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A inteligência humana é analógica – e isso é bom

O fato de a máquina executar procedimentos rápidos não demonstra inteligência. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Eu gostaria de retomar o tema da inteligência, porque me parece muito pouco desenvolvido no âmbito da educação atual, onde se confunde com outras características, as quais se prendem mais à memória e a algumas habilidades matemáticas. Quando vemos personalidades diversas apresentando o entendimento de que é possível a uma máquina pensar, já é sinal de falta de compreensão sobre o que seja realmente uma inteligência.

Também observo constantemente pessoas conversarem com animais, principalmente cachorros, como se estes estivessem entendendo o que se diz, e existem, até mesmo, aqueles que dizem que os animais têm alguma inteligência. Mas teriam mesmo os animais e as máquinas alguma forma de inteligência ou apenas estamos vivendo uma confusão sobre esta faculdade tão importante para o ser humano?

Bem, não irei repetir os conceitos que já apresentei anteriormente em outros artigos, mas vou fazer algumas comparações para diferenciarmos, de forma definitiva e pragmática, o que vem a ser uma inteligência, para podermos separar e designar corretamente algumas atitudes inteligentes ou não.

Vamos iniciar um progresso gradual com um vegetal que possui vida, pois uma pedra não possui qualquer forma de vida e não preciso provar que ela não tem inteligência. O fato de uma semente de alguma árvore evoluir independentemente de uma vontade externa não garante que exista ali uma inteligência – há efetivamente uma vida, como já falei, entendendo que esta vida é a capacidade de provocar movimentos imanentes –, mas isso não garante uma capacidade intelectiva. A força da natureza impulsiona os entes de maneira natural, com leis definidas, as quais não precisam de intelecto para serem executadas, até porque não precisam ser entendidas.

Assim, podemos identificar, dessa forma, que há nos seres vivos uma certa capacidade que Aristóteles e Tomás de Aquino definiriam como uma forma substancial que atua sobre a matéria, definindo esta matéria, a qual tem potência à vida. Dessa forma, observando os seres vivos, depois dos vegetais, vemos os animais ditos irracionais, os quais são dotados de vida imanente, como as plantas, com uma característica mais interessante – a capacidade de movimento local –, perseguindo um instinto predefinido, em que há uma vocação natural ou um apetite sensitivo para tal. Esta forma substancial, a qual dá a vida aos entes naturais, foi traduzida do grego psiqué (ψυχή) para o latim como anima, e desta para o português traduziu-se por alma.

Podemos ver que, filosoficamente falando, há então uma alma vegetativa própria dos vegetais, uma alma sensitiva própria dos seres animais e, seguindo aquela progressão que comentei, existe uma alma intelectiva que é diferente dos níveis anteriores. Esta alma intelectiva abrange todos os graus anteriores e acrescenta algo a mais. Neste ser é acrescentado o entendimento e a formulação do verbo ou do conceito de outro ser.

Esta capacidade intelectiva pode formular um conceito que é extrínseco ao próprio intelecto, mas não é extrínseco ao próprio inteligir do intelecto. Este ente inteligente pode formular um verbo de si mesmo e inteligir-se a si mesmo – ou seja, ter a consciência de sua própria existência como um ser pensante. Ele não irá agir simplesmente porque há uma lei que define tais fatos, mas este ser tem uma alma que possibilita pensar e, por vezes, não fazer.

Este ser pensante, ao qual me refiro, é o ser humano. Por isso, este ser possui capacidade que vai além dos sentidos externos, incluindo os sentidos internos, os quais alguns animais também possuem, para elaborar um raciocínio até chegar a um final que chamamos de verdade – um julgamento devidamente impresso na inteligência. Este processo de se chegar à formulação do verbo ou da verdade se processa do chamado intelecto paciente até o intelecto agente.

Máquinas substituem funções justamente porque não exigem inteligência no sentido pleno. Isso evidencia a necessidade de educar o ser humano para desenvolver suas capacidades intelectuais – e não apenas treiná-lo para executar tarefas

Explicando melhor, é a capacidade passiva de receber todos os conhecimentos inteligíveis que podem existir no universo e, a partir deste ponto, produzir novos conceitos. Há, assim, um intelecto possível dentro das almas humanas que as torna capazes de “ver” a verdade de todas estas coisas, mas este processo não é digital como nos computadores.

A maneira do trabalho intelectual ocorre por meio analógico. Faz-se necessário a produção do verbo por meio da inteligência e, deste verbo, avança-se para o próximo julgamento – e nova formulação verbal é realizada. É a chamada espécie expressa, pela qual a pessoa transforma suas conclusões em expressão verbal ou escrita, a fim de transmitir o novo conhecimento a outra inteligência.

Este processo humano de inteligir, chamado de analógico, é o único método de progredir no conhecimento de verdades menores até se chegar aos conhecimentos superiores e é totalmente abstrato. Vou usar um raciocínio abstrato para desenvolver melhor esta ideia de abstração – vou falar da matemática.

Como vou calcular a área de um círculo? Faz-se necessário conhecer, primeiramente, a ideia dos números, os quais não existem na natureza física. Depois, preciso definir o que seja uma área para, então, raciocinar sobre como medir dimensões retas e curvas. Percebe-se que há uma progressão no inteligir abstrato, da qual um animal irracional não possui a mínima capacidade.

