Disse o juiz Sergio Moro, recentemente, que entre o moralmente certo e o errado não há meio termo, assim como não há mulher semigrávida. Este é um tema ético difícil. O juiz talvez tenha razão, mas felizmente ele não está decidindo o futuro da humanidade, pois seria o caso de se perguntar se uma Lava Jato moral nos pouparia. De fato, creio estar cercado de pessoas honestas, mas as pessoas que pretendem ser honestas o fazem com grau de empenho diferente, e quando se empenham nem sempre conseguem o mesmo sucesso. Será você plenamente honesto/a consigo mesmo/a? Pequenas mentiras são permitidas? E grandes mentiras, se forem destinadas a evitar um mal maior? Talvez Moro pensasse aqui como Kant, para quem a moral correta se define por um princípio categórico. Não é, não. Mas talvez seja defensável o consequencialismo de Stuart Mill, que, como parece razoável, diria que sim – mesmo que nesse caso o universo da moral, por outras razões, ganhe obscuridades. Como decidir?

Talvez nem todo juiz saiba sempre julgar justamente. Aliás, tenho para mim que o bom juiz (não só em assuntos morais) é o que mais seriamente acha possível estar sendo injusto, contra sua própria impressão de justiça. Não vai nenhuma ironia aqui; o juiz Moro tem toda a razão, acho eu, se se refere à determinação de culpa na prática de um ato ilícito. Não tenho dúvida de que levar adiante a ação da Justiça é um bem e admiro sinceramente o talento singular com que ele tem sido capaz de expor o fio do labirinto pelos conluios entre o poder público e seu financiamento empresarial.

O bom juiz é o que mais seriamente acha possível estar sendo injusto, contra sua própria impressão de justiça

Porém, como a navalha da Justiça corta no mundo político real? Tenho observado que a visão do juiz Moro tem eco no povo. As pessoas, sentindo-se continuamente oprimidas pelos políticos (mas quem os emprega?), tendem muitas vezes a se posicionar diante dos episódios recentes dizendo que “são todos bandidos”. Que protestem, mas isso às vezes ganha fervor inquisitório: o irmão de um colega foi quase linchado por se recusar a dizer, numa fila de banco aqui em Curitiba, que queria o barbudo morto, em coro com os demais que lá estavam. Não era Jesus. Sim, eles seriam, nesse caso, homicidas, e a cada qual cabe uma pena compatível com o crime, e aos homens públicos sobretudo. Mas, diversamente do povo da fila, não podemos saber como cada político delatado meditou moralmente sobre as consequências de seus atos legalmente condenáveis. Um juízo menos imperfeito exige capacidade de observar uma longa série de ações e consequências que pouca gente possui ao apertar o botão mágico da urna.

Não quero salvar ninguém, muito menos elogiar a moral dos políticos no atacado. O ponto é que entre o corte linear da Justiça e a espessura da vida real pode ocorrer descompasso e paradoxo. Pessoalmente, lamento os erros que conheço da nossa presidente, até aqui principalmente aqueles relativos à política econômica. Vários projetos excelentes, que cresceram na UFPR nos últimos anos, estão morrendo. Mas acho que muitos que estão sorrindo, mesmo sendo vaiados na rua ou citados em delações, não teriam nem sequer a intenção de pensar neles; outros batem em professores e esperam em silêncio que o mar se acalme. Todos eles devem ser igualmente punidos pela lâmina da Justiça e torço muito para que isso nos faça bem. Mas será que devo também esperar pelo messias?

Luiz A. Eva é professor do Departamento de Filosofia da UFPR.
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