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Câmara dos Deputados, em Brasília. Imagem ilustrativa.| Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

Suponho que uma das experiências mais evidentes de nossa natureza humana anti-individual não é tão discutida e apreendida com apreço por cristãos como um sinal da imagem de Deus em nosso cotidiano. Falo da nossa comum sociabilidade, essa necessidade de vivermos em um tecido social, conectados com outros indivíduos.

Somos seres sociais – Homo socialis –, e isso significa em termos práticos que somos influenciados diariamente e inconscientemente a partir de nossas interações com outras pessoas, física ou virtualmente. Isso, de diversas maneiras, afeta nossas opiniões, nossos comportamentos e nossos sentimentos.

Esse fenômeno é também conhecido como “contágio social”, mas trata-se apenas de um efeito da causa ontológica do ser humano como Homo socialis. Dentro do conceito de relações sociais, é possível integrar também a noção de política e apreender, também a partir das experiências na vida pública, a noção do homem como ontologicamente social.

Por exemplo, é de comum conhecimento que a palavra “política” é derivada do termo grego “politikos”, que designava os cidadãos que viviam na “polis”. A polis, por sua vez, era um termo usado para se referir à cidade física e também, em sentido mais específico, à sociedade de pessoas associadas. A política era e é a arte da associação. Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), aquele distinto e erudito filósofo grego, defendia na Política que a polis é “fundada pelo impulso natural do homem para a associação política”. Outro teórico, o teólogo calvinista alemão Johannes Althusius (1563-1638), defendeu em sua obra Política que o tema deste aspecto é “a associação, na qual os que vivem juntos obrigam-se entre si [...] à comunicação mútua daquilo que é necessário e útil para o exercício harmônico da vida social”.

Portanto, vida política deve ser entendida essencialmente como ato ou atos de associação que acontecem em uma eventual cidade. Nessa distância histórica e cultural desses dois teóricos, estamos enxergando algo em comum na experiência humana que nos levará a sua origem.

Abraham Kuyper (1837-1920), estadista calvinista holandês, séculos depois de Aristóteles e Althusius, também escreveu, em Calvinismo, que o impulso para formar estados ou cidades nas sociedades “nasce da natureza social do homem, a qual já foi expressa por Aristóteles quando ele chamou o homem de um (ser político)”.

No entanto, Kuyper não simplesmente observa o fato de que somos seres sociais tal como fizeram os antecessores ou como nós fazemos diariamente. O holandês vai além, buscando o ponto nevrálgico apontando para a origem supra-histórica e temporal dessa característica ontológica do homem para se associar livremente: o próprio Deus, que é tanto pessoal quanto trinitário; que se relaciona entre Si e com a sua criação e que imprimiu Sua imagem polifônica de Ser comunicável em nós para que nós sejamos capazes de nos comunicar.

“Deus poderia ter criado os homens como indivíduos separados”, escreve Kuyper em Calvinismo, “[...] estando lado a lado e sem conexão genealógica [...]; mas este não foi o caso. O homem é criado a partir do homem e em virtude de seu nascimento ele está organicamente unido a toda raça. Nós formamos juntos uma humanidade”. Isso significa que a base da vida política é o elemento da associação que emerge como resultado da nossa natureza humana feita à imagem de Deus.

Por fim, por que resgatar essa compreensão é importante? Porque perdemos de vista como a política e as demais relações sociais também são realidades projetadas por Deus quando nos criou como seres associáveis.

De fato, a corrupção e a maldade florescem de maneira avassaladora nas relações políticas, o que nos leva a manter certa distância desse aspecto em particular. Contudo, não devemos abandonar a política às traças – ou melhor, ao diabo e seus anjos – devido ao caos da impiedade instaurada, mas, como gerenciadores fiéis deste mundo e capacitados plenamente por Deus através de sua Palavra, precisamos redimir a vida pública.

Como? Em primeiro e mais importante lugar, realizando uma antítese teórica e prática às cosmovisões secularistas e individualistas radicais, expressas em ideologias como o anarquismo, o humanismo existencial, o liberalismo moral, que tentam promover a emancipação do indivíduo de sua responsabilidade para com o próximo e para com o seu Criador. Isso significa pensar corretamete, como indivíduos que não vivem só para si mesmos, e viver de forma adequada, criando uma comunidade querida por Deus, e não um mero chão seco cheio de almas.

Somente por meio dessa visão da vida pública como expressão da nossa ontologia criacional e da missão de transformação social pelo Evangelho, creio (!), poderemos novamente apreciar a política e ter uma esperança cautelosa apesar de seu atual estado tenebroso.

Fernando Razente é historiador com atuação em rádio, assessoria e mídia. 

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