Ao formular uma frase no nosso próprio idioma, também se evidencia que não é qualquer animal que pode ler ou entender, ainda menos responder com uma outra reflexão que me seja destinada e que eu possa interpretá-la. A fala é própria das pessoas – e pessoas aqui significam seres inteligentes ou racionais –, fato também impossível aos animais irracionais.

A capacidade analógica, portanto, é de fundamental importância neste processo intelectivo. Quando nos referimos a um conceito não material, como, por exemplo, a responsabilidade, não há como explicá-lo se não formos para um desenvolvimento comparativo de fatos materiais até atingir o imaterial – ou, como gosto de dizer, o espiritual. Não há como mostrar fisicamente o que seja responsabilidade ou beleza. Podemos dar exemplos, mas não apontar a coisa em si.

Por isso, ao escrevermos, não conseguimos esgotar, com palavras físicas, aquilo que é abstrato. Daí a necessidade da analogia. E, por esse motivo, necessitamos recorrer à meditação dos textos que lemos, para mergulhar em seus significados. Ao realizar esse mergulho, vamos nos deparando com cada vez mais informação, de acordo com a capacidade intelectiva de cada ser humano que lê o texto. Quanto maior a capacidade de abstração e reflexão, maior a capacidade de descobrir a verdade na informação capturada.

Deixo claro que, se apenas ensino um aluno a ler um texto, ofereço apenas o nível mais superficial do conhecimento. Se apresento um texto e obrigo todos a aceitá-lo sem questionar, sem estimular raciocínio, sem promover um ato intelectivo mais profundo – ora, isso é o que podemos chamar de ideologização. Se não propiciar o encontro com a verdade da ideia apresentada, não terei conduzido o estudante à experiência da verdade.

O que conhecemos por ciência é excelente em fazer a experiência da verdade, pois observa um evento natural ou artificial repetidas vezes e o estuda sob diversos aspectos até se obter a verdade sobre suas causas. Só então podem ser elaboradas leis. Agora, ciência sem experimentação não é ciência – e esta, sem reflexão, também não o é.

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Creio que agora fica mais claro o questionamento sobre a máquina poder pensar. Está evidente sua incapacidade de realizar autoconsciência. Ela não tem vida e é apenas um conjunto de peças organizadas por uma inteligência. Não possui vida imanente – é como se fosse um “frankenstein”, onde se reúne membros de diversas pessoas para formar um novo ser. A máquina é uma reunião de peças montadas que não refletem, tão somente realizam processos digitais, portanto físicos, e não têm capacidade abstrativa.

Nunca irá entender o que seja uma piada, nem rir de uma brincadeira, pois não tem consciência de ser. O processo digital serve apenas para executar um programa definido por um programador – e o fato de a máquina executar procedimentos rápidos não demonstra inteligência. Ela deve ser considerada uma ferramenta adequada ao ser humano, mas não o substitui naquilo que o define como superior na natureza: sua inteligência.

Antigamente, consultava uma enciclopédia em minha estante quando tinha alguma dúvida. Hoje faço o mesmo, apenas com mais facilidade. No entanto, é curioso observar pessoas agradecendo a uma máquina como se fosse uma pessoa inteligente respondendo. Ora, estamos diante de uma ferramenta – e sempre será apenas uma ferramenta, nunca um aumento de inteligência.

Já podemos antever um problema sério – que já se apresenta na nossa realidade – que é a delegação de responsabilidades humanas a sistemas computacionais.

Quero agora tratar da utilização de ferramentas no trabalho cotidiano. Muitas atividades são necessárias, mas isso não as torna intelectivas. Executar tarefas predefinidas – seja um médico aplicando um protocolo, um pedreiro seguindo uma planta, dirigir um automóvel por um trajeto – não implica necessariamente uso da inteligência, mas execução de habilidade aprendida.

Máquinas substituem tais funções justamente porque não exigem inteligência no sentido pleno. Isso evidencia a necessidade de educar o ser humano para desenvolver suas capacidades intelectuais – e não apenas treiná-lo para executar tarefas.

Se a educação não conduz à verdade, o estudante permanece restrito à superficialidade. Ao contrário, quando se desenvolve a capacidade intelectiva, abre-se o acesso à realidade.

Esse desenvolvimento se manifesta naqueles que criam, planejam, inovam – em quem vai além da informação inicial e constrói conhecimento novo. Quando lia livros, iniciava-se um processo intelectivo que não consistia apenas em ler, mas em unir informações e formar algo inédito dentro da alma.

O sistema pedagógico atual parece ignorar essas ideias. Mantém o aluno na superficialidade e não o conduz à reflexão profunda. É necessário educar para a verdade – desenvolvendo inteligência e vontade.

Essa pedagogia não é nova – aliás, é bem antiga. Os gregos já falavam nela ao construírem sua paideia (παιδεία), formando o cidadão com areté (αρετή), enfatizando virtudes como prudência, justiça, temperança e fortaleza.

Claudio Titericz é coronel reformado do Exército Brasileiro; bacharel, mestre e doutor em Ciências Militares e bacharel em Teologia; estudante permanente de Filosofia da Educação e ex-integrante do Ministério da Educação e um dos fundadores do Instituto de Biopolítica Zenith, autor dos livros “O Problema da Educação Brasileira” e “A Solução do Problema Educacional”.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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