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Um pressuposto quase que comum e aceito pela maioria daqueles que se dedicam ao estudo da filosofia é o fato de que não há nenhum absurdo em afirmar que ela nasceu grande. Entendamos que, já nos seus primórdios, os grandes temas nos quais o Ocidente até hoje se debruça foram traçados e, em grande parte, debatidos.
Pois bem, façamos um pequeno salto temporal e trabalhemos com uma das frases mais marcantes – e mais mal interpretadas – de Sócrates: o famoso “só sei que nada sei”, frase que representa o grande marco da maiêutica enquanto método na filosofia.
No diálogo platônico Teeteto, Sócrates traça em linhas gerais as observações que encabeçaram o seu método: o trabalho que era realizado por sua mãe, que era parteira – até aqui, nada que os alunos não são ensinados no ensino médio – e depois elucida algumas características das boas parteiras: o ato de já ter parido e a esterilidade atual para parir.
A observação primordial e intuitiva que aqui se pode traçar é que Sócrates foi parido e que, se sua mãe pôde parir enquanto parteira e ao ato de parir é atribuído um viés filosófico, é possível conceber um parto de ideias. O segundo ponto é o de que, se Sócrates se acredita apto a parir alguma ideia, ele o faz porque já havia pensado sobre os temas que agora ele levava os outros a pensar. Portanto, Sócrates, no ato de afirmar que nada sabia, realizava um ato de humildade, pois, já tendo trabalhado e pensado sobre os mais variados temas, estava apto a provocar o pensamento e levar à geração de ideias próprias em seus interlocutores, respeitadas suas características e possibilidades de pensamento. Sócrates se torna parteiro de ideias porque já tinha parido as suas.
A verdade é que o ato de ensinar o que não se leu se tornou um verdadeiro padrão dentro dos círculos intelectuais brasileiros. Convencionou-se que o ensino da 'filosofia' seria realizado a partir da elucidação dos pressupostos e principais frases dos filósofos, formando assim verdadeiros doxósofos, pensadores incompletos
Ora, é importantíssimo que se frise esse segundo ponto, precisamente porque ele geralmente é suprimido do ensino de filosofia nas escolas e faculdades Brasil afora. Sócrates sabia de algo, pensava sobre as suas próprias ideias e só então tentava suscitar esse pensamento em outros indivíduos.
Hoje, no Brasil, parte dos professores brada em cada esquina um grito que clama menos pela verdade que pela possibilidade de se ter uma opinião própria. Seus alunos, que confiam em seus ensinamentos, decoram esses mantras e saem por aí os repetindo. Decoram o mantra de Sócrates – só sei que nada sei – e saem repetindo-o Brasil afora como um pressuposto ou para o relativismo ou pela ignorância: ambos os temas debatidos em Teeteto.
Mas a verdade é que o ato de ensinar o que não se leu se tornou um verdadeiro padrão dentro dos círculos intelectuais brasileiros. Convencionou-se que o ensino da “filosofia” seria realizado a partir da elucidação dos pressupostos e principais frases dos filósofos, formando assim verdadeiros doxósofos, pensadores incompletos, que se servem de teses para expor alguma ideia, ainda que, para isso, se corrompam as ideias originais do autor.
A humildade socrática, a afirmação de que nada se sabe para que se crie uma proximidade com seus interlocutores, para que seu discurso se adapte às necessidades do ouvinte, a humildade que só vem depois de uma análise séria daquilo que se precedeu, é esquecida por “pensadores” que, depois de uma faculdade de três anos onde leram cerca de 20 livros (isso quando muito, em alguns casos), onde boa parte desses livros não representa a obra original, mas antes comentários que foram lidos à parte dessas obras, já se julgam aptos a ler e entender pensadores como Hegel e Kant.
O próximo movimento é quase que categórico: se empossam de uma linguagem acadêmica para tentar validar seus argumentos a partir da “complexidade” da sintaxe e da semântica escolhida, mas despojam esses dois elementos, pautando seu ensino em uma verdadeira retórica sofística. Depois, lotam essas afirmações de artigos vazios, de interpretadores das obras sobre as quais se quer explicar. Isso quando não escolhem interpretadores de interpretadores.
Ressalto ainda que o problema não é de forma alguma recorrer àqueles que interpretaram as obras que estão a ser estudadas, mas sim não ler essas obras que estão sendo estudadas para aceitar de maneira passiva aquilo que se diz do autor. Aquilo que muitos dizem que os autores disseram é, por vezes, muito diferente daquilo que os autores verdadeiramente pregaram.
A humildade aqui, que falta nos círculos considerados intelectuais, está em rejeitar as obras antigas e acreditar que tudo pode ser muito bem elucidado por escritores posteriores, mas, se existem escritores posteriores, é porque até a contemporaneidade é possível se extrair algo mais dessas obras, que muitas vezes – embora sejam basilares – não compõem sequer as bibliotecas acadêmicas. Por isso, meu apelo aos professores e estudantes que ainda levam a sério o nome de “intelectual” é bastante simples: leiam.
Leiam antes de comentar. Leiam antes de interpretar. Leiam antes de ensinar. E, sobretudo, leiam antes de acreditar que já entenderam alguma coisa, pois, se Sócrates chegou a um nível de consciência no qual já não podia confundir o pouco que sabia com aquilo que ainda ignorava, é precisamente porque havia passado pelo esforço de conhecer antes de proclamar o próprio conhecimento. Permaneçam por tempo suficiente diante de uma obra ou ideia antes de tecerem suas próprias opiniões.
Lucas Feitosa é estudante de Direito pela Universidade Regional do Cariri (URCA) e representante da Diretoria de Filosofia do grupo de estudos denominado Liga Acadêmica de Estudos Políticos e Econômicos (LAEPE). Dedica-se ao estudo das relações entre Direito, filosofia, política e cultura.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



