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Energia em 2022
Na imagem, o vertedouro da hidrelétrica de Itaipu.| Foto: Caio Coronel/Itaipu

O volume de chuvas nos primeiros meses de 2022 ajudou a melhorar o cenário de crise hídrica que o Brasil vinha enfrentando, considerada a maior dos últimos 91 anos. Mas os impactos vão continuar sendo sentidos – principalmente no bolso dos consumidores. Para evitar um racionamento de energia, o governo lançou mão de medidas como a contratação de termelétricas e um leilão emergencial para contratação e reserva de capacidade. Com isso, as bandeiras tarifárias entraram em vigor na conta de luz dos brasileiros, chegando a custar R$ 14,20 por 100 kWh consumidos.

A tarifa extra deve ser extinta nos próximos dias, mas nas últimas semanas a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou um empréstimo de R$ 5,3 bilhões para as distribuidoras de energia. E esse valor, vai, novamente, ser pago pelos consumidores. Esse repasse mostra que existe um problema estrutural no setor, que acaba tomando providências apenas para solucionar o problema quando ele já aconteceu, e não busca saídas para que ele não aconteça novamente.

Os períodos de seca são cíclicos e comuns no Brasil, por isso não é possível basear as ações apenas em contratação de termelétricas e campanhas de conscientização da população. É urgente que as hidrelétricas também estejam amparadas pela tecnologia e por boas soluções inovadoras para funcionar com mais eficiência e sustentabilidade.

No Brasil, a busca pela gestão eficiente dos recursos hídricos passa pela organização da programação diária da operação eletroenergética. Para manter a coordenação com os modelos de planejamento energético de mais longo prazo, o ONS fornece uma meta de potência a ser produzida para as usinas hidrelétricas a cada 30 minutos do dia seguinte. Neste cenário, os agentes de geração devem realizar o Comissionamento de Unidades Hidrelétricas (CUH), em que devem ser definidas quais unidades estarão em operação, bem como os seus respectivos níveis de potência, levando-se em conta as restrições relacionadas com a operação da usina. E é justamente aí que entra a tecnologia.

Na Usina Hidrelétrica de Santo Antônio (UHSA), localizada no Rio Madeira, em Rondônia, por exemplo, já existe um projeto em andamento (ainda em fase de laboratório) para testar um sistema de otimização para fazer a distribuição da potência entre as máquinas de forma otimizada. A UHSA contém 50 unidades geradoras (UGs) – as maiores turbinas Bulbo em operação no mundo – e, com ajuda da tecnologia, é possível fazer arranjos diferentes para, de acordo com a operação de cada equipamento, cumprir a demanda de potência. Assim, é possível não só cumprir a meta mas também gerar mais energia com menos água. O sistema foi desenvolvido pela multinacional brasileira Reivax, em parceria com o Laboratório de Planejamento de Sistemas de Energia Elétrica (LabPlan) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e ainda está em fase de validação, mas é esperado que ele traga um aumento significativo de eficiência operacional de hidrelétrica.

As usinas Cachoeira Dourada, em Goiás; Isamu Ikeda, no Tocantins; e Sauzalito, no Chile, também já estão trabalhando com um protótipo de um sistema desenvolvido em uma parceria entre Reivax, Enel e LabPlan-UFSC, que otimiza a eficiência das turbinas hidrelétricas de tipo Kaplan (equipamento projetado para aplicações de baixa pressão de água). Com a solução, é possível monitorar constantemente a atividade das turbinas, melhorando seu rendimento, evitando desperdícios de água e permitindo a produção de energia mais sustentável. Também em fase de testes, o sistema foi responsável por um aumento de eficiência de 0,7% em Cachoeira Dourada, 4,3% em Isamu Ikeda e de 0,5% em Sauzalito. Os números, considerando que o sistema opera de forma contínua, representam uma grande economia para as usinas no longo prazo – e, consequentemente, maior segurança de suprimento para o sistema.

Os dois projetos fazem parte do programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Aneel, que nos últimos 20 anos investiu R$ 13,5 bilhões nas empresas do mercado de energia, e mostram a importância do desenvolvimento constante do setor. Os resultados já são mensuráveis, mas ainda há muito chão pela frente para tornar o Brasil um país energeticamente eficiente. Além da modernização das usinas hidrelétricas, também é preciso que as empresas do mercado estejam realmente focadas em inovação e buscando, em conjunto, evoluir o ecossistema.

Outra alternativa de extrema importância são os investimentos em inovações dedicadas às energias renováveis, como a solar e eólica. Com energia proveniente de outras fontes, a tendência é que as usinas hidrelétricas não operem em seus limites, e sim funcionando como grandes “baterias” que vão poder ser utilizadas para garantir suprimento de energia ao sistema. Este é um caminho sem volta e que pode representar uma nova era para o setor energético brasileiro.

Leonardo Augusto Weiss é coordenador de projetos de P&D ANEEL e Solar na Reivax.

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