Onde, como e quando começou a bandalheira no Brasil? Quais os seus ingredientes e estímulos? Em que circunstâncias prosperou? A imoralidade é ambiental, climática, social, sistêmica, psicológica, religiosa, política, cultural? Foi importada ou é congênita?
O interesse pela gênese do senso moral hoje transcende os estudos sobre o comportamento humano. Ultrapassou a antropologia, também os etólogos querem saber se outros animais, especialmente primatas, são capazes de distinguir o que é certo ou errado.
Confinar esta pesquisa sobre a origem da imoralidade ao Senado Federal distorce o problema: a corrupção brasileira não se limita ao âmbito senatorial ou mesmo legislativo. A insustentável situação do presidente da Câmara Alta (Renan Calheiros), a renúncia de um senador flagrado em transações ilícitas (Joaquim Roriz), a desconfiança que envolve o seu suplente (Gim Argello, implicado nas mesmas trapalhadas) e as suspeitas que pairam em torno da isenção do Corregedor (Romeu Tuma) e do próprio presidente da Comissão de Ética (Leomar Quintanilha), são dados adicionais que, no máximo, assemelham as duas casas do Congresso.
A vergonhosa situação nas altas instâncias da República não explica a etiologia nem a letalidade de uma doença que aparece com dimensões de pandemia. As diferentes explicações jurídicas sobre a impunidade ou as análises sociológicas sobre a indiferença da sociedade diante da sucessão de escândalos (manifestada nas recentes sondagens de opinião pública) são constatações auxiliares, não nos remetem ao pecado original.
A verdade é que a corrupção não fascinou os chamados "Intérpretes do Brasil". Os estudos brasileiros modernos começando por Joaquim Nabuco e terminando em Raimundo Faoro (passando por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado, Florestan Fernandes) não se serviram da corrupção como fenômeno em si, caso de estudo específico. Trataram-na como decorrência, fenômeno paralelo. Consideraram a corrupção como resultado de um conjunto de fatores e, não como causa, questão fulcral, capaz de marcar de forma decisiva o processo social.
Não foi cegueira ou miopia: a libertinagem talvez não chegara às atuais proporções, ou a enxergaram como disfunção transitória, capaz de ser corrigida através da educação, reformas institucionais ou drásticas mudanças políticas. Não poderiam imaginar que a corrupção poderia contaminar e perverter até mesmo as propostas revolucionárias destinadas a transformar e melhorar a natureza do homem e da sociedade.
A opção ditatorial adotada em 1964 não corrigiu, ao contrário, agravou um processo que àquela altura já era visível. Duas décadas de moralismo autoritário aprisionaram o Estado de Direito e aviltaram as instituições que poderiam defendê-lo e aperfeiçoá-lo (imprensa, Judiciário, Ministério Público). O próprio aparelho policial colocado quase que inteiramente a serviço da repressão política subverteu o conceito de respeito à lei.
A redemocratização progressiva evitou rupturas, mas permitiu que o processo de transição mantivesse protagonistas identificados com uma ditadura que pouco se preocupou com a probidade.
A corrupção é hoje, a mãe de todos os nossos males, impôs-se como matriz: alimenta a violência, facilita as transgressões, drena preciosos recursos, enfraquece a meritocracia, desestimula os talentos, desvirtua o processo representativo, torna iníqua a justiça, anestesia a capacidade de reação, favorece o individualismo insano, emascula o senso comunitário.
Os instrumentos através dos quais aflorou o Escândalo Renan são ainda mais desanimadores. Não invalidam a gravidade das acusações, mas não representam um avanço em matéria de virtudes, apenas equalizam os vícios.
A origem da imoralidade não é questão secundária. Já que parece tão difícil combater a depravação moral, mais fácil seria identificar seus antecedentes.
Alberto Dines é jornalista.






