcançou 22,9% no segundo trimestre deste ano, com o crescimento de 2,2 pontos porcentuais sobre o mesmo período de 2010.

O Brasil precisa, ao mesmo tempo em que afia seus instrumentos para enfrentar a crise, determinar uma política industrial que combine efetivamente com suas necessidades socioeconômicas atuais e futuras, levando em conta suas vocações. Não é possível passar ao largo da desindustrialização depois de tanto que se construiu e se avançou no país no campo industrial especialmente depois da era Juscelino Kubitschek. Não é possível ignorar esse fenômeno, como se não tivesse nada a ver com a nossa realidade atual e com o nosso futuro.

São elogiáveis as recentes medidas anunciadas pela presidente Dilma Rousseff no "pacote" de incentivo ao setor, mas são parciais, restritas e insuficientes, não conseguirão deter a sangria que estamos assistindo nos mais diversos campos da indústria nacional, desarmada perante a concorrência externa ou desesperançada – por uma série de fatores – para investimentos.

O empresariado está descrente, cansado da perversa carga tributária que carrega ao longo das décadas, na grande parte das vezes vítima da defasada legislação trabalhista e do chamado "custo Brasil", que inclui, entre outros aspectos, uma anacrônica e onerosa infraestrutura, cheia de "gargalos", e uma máquina pública defeituosa, cujo objetivo parece sempre o de cortar estímulos ao empreendimento, impedir o crescimento da iniciativa privada. Ora, a revisão desses e de outros itens determinará o perfil de uma verdadeira política industrial, pensada em remunerar o empreendedor, criar empregos e distribuir renda à população, tudo com justiça.

A economia mundial vive momentos de incertezas e angústias quanto ao seu futuro. As constantes crises tornam essa economia retraída, em um cenário de receios. O Brasil, vivendo um momento de estabilidade econômica e política, tem, inclusive diante desse perfil internacional, uma responsabilidade de patriotismo que ultrapassa suas fronteiras. Além de abrir suas portas a empreendedores de outras partes do mundo, que aqui vislumbram possibilidades de bons negócios, fazendo com que o país receba bilhões de dólares em investimento externo, há de se inspirar em suas demandas sociais e proteger seu parque industrial, estimulando e consolidando suas indústrias.

O país tem de reivindicar de suas instâncias maiores a prática cotidiana da moralidade pública, tem de exigir o corte de gastos desnecessários da máquina pública, tem de exigir investimentos significativos e verdadeiros em infraestrutura, precisa manifestar-se por uma revisão justa e sem paternalismos da legislação trabalhista, necessita solicitar mais instituições e instrumentos de fomento público que atendam o micro e pequeno empresário, trilhar, enfim, um caminho de consolidação de fontes geradoras e distribuidoras de renda, como sua indústria, e não permitir, sob qualquer argumento, o seu sucateamento. Afinal, a globalização tem de estar sempre a nosso favor.

Marcos Domakoski, empresário, é ex-presidente da Associação Comercial do Paraná.

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