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Uma embalagem reciclável é aquela tecnicamente apta a ser reprocessada. O material existe, a tecnologia existe. Uma embalagem reciclada é aquela que, de fato, percorreu toda a cadeia: foi coletada, triada, processada e virou matéria-prima nova. A diferença parece semântica, mas não é. É exatamente nesse eixo que a economia circular brasileira está neste momento.
O Brasil recicla 97,3% das latinhas de alumínio que consome, índice verificado pela Recicla Latas em 2024, com 16 anos consecutivos acima de 96%. No mesmo país, menos de 9% do total de resíduos sólidos urbanos é efetivamente reaproveitado, conforme o Panorama dos Resíduos Sólidos 2024 da Abrema.
Digitalizar a cadeia de resíduos, criar subsídios onde a equação não se fecha sozinha e endurecer as regras sobre o que pode ser comunicado nas embalagens – como já fez a Inglaterra, que restringe os selos a uma única informação: como descartar – são passos concretos
E 40% do material que chega a uma cooperativa de catadores volta para o aterro, dado do Estudo Técnico de Análise Gravimétrica 2025 da Yattó, realizado em cooperativas parceiras. Três números que convivem no mesmo país e sintetizam o problema central: reciclável não é o mesmo que reciclado, e confundir os dois conceitos é o maior risco reputacional que uma empresa pode correr em 2026.
O problema da economia circular brasileira não é falta de consciência ambiental. É uma falha de design econômico em camadas simultâneas. A primeira é tributária: o material reciclado é bitributado no Brasil em relação à resina virgem, um absurdo estrutural que inverte qualquer incentivo ao reaproveitamento. A segunda é de infraestrutura: a cadeia logística de retorno não fecha financeiramente fora dos grandes centros. A terceira, e mais silenciosa, é o equívoco de origem no próprio produto.
Muitas empresas migraram embalagens rígidas recicláveis para flexíveis monomateriais, reduziram plástico, diminuíram emissões no transporte, cortaram custos. Ganhos reais. Mas essas embalagens chegam a cooperativas sem esteira adequada, sem cadeia estruturada para recebê-las, e vão para o aterro. Não por má-fé, em muitos casos, mas por uma cadeia que ainda não acompanhou a velocidade das mudanças de embalagem. Ser reciclável e ser reciclado continuam sendo dois fatos distintos que o mercado ainda precisa aprender a separar.
Aí mora o segundo problema: o mecanismo de crédito de compensação, previsto em lei e legítimo como instrumento de financiamento, em alguns casos virou atalho para quem quer o selo sem percorrer a rota. A meta subiu de 10% para 32% ao longo dos últimos anos, e a taxa de reciclagem geral do país permanece estagnada abaixo de 9%, segundo dados da Abrema. Os recursos circulam, o material não.
É o "rejeito do rejeito" em forma de política pública. E quem paga a conta mais pesada é o município, que, ao não apoiar a cooperativa local, acaba arcando com o custo de enterrar o rejeito. Quando esse suporte não existe, é a própria cooperativa que desconta esse custo do bolso, do mesmo rendimento que já é mínimo, mesmo prestando um serviço ambiental para toda a sociedade.
A tecnologia entra nessa equação não como redenção, mas como auditor. O Brasil já tem dados suficientes para mapear quais materiais são efetivamente reciclados em quais municípios. Rastreabilidade via identificadores digitais e inteligência artificial podem transformar materiais hoje invendáveis em ativos com lastro real, mas a condição prévia é uma cadeia capaz de processá-los. Aplicar sensor infravermelho em uma operação em que catadores trabalham no chão batido, sem teto, abrindo saco a saco, é instalar software de gestão em empresa sem energia elétrica. A demanda tecnológica mais urgente das cooperativas brasileiras hoje não é IA: é piso, é teto, é esteira.
O case da latinha prova que o Brasil tem capacidade para construir cadeias circulares de alta eficiência e que o motor não é consciência: é margem. A latinha tem taxa de 97,3% porque tem valor de mercado consolidado. Se a embalagem de salgadinho tivesse o mesmo valor agregado, ninguém a deixaria no chão.
Digitalizar a cadeia de resíduos, criar subsídios onde a equação não se fecha sozinha e endurecer as regras sobre o que pode ser comunicado nas embalagens – como já fez a Inglaterra, que restringe os selos a uma única informação: como descartar – são passos concretos. A legislação brasileira avança nessa direção, com decretos que já preveem penalidades para greenwashing. Circularidade como estratégia de resiliência de suprimentos, diante de matérias-primas cada vez mais escassas, é um argumento que o mercado vai compreender no próprio balanço. A questão é se vamos esperar a crise ou antecipar a transição.
Luiz Grilo é formado em Processos Gerenciais pela FGV e atua como diretor comercial e de marketing na Yattó.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



