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É possível duas pessoas igualmente honestas divergirem diametralmente sobre certas questões políticas ou religiosas? No ambiente cada vez mais tribal e polarizado em que vivemos, muitos pensam que não. Mas os liberais clássicos, como Isaiah Berlin, entendiam que a complexidade da vida em sociedade oferece espaço para mais de uma postura moral, e que não é preciso ser necessariamente bom ou ruim para estar de um lado ou do outro.

É exatamente o que argumenta Jonathan Haidt em The Righteous Mind, livro em que tenta explicar por que pessoas boas estão divididas nesses temas delicados como política e religião. O autor usa a sua área de expertise – a psicologia moral – para mostrar as razões desse convívio tão difícil entre pessoas que desejam efetivamente o bem. Encontramo-nos facilmente divididos em grupos hostis, cada um certo de sua correção.

Sua principal tese, respaldada por evidências, é de que somos seres intuitivos, e que essa intuição vem quase sempre antes da razão. No fundo, o que fazemos tantas vezes é um processo de racionalização do que sentimos, buscando, após a conclusão já tomada, as “provas” que desejamos encontrar. Nosso cérebro é eficiente em nos convencer de nossas virtudes e razão, ainda que seja alguma paixão a verdadeira força no comando.

O autor, que tem uma inclinação “progressista” e costuma defender políticos do Partido Democrata, utiliza as teorias evolutivas como arcabouço para suas teses. Ainda assim, ele reconhece que muitos democratas passaram a demonizar as intenções dos seus adversários republicanos conservadores, não precisando mais questionar seus argumentos. Seriam pessoas ruins, alienadas, preconceituosas, então não é mais preciso participar de um diálogo respeitoso e construtivo com eles. É esse o grande equívoco que Haidt tenta expor e desfazer.

Encontramo-nos facilmente divididos em grupos hostis, cada um certo de sua correção

Ainda que ele reconheça que o homem é, via de regra, um hipócrita egoísta habilidoso em expor suas supostas virtudes, ele também admite a existência do altruísmo genuíno, especialmente direcionado a membros do nosso próprio grupo, e argumenta que a religião não é um vírus ou um parasita, como querem os ateus militantes modernos, e sim uma adaptação evolutiva que une grupos e os ajuda a criar comunidades com uma moralidade compartilhada.

Infelizmente, as pessoas acabam se unindo a times políticos que dividem uma narrativa moral comum e, uma vez aceita esta narrativa, elas se tornam cegas para visões alternativas de mundo. Haidt não é um relativista moral. Há uma possibilidade finita de valores morais e ninguém pode dizer que defender a democracia ou os campos de concentração comunistas e nazistas seja uma simples questão de gosto. Mas, como Berlin, ele enxerga espaço para uma pluralidade razoável dentro desses limites aceitáveis, já que o mundo é complexo.

O problema é que a maioria está arraigada demais ao seu próprio mundo, que julga justo e fruto somente da razão, e se torna assim incapaz de ver no outro um valor semelhante. Aqueles que enfatizam mais o indivíduo, por exemplo, acabam abominando aqueles que colocam mais ênfase no coletivo, na família, na pátria, sem necessariamente cair no coletivismo. Aqueles que priorizam a caridade podem acabar desprezando aqueles que amam a liberdade, e os que falam apenas de justiça podem não compreender os que defendem a autoridade.

Diante de inúmeras escolhas morais no dia a dia, o ser humano precisa de um mecanismo para além da razão, ou que muitas vezes antecede a razão. O dilema entre emoção e razão atravessa o debate filosófico desde os gregos. Entre as diferentes escolas, Haidt se aproxima mais de Hume, para quem a razão é uma serva das paixões. Mas ele não chega a tal extremo. Sua analogia é de que somos como um guia num elefante: o guia é a mente, o elefante são as intuições. Elas apontam para uma direção e o guia vai atrás, tentando controlar da melhor forma que puder o destino.

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Nossas convicções:O poder da razão e do diálogo

Liberais como Hayek compreenderam que era racional usar a razão para reconhecer seus próprios limites. O que não parece ser muito racional é acreditar numa capacidade racional absoluta, que dê conta de todas as questões morais da vida em sociedade. As emoções não são bobas ou inúteis para nossas decisões. Ao contrário: são instrumentos cognitivos importantes, como demonstrou Antonio Damasio no estudo com pacientes que tiveram a parte emotiva do cérebro danificada.

O resumo é que a mente humana está constantemente reagindo intuitivamente a tudo aquilo que percebe e baseando suas respostas nessas reações. O psicopata é justamente aquele que vive num mundo só de objetos, sem emoções como a empatia, a culpa, o nojo por atos impuros. Não é a habilidade de pensar que lhe falta, mas as emoções morais. Por outro lado, crianças normais já tomam decisões morais muito antes de desenvolver melhor seu raciocínio. O elefante já começa a “tomar decisões” antes de o guia chegar com a razão e a linguagem para explicar tais decisões.

Por mais que o elefante seja poderoso, ele não é o ditador absoluto do indivíduo. Não se trata, portanto, de atacar a razão, e sim de reconhecer suas limitações. E, ao aceitar isso, devemos nos tornar mais humildes e dispostos a interações construtivas com outras pessoas que divergem de nossas crenças. Se a mente busca mais a confirmação do que a verdade, então é importante se manter alerta a esse risco e interagir com respeito, buscando se colocar no lugar do outro, ciente de que nosso próprio cérebro está mais para um advogado de defesa do que para um cientista imparcial. Podemos nos desarmar um pouco na hora da conversa.

Isso não é o mesmo, repito, que o “tanto faz” quando o assunto é moral, e sim um alerta para o perigo do monismo na moral, quando o indivíduo acha que existe somente um aspecto moral a ser levado em conta sempre. Talvez um dê mais valor à justiça e o outro, à lealdade. Talvez um queira focar na caridade e o outro, na santidade. Um pretende proteger a liberdade individual a todo custo, o outro destaca a importância dos valores tradicionais do grupo. Será que ainda é possível um aprender algo com o outro?

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
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