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A teoria e a realidade no discurso de Mujica

O Uruguai da Frente Ampla é uma sociedade capitalista em que a política andou sim de mãos dadas com a “lógica do mercado”. Como já disse o próprio Mujica, para outro público, “precisamos do capitalismo para que a roda continue a girar”

  • PorGuilherme Voitch
  • 04/08/2016 00:01

O ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica causou furor em sua passagem por Curitiba na última quarta-feira (27). Falando para cerca de 3.500 pessoas, Mujica criticou o capitalismo e a “lógica do mercado na política”. Entrou e saiu de cena com o jogo ganho, sendo tratado com idolatria pela plateia, notoriamente de esquerda, e por alguns políticos locais.

Não vou me ater à retórica peculiar de Mujica, bastante explorada por esta Gazeta do Povo, nem debater as medidas relacionadas às liberdades individuais adotadas por ele, com as quais eu concordo.

O que chama a atenção no discurso de Mujica é a crítica fácil ao tal capitalismo, tão facilmente comemorada pela plateia. A impressão que se tem é que o ex-presidente uruguaio iniciou uma pequena revolução socialista em seu país dado o teor das suas declarações e a receptividade do público. O problema é que a narrativa não bate com a realidade.

Mujica foi presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, sucedendo seu colega de partido Tabaré Vázquez, que governou entre 2005 e 2010. Vázquez levou seu partido, a Frente Ampla, uma coalização de legendas e entidades de esquerda, a quebrar a hegemonia de anos dos dois principais partidos uruguaios (Colorado e Nacional). Agora, é Vasquez que substitui Mujica na presidência com a Frente Ampla somando onze anos no governo federal.

O próprio FMI, em um dos últimos reports, afirma que o Uruguai tem sido um “bastião de estabilidade” nos últimos anos. O pessoal que aplaudiu Mujica na última quarta-feira deve estar botando fogo nas vestes com um elogio vindo do FMI, mas o fato é que o governo de Mujica e de seu colega Tabaré Vazquez estão longe de serem hostis ao capitalismo

Nesse período, o Uruguai viu uma evolução gradual da qualidade de vida da população, com diminuição da pobreza e melhora de outros índices. Em 2015 o IDH uruguaio chegou a 0,793, ante 0,755 em 2005. Isso significou passar da 53º posição para a 52º. Não é nenhum milagre, mas certamente são índices bastante razoáveis dada a realidade do continente.

A questão é que, ao contrário do discurso de Mujica, nos onze anos da Frente Ampla do Uruguai, o que se viu foi mais capitalismo e não menos.

Quem atesta isso? Os próprios capitalistas. O Index Economic Freedom, elaborado pelo Heritage Foundation e pelo Wall Street Journal, é, por exemplo, a principal ferramenta para avaliar o quanto um país é simpático ao capitalismo e ao livre mercado.

Na escala do Index of Economic Freedom, quanto maior a pontuação, mais aberta é a economia do país. O Uruguai ganhou pontos rumo a uma economia mais liberal nos anos de administração da Frente Ampla. Passou de 66,9 para 68,8 entre 2005 e 2016. Um aumento de 1,9 ponto. Para efeitos de comparação, no mesmo período a média mundial aumentou 1,1 ponto e o Brasil perdeu 5,2 pontos.

O relatório de 2016 do Index elogia também o Uruguai pelos quesitos “financial freedom”, que medem a independência do setor bancário em relação ao governo, e pelo quesito “monetary freedom”, que analisa a inflação e o comportamento do governo frente a questões macroeconômicas. Também foram destacados cortes de impostos promovidos recentemente.

Outro indicador importante é o Doing Business do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios no mundo. O Uruguai aparece novamente na posição 92, à frente do Brasil (116) e Argentina (121).

O próprio FMI, em um dos últimos reports, afirma que o Uruguai tem sido um “bastião de estabilidade” nos últimos anos. O pessoal que aplaudiu Mujica na última quarta-feira deve estar botando fogo nas vestes com um elogio vindo do FMI, mas o fato é que o governo de Mujica e de seu colega Tabaré Vazquez estão longe de serem hostis ao capitalismo, aos mercados internacionais e às grandes empresas como quer fazer parecer o ex-presidente em seu discurso.

A análise merece um outro texto, mas a racionalidade econômica se deve em grande parte a Danilo Astori, ministro da Economia durante o governo de Tabaré e vice-presidente no mandato de Mujica. Astori está muito mais próximo ao pragmatismo chileno do que ao caminho seguido pelo Brasil com a nova matriz econômica.

Obviamente, o Uruguai não é uma ilha da ultraliberalismo econômico. A legislação trabalhista do país ainda é um nó difícil de ser desfeito, a inflação tem gerado certa preocupação e o os organismos internacionais têm recomendado ao país frear os gastos e aumentar a poupança interna.

Ainda assim, o discurso em Curitiba parece ter sido só uma pregação para convertidos em que pesou mais a imagem de austeridade pessoal do ex-presidente do que qualquer tipo de análise. O Uruguai da Frente Ampla é uma sociedade capitalista em que a política andou sim de mãos dadas com a “lógica do mercado”. Como já disse o próprio Mujica, para outro público, “precisamos do capitalismo para que a roda continue a girar”.

Guilherme Voitch é jornalista
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