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Durante a pandemia, a telemedicina precisou provar que era possível. Hoje, já não há dúvidas de que ela faz parte da realidade da saúde brasileira. O debate mais importante deixou de ser sobre sua permanência e passou a ser sobre sua maturidade: como ampliar o atendimento remoto sem criar a expectativa de que ele pode resolver, sozinho, todas as necessidades do paciente?
Essa mudança de perspectiva é necessária porque o crescimento da modalidade já não representa apenas uma resposta emergencial. Dados da Doctoralia mostram que o número de agendamentos de teleconsultas na plataforma passou de cerca de 2,1 milhões, em 2023, para 3,75 milhões, em 2025 - um avanço de aproximadamente 78% em dois anos. Depois do salto observado em 2024, o crescimento continuou no ano seguinte, indicando que o atendimento remoto encontrou um lugar permanente na jornada de saúde.
A adoção também avançou entre os prestadores. Segundo o Panorama das Clínicas e Hospitais 2026, realizado pela Doctoralia em parceria com a Feegow e que ouviu 639 profissionais de saúde, 68% das clínicas e hospitais brasileiros já utilizam telemedicina com todos ou parte de seus especialistas.
Esses números demonstram que a modalidade deixou de ser exceção. Mas seu valor não deve ser medido pela capacidade de substituir o consultório. A telemedicina é relevante porque reduz distâncias, acelera orientações, facilita acompanhamentos e conecta pacientes a profissionais que, em muitos casos, estariam geograficamente inacessíveis.
Em um país continental, marcado pela concentração de especialistas nos grandes centros e por profundas desigualdades de acesso, essa ampliação tem impacto concreto. Para muitos pacientes, a consulta online pode significar menos horas de deslocamento, maior continuidade de um tratamento ou acesso a um especialista que não está disponível em sua cidade.
Ao mesmo tempo, reconhecer os benefícios da telemedicina exige reconhecer seus limites. Há situações em que a avaliação presencial é indispensável, seja pela necessidade de exame físico, pela suspeita de gravidade, pela indicação de um procedimento ou por uma dúvida diagnóstica que não pode ser esclarecida remotamente. Quando o canal digital reduz a segurança ou a qualidade da decisão clínica, ele deixa de ser a melhor alternativa.
Isso não representa uma fragilidade da telemedicina. Ao contrário: saber encaminhar o paciente para o atendimento presencial é um dos sinais de que a modalidade amadureceu.
O arcabouço normativo brasileiro parte justamente desse entendimento. A legislação estabelece princípios como autonomia do profissional de saúde, consentimento livre e informado, direito do paciente de recusar o atendimento remoto, confidencialidade e proteção dos dados pessoais. No caso da medicina, a regulamentação do Conselho Federal de Medicina também preserva a autonomia do médico para definir quando a consulta presencial é necessária.
Existem ainda limites objetivos. Em doenças crônicas ou condições que demandem acompanhamento prolongado, a regulamentação determina a realização de consulta presencial em intervalos não superiores a 180 dias. Na medicina do trabalho, o exame médico ocupacional deve ser realizado presencialmente. Essas regras não anulam a flexibilidade proporcionada pela tecnologia; elas evitam que conveniência seja confundida com suficiência clínica.
A segurança da telemedicina também depende da maneira como o paciente é orientado. O estudo Perfil do Paciente Digital 2026 mostra que mais de 88 milhões de consultas foram agendadas por meios digitais em 2025 e que 84% dos acessos à plataforma Doctoralia ocorreram pelo celular. Entre os participantes da pesquisa, 61% tinham 44 anos ou mais, o que ajuda a afastar a ideia de que a digitalização estaria restrita aos mais jovens.
Ainda assim, familiaridade com o celular não significa pleno conhecimento sobre o atendimento remoto. Existem diferenças de letramento digital, conectividade, idade e região. Também há pacientes que desconhecem quais informações devem receber, como seus dados serão tratados ou em que momento devem procurar uma avaliação presencial.
Por isso, uma experiência digital segura precisa ser simples sem ser superficial.
O paciente deve compreender os limites da consulta, ter clareza sobre o tratamento e o armazenamento de seus dados e contar com uma possibilidade real de encaminhamento presencial
A tecnologia pode facilitar o acesso, mas a confiança continua sendo construída por meio de transparência, acolhimento e responsabilidade.
Também é preciso evitar uma falsa oposição entre atendimento remoto e presencial. O futuro da assistência não será definido pela vitória de um canal sobre o outro, mas pela capacidade de integrá-los. Uma consulta pode começar remotamente, seguir presencialmente e continuar com acompanhamento digital. O mais importante não é onde cada interação acontece, mas se existe continuidade entre elas.
A telemedicina já venceu a barreira da adoção. Sua próxima etapa será consolidar qualidade, interoperabilidade, proteção de dados e integração assistencial. Isso depende de aplicar bem as normas existentes, qualificar os serviços e manter a autonomia clínica no centro das decisões.
O verdadeiro avanço não está em fazer tudo à distância. Está em utilizar cada canal quando ele melhor atende às necessidades do paciente. A telemedicina será tão mais relevante quanto menos precisar prometer que resolve tudo - e quanto mais conseguir entregar, com segurança, aquilo que de fato pode fazer.
Mateus Hermont é diretor jurídico da Doctoralia.



